UOL Notícias Internacional
 

16/10/2007

Websites de extremistas islâmicos têm como alvo os cibernautas dos Estados Unidos - parte 2

The New York Times
Michael Moss e Souad Mekhennet*
Atingindo os Estados Unidos
Na primavera passada, a Al Qaeda fez aquilo que os analistas disseram ter sido uma ousada tentativa de obter potenciais aliados nos Estados Unidos. Em uma entrevista gravada, Ayman al-Zawahri, braço-direito de Bin Laden, elogiou Malcolm X e pediu aos negros norte-americanos e outras minorias que observassem que a Al Qaeda está "lançando uma jihad para acabar com a opressão contra toda a humanidade".

A fita logo encontrou uma platéia. Al-Zawahri "se preocupa com o povo negro", escreveu um bloguista da "Vibe", a revista de hip-hop e cultura urbana norte-americana, que alega contar com 1,6 milhão de visitas por mês. "Pelo menos creio que foi por isso que ele citou Malcolm X na sua última fita, que foi divulgada no final de semana passado".

Umar Lee, 32, convertido ao islamismo e morador de Saint Louis, contestou duramente al-Zawahri no seu blog para muçulmanos norte-americanos, criticando "o status de segunda classe de muitos negros que vivem no mundo árabe". Em breve Lee foi contestado com comentários sobre os paralelos entre os radicais árabes e os negros norte-americanos.

Bryan Denton/The New York Times 
Abu Omar, militante palestino, produziu vídeos ensinando a construir bombas no Iraque

Uma versão de quatro minutos de duração do vídeo de uma hora da Al Qaeda intitulado "Aos Negros Norte-Americanos" foi acessada mais de 1.800 vezes no YouTube nos quatro meses desde que foi colocada naquele site.

Entre aqueles que inseriram um link para a versão do YouTube está Khan, o bloguista da Carolina do Norte que disse ter ficado surpreso com a
simplicidade nas mensagens tanto da Al Qaeda quanto na de Malcolm X.

"Eles são gênios por terem a capacidade de moldar a sua ideologia em mensagens simples mas influentes, capazes de atingir as bases sociais", afirma Khan.

Khan produz o seu blog anonimamente, mas foi identificado pelo "The Times" por meio da conta de e-mail que utilizou em discussões online anteriores (as fotos que ele colocou online ajudaram o "The Times" a distingui-lo de um outro morador da Carolina da Norte, cerca de dez anos mais velho, que tem o mesmo nome). Em uma entrevista em uma mesquita local, onde sentou-se sobre um tapete de orações usando um tradicional robe árabe, Khan falou sobre a sua militância cada vez mais acirrada.

O seu blog obteve uma notoriedade suficiente para que grupos vigilantes que se opõem aos sites da jihad o tirassem do ar algumas vezes nos últimos meses. Ele diz ter ficado meio surpreso por não ter sido confrontado por autoridades governamentais, embora tenha afirmado: "Eu nunca disse a ninguém que fizesse bombas".

As suas primeiras mensagens, a partir de 2003, defenderam o fortalecimento do islamismo na América do Norte por meio de confrontos não violentos. Mas com a escalada da guerra no Iraque, o derramamento de sangue tornou-se um tema freqüente.

Ele descreve o seu vídeo favorito do Iraque: um violento ataque suicida à bomba contra um posto militar norte-americano.

"Aquilo foi algo que me proporcionou uma enorme felicidade", disse ele. "Isso porque a imagem mostra uma coisa que os Estados Unidos jamais desejarão admitir: que estão sendo esmagados".

Ao ser perguntado como se sente vivendo em meio a pessoas que mandaram soldados para o Iraque, Khan respondeu: "O que quer que aconteça com os seus filhos e filhas não é da minha conta. São pessoas diabólicas e não me preocupo com elas".

O caminho de um jihadista da Internet
Nascido em Riad, a capital da Arábia Saudita, Khan tinha sete anos de idade quando a sua família se mudou para Nova York e estabeleceu-se na área de Maspeth, no Queens.

Ele era igual aos seus colegas adolescentes, cultivando as mesmas gírias e usando calças baggy, até agosto de 2001, quando, aos 15 anos de idade, participou de um acampamento de verão de uma semana em uma mesquita no Queens, que foi patrocinado por um grupo fundamentalista, mas não violento, atualmente conhecido como Organização Islâmica da América do Norte.

"Eles ensinavam coisas sobre religião e irmandade que me cativaram", diz Khan. "Retornei à escola sabendo o que queria na vida: ser um muçulmano firme, um muçulmano forte, um muçulmano praticante".

Ele passou a orar regularmente. A se vestir de forma mais modesta. Parou de ouvir músicas, com exceção daquelas dos Soldiers of Allah, um grupo de hip-hop de Los Angeles, atualmente extinto, cujas músicas como "Bring Islam Back" continuam a fazer sucesso mundial entre a juventude militante.

Ele também confraternizou com membros da Sociedade dos Pensadores Islâmicos, um pequeno grupo que promove o islamismo radical e não violento com a distribuição de panfletos em Times Square e em Jackson Heights, no Queens.

Depois de se mudar com a sua família para a Carolina do Norte em 2004, Khan freqüentou uma faculdade comunitária durante três anos e ganhou dinheiro vendendo diversos produtos, incluindo facas de cozinha.

Mas ele passou a dedicar grande parte dos seus dias ao blog que criou no final de 2005, o "Inshallahshaheed", cuja tradução é "um mártir em breve, caso seja a vontade de Deus". O medidor de tráfico da Internet Alexa.com, que raramente é capaz de medir a popularidade dos blogs, porque eles não têm um número suficiente de leitores, colocou o de Khan entre o topo formado por 1% dos cem milhões de sites da Internet em todo o mundo.

Se a retórica extremista de Khan possibilitou que ele conquistasse uma platéia, ela lhe causou problemas em casa. No ano passado, o seu pai tentou atraí-lo para as posições mais moderadas da família, pedindo a um imame que interviesse.

"Eu tentei usar argumentos do Alcorão e de autoridades islâmicas, e disse a ele, 'O que quer que você esteja pensando, não é a verdade'", conta Mustapha Elturk, um amigo da família e líder da Organização Islâmica da América do Norte, a instituição muçulmana que primeiro inspirou Khan. Mas, segundo ele, Khan não cedeu.
JIHADISTAS NA WEB
Reuters
 
PARTE 1


Khan disse ter se desvinculado da Organização Islâmica da América do Norte devido a uma questão: a organização não apoiaria a jihad violenta sem a aprovação de um líder muçulmano nacional, algo que, segundo Khan, é desnecessário.

Elturk diz: "O pai e a família estão realmente com medo de que ele possa fazer alguma coisa".

Khan conta que de vez em quando o pai impediu o seu acesso à Internet e que, para acalmá-lo, o jovem acrescentou recentemente uma nota no seu blog afirmando que não assume responsabilidade por qualquer das idéias expressas no site.

Ele tem também se defendido de indivíduos vigilantes que trabalham no sentido de acabar com sites como o dele. Em setembro, durante duas vezes, o seu blog sumiu quando o seu provedor o tirou do ar, alegando ter recebido reclamações sobre a natureza das suas mensagens. O blog saiu do ar novamente no último domingo.

Khan agora mudou o blog para um site chamado Muslimpad, cujos operadores norte-americanos mudaram-se recentemente do Texas para Amã, na Jordânia. O fórum maior, a Rede Islâmica, é palco de discussões entre muçulmanos de língua inglesa. Um dos seus ex-funcionários, Daniel Maldonado, foi condenado neste ano por um tribunal federal por se associar a campos de treinamento na Somália.

Khan diz que sonha em conhecer Bin Laden, e que não descartaria um dia pegar em armas. Em um ensaio recente, ele argumenta que a jihad é obrigatória para todos os muçulmanos, e cita três maneiras de cumprir essa obrigação: juntar-se aos combatentes no Iraque, no Afeganistão e na Argélia; enviar dinheiro a eles; ou promover os vídeos militantes como parte da mídia jihadista. Por ora ele diz que está cumprindo as suas obrigações ao ajudar outros muçulmanos a entender sua religião. Recentemente ele publicou um vídeo de uma reportagem na Somália mostrando um norte-americano que se juntou aos islamitas, e que, nas imagens, porta granadas.

"Ele é um exemplo de um muçulmano que segue a Religião de Islaam", escreveu Khan.

*Contribuíram para esta reportagem, Michael Moss, da Jordânia, do Líbano, da Alemanha, de Londres e da Carolina do Norte; Souad Mekhennet, da Jordânia, do Líbano e da Alemanha; e Margot Williams e Hoda Osman, de Nova York.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host