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18/10/2007

Caverna contém evidência de uso ancestral de mariscos por seres humanos

The New York Times
John Noble Wilford
Quase desde o início, ao que parece, os seres humanos seguiam para o litoral para escapar da rotina doméstica. Mas isto não era um feriado para eles. Mais provavelmente, era uma questão de sobrevivência em um momento perigoso de mudança climática por toda a África há 164 mil anos.

Mas então o Homo sapiens desenvolveu um gosto por mariscos, por necessidade e muito antes do que previamente imaginado, enquanto se adaptava à vida nas cavernas na costa escarpada do sul da África, como relatam cientistas na edição de quinta-feira da revista "Nature".

Explorando uma caverna em um penhasco íngreme com vista para o oceano, uma equipe internacional de cientistas encontrou depósitos de vestígios de mariscos, fogueiras, pequenas lâminas de pedra e fragmentos de hematita, parte dela moída aparentemente para uso como um agente corante vermelho ocre que às vezes tinha significado simbólico.

"O marisco", concluíram os pesquisadores, "pode ter sido crucial para a sobrevivência destes humanos ancestrais enquanto expandiam seu território" em resposta às condições mais frias e mais secas que predominavam há milhares de anos no interior da África.

Pelo que antes foi aprendido, os ancestrais humanos por eras dependeram quase que exclusivamente de plantas e animais terrestres. Tanto dados genéticos quanto fósseis mostram que os seres humanos modernos evoluíram entre 150 mil e 200 mil anos atrás, mas evidência arqueológica do surgimento do comportamento moderno em tecnologia, criatividade, pensamento simbólico e estilo de vida é esparso.

Mas há seis anos, na Caverna de Blombos, na costa a 320 quilômetros a leste da Cidade do Cabo, arqueólogos encontraram ferramentas de 77 mil anos juntamente com pigmentos e pedras entalhadas sugerindo comportamento simbólico, um sinal da criatividade primordial. Agora, em outro sítio em caverna na área, em Pinnacle Point, perto de Mossel Bay, os vestígios de mariscos revelam outra inovação importante.

Curtis W. Marean, o líder da equipe de pesquisa que é paleoantropólogo do Instituto de Origens Humanas da Universidade Estadual do Arizona, disse: "Os mariscos foram uma das últimas adições à dieta humana antes da introdução de plantas e animais domesticados", há mais de 10 mil anos.

Em um artigo que o acompanha, Sally McBrearty, da Universidade de Connecticut, e Chris Stringer, do Museu de História Natural, em Londres, que não participaram da pesquisa, disseram que o achado forneceu "forte evidência de que os primeiros humanos exibiam elementos-chave do comportamento moderno já por volta de 165 mil atrás".

Foi descoberto que outras populações costeiras exploravam recursos marinhos por volta de 125 mil anos atrás, e há evidência de que os neanderthais cozinhavam mariscos na Itália há cerca de 110 mil anos.

A presença do vermelho ocre em Pinnacle Point, também relatou a equipe do dr. Marean, indica que naquela época os humanos já "habitavam um mundo cognitivo enriquecido por símbolos". Os pesquisadores disseram que o material tinha tanto funções simbólicas quanto úteis e provavelmente era usado para pintar o corpo e para tingir os artefatos.

Até recentemente, os antropólogos costumavam presumir que o comportamento humano moderno tinha surgido mais recentemente, provavelmente por volta de 45 mil anos atrás, em conseqüência de alguma mudança não identificada na função cerebral que favorecia a comunicação e o pensamento simbólico para expressar o status social e a identidade do grupo. Esta interpretação se baseava no aparecimento aparentemente repentino da arte e dos adornos corporais em sítios na Europa.

A busca do uso de recursos marinhos pelos primeiros humanos, apoiada pela Fundação Nacional de Ciência, se concentrou na caverna em Pinnacle Point por causa de sua posição elevada em um penhasco. Outros sítios litorâneos da ocupação dos primeiros humanos foram inundados pela elevação do nível do mar, que teve início há cerca de 115 mil anos, no final da longa condição desértica da África.

Forçados a buscarem novas fontes de alimento, algumas das pessoas migraram para o litoral em busca de "alimentos da fome". Em Pinnacle Point, relatou a equipe da descoberta, eles se banqueteavam com uma variedade de espécies marinhas, mexilhões, moluscos e búzios.

"Com base nos habitats atuais", disseram os cientistas, "a grande maioria dos mariscos era coletada nas praias, costas moderadamente rochosas e em lagoas de maré, obtida facilmente durante as marés baixas diárias".

Os vestígios de cracas no sítio, notaram os cientistas, sugerem que as pessoas "recolhiam gordura e pele contendo cracas de baleias encalhadas".

Assim, na costa sul da África, disse Marean em uma declaração emitida pela Universidade Estadual do Arizona, uma pequena população de humanos modernos que habitavam as cavernas lutava e sobrevivia durante o frio predominante, comendo mariscos e desenvolvendo tecnologias um tanto avançadas.

"É possível", ele concluiu, "que esta população possa ser a progenitora de todos os seres humanos modernos". George El Khouri Andolfato

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