UOL Notícias Internacional
 

17/10/2007

Os fatos não conseguem vencer as fofocas, aparentemente

The New York Times
John Tierney
Até agora, eu era firmemente a favor das fofocas. Eu gostava da teoria de que a fofoca era a razão pela qual se desenvolveu a linguagem. Eu aplaudia os pesquisadores que acreditavam que a fofoca foi o grande salto evolucionário que permitiu que os macacos humanos vivessem pacificamente em grandes grupos, desenvolvessem códigos morais, construíssem civilizações e, eventualmente, vendessem tablóides em supermercados.

Mas agora me pergunto se não saltamos longe demais, e não é porque tenho assistido "Gossip Girl". Em um artigo sobre a fofoca, publicado na segunda-feira (8/10), biólogos evolucionistas na Alemanha e na Áustria identificaram uma vulnerabilidade que poderia ser chamada de paradoxo Chico Marx, por razões que ficarão claras quando lerem sobre esse experimento.

Os pesquisadores partiram para testar o poder da fofoca, exaltado por teóricos nas últimas décadas. A linguagem, de acordo com o antropólogo Robin Dunbar, evoluiu porque a fofoca é uma versão mais eficiente da interação social essencial para os animais viverem em grupos.
Viktor Koen/The New York Times
 


Os macacos e outras criaturas solidificam seus laços sociais limpando e acariciando uns aos outros, mas o tamanho do grupo é limitado porque não há tempo suficiente em um dia para fazer o asseamento de um grande número de animais.

A fala permitiu aos humanos que se ligassem com muitas pessoas enquanto continuavam caçando e colhendo. Em vez de gastar horas tirando nós dos cabelos, podiam se unir com conversas amigáveis ("Seu cabelo está tão sem nós hoje!") ou apontando o comportamento dos outros ("Sim, ele devia compartilhar a presa, mas ouvi dizer que ficou com as duas ancas").

A fofoca também mostrou às pessoas em quem podiam confiar, e a perspectiva de ter má fama desestimulou-as de agir de maneira egoísta, de forma que grandes grupos puderam cooperar pacificamente. Ao menos, essa era a teoria: a fofoca promoveu a "reciprocidade indireta" que tornou a sociedade humana possível.

Para testá-la, os pesquisadores do Instituto Max Planck de Biologia Evolucionista e da Universidade de Viena deram 10 euros para 126 alunos e os fizeram jogar um jogo que os colocavam em um dilema. A cada rodada, os jogadores teriam a chance de dar 1,25 euros a outro. Se concordassem em ceder o dinheiro, os pesquisadores acrescentavam um bônus de 0,75 euros para que a pessoa recebesse 2 euros.

Se o primeiro jogador se recusasse a dar o dinheiro, ele economizaria 1,25 euros, mas se os outros descobrissem sua avareza, mais tarde poderiam evitar dar dinheiro a ele. Com a progressão do jogo e os jogadores mudando de parceiro freqüentemente, alternando entre os papéis de doador e recipiente, os jogadores receberam informações sobre as decisões de seus antigos parceiros.

Algumas vezes o doador recebia um histórico do que o parceiro havia feito antes, quando no papel de doador. Quanto mais generoso seu parceiro tivesse sido com os outros jogadores, mais provável era que o doador lhe desse algo.

Algumas vezes, mostrava-se ao doador uma fofoca sobre o parceiro. Quando era um elogio como "jogador generoso!", o doador tinha maior chance de dar dinheiro. O doador, entretanto, tornava-se mão fechada quando via uma fofoca chamando o parceiro de "miserável terrível".

Até agora, tudo bem. Como previsto, a fofoca promoveu reciprocidade indireta. A pesquisa, publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences, mostrou que a maior parte das pessoas fazia fofocas precisas e as usava para o bem comum. O comportamento cooperativo era compensado mesmo quando os próprios doadores não eram diretamente afetados pelo comportamento.

Se um jogo de cooperação como esse fosse jogado sem conseqüências para a fama dos jogadores -como foi feito em outros experimentos- a maior parte dos jogadores era avarenta e a cooperação desmoronava. Nesse experimento, eles foram generosos na maior parte do tempo e, em média, terminaram com o dobro de dinheiro que tinham no início do jogo.

Aqui vai a notícia desconcertante do experimento: em duas rodadas, cada doador recebeu os fatos e as fofocas. Cada doador recebeu um histórico de como seu parceiro tinha se comportado antes, assim como alguma fofoca -positiva em uma rodada e negativa na outra.

O doador foi informado que a pessoa que criou a fofoca não teve informações além das que o próprio doador podia ver por si mesmo. Ainda assim, a fofoca, positiva ou negativa, teve uma grande influência nas decisões dos doadores, e nem importava se a fonte da fofoca tinha uma boa reputação ela mesma. Em média, a cooperação aumentou em cerca de 20% quando a fofoca era boa e caiu cerca de 20% quando era ruim.

Talvez você pense que a fofoca teve importância apenas em casos duvidosos -quando o doador recebeu um histórico variado e apreciou a orientação de um terceiro ao fazer sua dura decisão. Mas a fofoca teve um impacto em outras situações também. Mesmo quando um jogador via que seu parceiro tinha um histórico de maldade consistente, ele era influenciado pela fofoca positiva e compensava o parceiro de qualquer forma. Ou não ajudava um parceiro perfeitamente legal, apenas com base na fofoca maliciosa.

Esse resultado pode não chocar aos fãs de "Gossip Girl", ou publicitários tentando plantar itens na "Page Six" sobre as obras de caridade de clientes desprezíveis. Mas pareceu surpreendente para os pesquisadores, de acordo com o principal autor, Ralf D. Sommerfeld, do Instituto Max Planck.

"Se você sabe que já tem todas as informações sobre alguém", disse ele, "racionalmente você não deveria dar tanta importância ao que o outro diz."

Então por que fazemos isso? "Talvez estejamos mais adaptados a ouvir outras informações do que observar as pessoas, porque a maior parte do tempo não somos capazes de observar como os outros estão se comportando. Então talvez acreditemos que perdemos algum fato", sugere.

Isso faz sentido, mas ainda me pergunto se a evolução não deu uma de Chico Marx. Em "Duck Soup", Chico tenta se fazer passar pelo personagem de Groucho, com bigode e charuto, mas encontra Margaret Dumont desconfiada, que diz que acaba de ver Groucho sair da sala.

"Bem, em quem você vai acreditar, em mim ou em seus próprios olhos?" pergunta Chico.

Agora, finalmente, sabemos a resposta. Deborah Weinberg

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