UOL Notícias Internacional
 

17/10/2007

Sul de Darfur apresenta sinais de um outro massacre

The New York Times
Jeffrey Gettleman*
Em Nairóbi
Funcionários da União Africana e da Organização das Nações Unidas (ONU) estão analisando relatórios sobre um novo massacre em Darfur, no qual, segundo testemunhas, tropas do governo e as suas milícias aliadas mataram mais de 30 civis, degolando vários homens que oravam em uma mesquita e dando um tiro nas costas de um garoto de cinco anos que tentou correr.

Segundo vários moradores de Muhagiriya, uma pequena cidade no sul de Darfur, duas colunas de soldados uniformizados do governo, juntamente com dezenas de milicianos que não usavam uniforme, cercaram a cidade por volta do meio-dia do dia 8 de outubro último e invadiram a feira local. Muhagiriya é um reduto de uma das diversas facções rebeldes de Darfur, mas as testemunhas afirmaram que no momento havia poucos rebeldes na cidade, e que as forças do governo atacaram os civis com armas de fogo e facas.

O mecânico Ayoub Jalal contou que o seu pai orava em uma mesquita quando os soldados invadiram o local. "Eles arrastaram o meu pai e outros homens para fora da mesquita e cortaram as suas gargantas", disse Jalal, que foi entrevistado por telefone.

Stuart Price/AMIS via The New York Times 
Soldado da União Africana diante de local onde lojas foram incendiadas em Muhagiriya

Tanto as Nações Unidas quanto a União Africana confirmaram que dezenas de civis foram assassinados e que testemunhas identificaram invariavelmente os atacantes como sendo soldados do governo e pistoleiros aliados. No entanto, nenhuma das duas entidades afirmou ser capaz de verificar de forma independente quem foi o responsável.

O governo sudanês negou qualquer envolvimento no episódio, mas testemunhas disseram que tropas uniformizadas chacinaram metodicamente quem tentou escapar, incluindo um grupo de crianças.

"Eu conhecia bem o garoto mais novo, de cinco anos", disse Sultan Marko Niaw, um líder tribal, que foi entrevistado por telefone. Ele disse que o nome do menino era Guran Avium: "Um soldado atirou nas costas dele".

A selvageria do ataque, descrita por testemunhas e corroborada por organizações humanitárias que trabalham na área, fez lembrar o período inicial do conflito em Darfur, quando tropas governamentais e milícias aliadas massacraram milhares de civis, segundo grupos de direitos humanos. Mas o incidente de Muhagiriya pode ser um sintoma de um problema maior que está ocorrendo neste momento, quando vários grupos armados de Darfur - rebeldes, milícias árabes e até soldados sudaneses - mobilizam-se para conquistar território e assegurar ganhos antes de uma conferência de paz marcada para o final deste mês.

"Eles estão tentando também se reposicionar antes das negociações sobre um cessar-fogo e de discussões a respeito de quem controlará o que", explica Sam Ibok, um assessor da União Africana que está envolvido com os preparativos para as negociações de paz.

Ibok diz ter ouvido relatos sobre o assassinato de civis por parte de soldados do governo em Muhagiriya, e que está aguardando que a União Africana conclua a sua investigação do acidente. Mas ele afirma que as acusações já estão provocando sérias preocupações e complicando os esforços pela paz porque "agora as pessoas estão ficando muito céticas" e acreditando "que o governo não está interessado na paz".

Ibok diz que as descrições do ataque são condizentes com a situação geral de Darfur nos dias de hoje, com as forças rebeldes mostrando-se cada vez mais agressivas nas semanas que antecedem as negociações de paz e o governo sudanês respondendo "com a tentativa de tentar retomar essas áreas antes do cessar-fogo".

Funcionários da União Africana estão investigando as acusações de que houve um outro ataque contra civis, na cidade de Haskanita, que foi quase que completamente queimada. Os rebeldes dizem que o governo saqueou a cidade, matando cem pessoas, após um ataque rebelde contra uma base próxima da União Africana.

Não está claro por que a chacina de civis desarmados faria parte dessa equação, mas desde que o conflito de Darfur explodiu no oeste do Sudão em 2003, os massacres de civis são um acontecimento freqüente. Autoridades da ONU estimam que mais de 200 mil pessoas morreram e que mais de dois milhões foram expulsas de suas casas.

O governo sudanês tem negado sistematicamente as acusações de que as suas forças invadiram vilas e mataram os moradores, e com relação ao incidente de Muhagiriya a versão oficial foi a mesma.

"Essa informação é completamente falsa", afirmou Mohamed M. Salih, uma autoridade da representação do governo no sul de Darfur, quando questionado pelos repórteres. "Aquilo foi o produto de uma luta interna entre movimentos", acrescentou, sem entretanto especificar que movimentos seriam esses.

Uma equipe da União Africana que visitou Muhagiriya nos dias que se seguiram ao ataque não encontrou evidências de que helicópteros do governo tenham bombardeado e metralhado a cidade, conforme alegam alguns moradores.

"Quanto a isso podemos estar certos", garantiu o general Martin Luther Agwai, o principal comandante da força de paz em Darfur.

Mas ele não está tão seguro quanto à identidade dos homens que invadiram a cidade.

"É verdade que a cidade foi arrasada", confirmou o general. "E também é verdade que pessoas foram feridas e algumas mortas. Isso é um fato".

Mas ele acrescentou: "Existem rivalidades étnicas na área de Muhagiriya, e não sou capaz de dizer se o governo esteve envolvido, ainda que remotamente".

Muhagiriya, com uma população de 23 mil habitantes, está dividida pelos mesmos tipos de tensões que fragmentaram grande parte de Darfur, ou seja, conflitos pela posse da terra entre árabes nômades e agricultores não árabes. A cidade era controlada pela única grande facção rebelde que assinou um acordo de paz com o governo em 2006. Mas as tensões entre os dois lados vêm aumentando recentemente, e, após o ataque, assessores do líder da facção, Minni Minnawi, afirmaram que ele está abandonando o acordo de paz. Na terça-feira (16/10) Minnawi não foi localizado para fazer comentários sobre o episódio.

Milhares de pessoas fugiram de Muhagiriya, e estão agora acampadas em volta de uma pequena base de forças de paz da União Africana, em busca de proteção. Funcionários de organizações de auxílio humanitário temem que eles possam ser atacados novamente.

"Estamos profundamente preocupados com a segurança dessas pessoas", afirma James Smith, diretor-executivo do Aegis Trust, um grupo britânico antigenocídio que atua na região. "Os habitantes de Muhagiriya confirmaram para nós que o governo e as forças janjaweed atacaram deliberadamente civis desarmados", acrescentou ele, referindo-se às milícias árabes aliadas do governo.

A Solidarites, uma organização francesa de ajuda humanitária que distribui alimentos na área, anunciou que três dos seus funcionários sudaneses foram mortos no ataque. Em um relatório, a organização declarou ainda: "Muitas pessoas estão feridas e necessitando de assistência médica. Várias casas e estabelecimentos comerciais foram saqueados. Diversas famílias perderam tudo".

Em entrevistas distintas, vários moradores disseram ter visto soldados transportando os bens roubados em caminhões do governo.

As Nações Unidas enviaram uma equipe de avaliação a Muhagiriya na semana passada para tirar fotografias da destruição e entrevistar moradores sobre o ataque.

"Todas as pessoas que foram obrigadas a se deslocar acreditam que aquela foi uma operação conjunta do governo e das milícias", diz Radhia Achouri, uma porta-voz da ONU. "Mas não somos capazes de obter uma confirmação independente dessa versão".

Ela diz que a equipe da ONU está avaliando questões relativas à proteção de civis e aos direitos humanos, mas que o trabalho do grupo não é investigar "quem fez o que".

Autoridades da ONU estão esperando que as negociações de paz de Darfur, que deverão ter início na Líbia em menos de duas semanas, acabem com a violência. O objetivo das conversações é firmar um acordo entre as facções rebeldes e o governo sudanês, mas já surgiram alguns problemas.

Vários líderes rebeldes declararam que boicotarão as negociações. Outros não conseguem chegar a um acordo a respeito de quem os representará. Enquanto isso, a violência continua em Darfur: tribos árabes que costumavam ser aliadas voltaram-se umas contra outras; recentemente tropas governamentais partiram para a ofensiva e ocuparam diversas cidades; o banditismo está em alta; e as tropas de paz estão em uma posição cada vez mais perigosa, sendo que dez soldados da União Africana foram mortos no mês passado, depois que um grupo de uma facção rebelde invadiu a base em que eles se encontravam.

As Nações Unidas e a União Africana estão aumentando o contingente da força de paz de 7.000 para 26 mil soldados, e mais soldados começarão a chegar em breve. Mas as autoridades da União Africana admitem que, para que isso faça diferença, é necessário primeiro que haja uma paz a ser mantida - motivo pelo qual as conversações na Líbia são tão cruciais.

"Existe muito ceticismo quanto à necessidade dessas conversações", afirma Ibok, o assessor da União Africana, embora ele acrescente que as Nações Unidas e a União Africana estão comprometidas com a realização das negociações nas datas estabelecidas.

Um outro empecilho é o fato de que o tratado de paz que acabou com a guerra civil no sul do Sudão, e que é visto como uma fórmula para por fim à guerra em Darfur, parece estar prestes a entrar em colapso. Na semana passada, os ex-rebeldes do sul que firmaram um acordo de paz com o partido governista do Sudão em 2005 abandonaram abruptamente o governo de união nacional a fim de protestar contra aquilo que eles dizem ser um esquema de embustes e retrocessos por parte dos líderes sudaneses. A guerra no sul provocou a morte de cerca de 2,2 milhões de pessoas, mais de dez vezes o número de mortos em Darfur. O partido governista do Sudão, liderado pelo presidente Omar Hassan al-Bashir, indicou na terça-feira que está pronto a discutir as demandas dos sulistas.

Ao mesmo tempo, os ex-rebeldes no sul estão promovendo uma reunião para que os líderes rebeldes de Darfur se preparem para as conversações na Líbia. Vários líderes rebeldes de Darfur disseram que não estão ainda prontos para negociar com o governo, e que primeiro precisam resolver diferenças internas.

* Um repórter em Darfur contribuiu para esta matéria. UOL

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