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18/10/2007

O dono da estalagem está de olho em um Van Gogh

The New York Times
Marlise Simons
Em Auvers-sur-Oise, França
A pintura de Vincent Van Gogh mais próxima desta vila, onde ele descansa em tumba modesta, provavelmente está pendurada a 32 km de distância, no Museu d'Orsay, em Paris. Mas Dominique-Charles Janssens, proprietário da estalagem que foi a última morada de Gogh, tem um plano audacioso para mudar isso.

"Plano" talvez seja uma palavra otimista demais. É o sonho de Janssens ver um autêntico Van Gogh pendurado na parede do minúsculo sótão onde o artista morreu no dia 29 de julho de 1890. Dois dias antes, ele tinha se matado com um tiro na barriga enquanto trabalhava com seu cavalete em um campo próximo.

Janssens, um belga afável de 59 anos, sabe exatamente qual pintura ele quer e diz que tem uma rara oportunidade de consegui-la. "Os Campos" (também conhecida como "Campos de Trigo"), um dos últimos trabalhos que Van Gogh pintou, será leiloado pela Sotheby's em Nova York no dia 7 de novembro.

Sotheby's/The New York Times 
"Os Campos", pintado por Van Gogh em 1890, pouco antes da morte do pintor

"As pessoas me chamam de megalomaníaco, mas esse não é meu sonho, era o sonho de Van Gogh", diz Janssens, citando a correspondência do pintor. Sete semanas antes de sua morte, Van Gogh escreveu ao seu irmão Theo, em Paris: "Algum dia, acho que encontrarei uma forma de ter uma mostra minha em um café."

A Sotheby's estima o valor da pintura entre US$ 28 e US$ 35 milhões (R$ 56 e R$ 70 milhões), e os lances podem elevar mais o preço, então Janssens está tentando levantar dinheiro por meio de doações privadas e de um apelo aos amantes de Van Gogh on-line pelo vangoghsdream.org.

Se a fundação que ele criou, Instituto Van Gogh, puder comprar "Os Campos", disse ele, todos os doadores receberão um código de acesso pessoal para ver a pintura em qualquer momento por uma webcam no sótão. O esforço para levantar fundos começou no dia 8 de outubro, mas ele não quis dizer quanto tinha angariado até agora.

O plano está sendo menosprezado como fantasia maluca por alguns curadores e marchands de arte. "Certo, é heróico e maravilhoso, mas pouco realista", disse Neal Fiertag, negociante de arte parisiense que se especializa no século 19. "Além disso, as imagens de Van Gogh já viraram uma commodity de massa. Você se pergunta se isso não vai criar mais um circo comercial."

Walter Feichenfeldt, marchand suíço e estudioso de Van Gogh que vendeu "Os Campos" para seu atual proprietário (cujo nome ele não divulgou), disse que não via problema com sua volta à pequena estalagem. Ele conhece bem a casa, disse ele, descrevendo-a como "restaurada com muito bom gosto e respeito".

"Tenho certa simpatia pelo Sr. Janssens", acrescentou Feilchenfeldt. "Ele vive por esse sonho. Se tiver o dinheiro, sim, deveria ter o quadro."

Houve muito debate sobre qual obra foi a última desse pintor que aprendeu a pintar sozinho, um homem enigmático e freqüentemente perturbado, que ainda assim escreveu centenas de cartas lúcidas e bem pensadas.
Owen Franken/The New York Times
Estalagem onde Van Gogh morreu em Auvers-sur-Oise, próximo a Paris
Owen Franken/The New York Times
Lápide do túmulo do pintor, morto no dia 29 de julho de 1890


Em seus últimos 70 dias em Auvers, Van Gogh trabalhou sem parar, produzindo quadros e desenhos de seus moradores, casas rústicas de fazenda e campos de trigo e batatas, parecidos com os que conheceu em sua juventude na Holanda.

Feilchenfeldt, como outros especialistas, disse que não considera "Os Campos" o último quadro de Van Gogh e sim, provavelmente, o inacabado "Casa em Auvers". No entanto, tem certeza que "Os Campos" está entre as últimas obras de Van Gogh.

Wouter Van der Veen, especialista holandês em escritos de Van Gogh, observou que, em uma carta, provavelmente escrita no dia 10 de julho de 1890, ele diz a Theo que acaba de terminar três pinturas de campos de trigo. "São campos amplos de trigo sob céus perturbados, e eu não precisei sair do meu caminho para expressar a tristeza e extrema solidão. Espero que você os veja logo." Ele pintou cerca de uma dúzia de imagens dos campos de trigo de Auvers.

No almoço de domingo na estalagem, Janssens disse que queria a volta dos "Campos" para o quarto de Van Gogh precisamente porque transmite seu humor no final de sua vida. "Estava nesse quarto quando ele morreu", disse ele.

O sótão já é uma espécie de altar, graças à cruzada de Janssens para resgatar a estalagem. Começou acidentalmente quando ainda era gerente de vendas e feriu-se em um acidente de carro em 1985, na frente da estalagem, Auberge Ravoux. Enquanto se recuperava, recebeu um livro das cartas de Van Gogh e decidiu que era seu destino comprar e restaurar a estalagem. "Fiquei muito comovido", lembra-se. "Eu tinha 37 anos, exatamente como Van Gogh", que morreu aos 37.

O processo levou seis anos e incluiu batalhas com bancos credores e autoridades locais que faziam objeções a um estrangeiro assumir uma propriedade tão simbólica. Como novo proprietário, procurou recriar o ambiente como Van Gogh o conheceu. A sala no andar térreo que vinha servindo de loja de vinho e café é novamente um restaurante, com mesas rústicas, um bar coberto de estanho e copos e decantadores copiados dos quadros de Van Gogh.

A escada estreita leva ao pequeno quarto no sótão, com paredes nuas, clarabóia e uma única cadeira. "Foi deixado vazio, então os visitantes podem mobíliá-lo com seus pensamentos", disse Janssens. "Freqüentemente, tem um forte impacto nas pessoas. Algumas choram, outras desmaiam".

Uma parede agora tem uma caixa de vidro blindada onde ele espera instalar a tela autêntica de Van Gogh. Ele disse que tinha tomado medidas para assegurar o quarto e a casa. A entrada no sótão custa cerca de US$ 7 (R$ 14).

Autoridades da vila admitem que Janssens se tornou um guardião não oficial da memória de Van Gogh. Ele restaurou as construções adjacentes e organizou a montagem de cartazes com reproduções das cenas da aldeia pintadas não só por Van Gogh, mas também Cézanne, Corot e Pissarro, que passaram um tempo ali. Um está na igreja do século 11 da aldeia, tema famoso de Van Gogh, e outros estão nos campos de trigo e no cemitério onde Vincent e Theo estão enterrados sob um tapete grosso de hera.

Antes dos esforços de Janssens para colocar a vila de volta no mapa, ela era visitada por alguns milhares de pessoas por ano, na maior parte estudantes de arte, pintores e historiadores. No ano passado, cerca de 400.000 pessoas visitaram o local, atraídas pela mística do artista.

Se a fundação Instituto Van Gogh não conseguir comprar "Os Campos" na Sotheby's, terá permissão legal para continuar juntando fundos por mais três anos. Janssens disse que não ia parar até comprar um Van Gogh para colocar de volta em Auvers e instalá-lo no pequeno quarto sem vista. Deborah Weinberg

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