UOL Notícias Internacional
 

18/10/2007

Produtores de açúcar vêem sobrevivência no etanol e em legislação

The New York Times
Clifford Krauss

Em Loreauville, Louisiana
Todd Landry, um agricultor que cultiva grandes áreas de cana-de-açúcar nos campos lamacentos do sul da Louisiana, tem tido dificuldades ultimamente com secas, geadas e furacões. Em janeiro, ele enfrentará outro perigo: a maior importação de açúcar do México.

"Nós teremos uma enxurrada de cana vinda do outro lado da fronteira?" perguntou Landry com sotaque cajun. "A sobrevivência está em nossa mente a cada minuto do dia."

Mas Landry e outros produtores de açúcar acham que encontraram um salva-vidas, e seu nome é etanol.

Seguindo o exemplo dos produtores rurais do Meio-Oeste, que melhoraram sua situação vendendo milho para destilarias de etanol, os produtores de cana-de-açúcar e beterraba também querem um acordo próprio de etanol, pago pelos contribuintes americanos.

Cheryl Gerber/The New York Times 
Açúcar é despejado em armazém de cooperativa da Louisiana, nos Estados Unidos

Um artigo pouco notado do novo projeto de lei agrícola que está tramitando no Congresso obrigaria o Departamento de Agricultura a comprar o excedente de açúcar doméstico, causado pelo afluxo esperado de açúcar mexicano no próximo ano. Então o governo o venderia, provavelmente com grande desconto, para os produtores de etanol para adição aos seus tanques de fermentação. O governo Bush está lutando contra a medida.

Os produtores de açúcar dizem que o custo seria relativamente baixo e o plano ajudaria a manter os preços em um patamar que consideram justo. Como benefício colateral, segundo eles, o acordo permitiria ao país produzir mais etanol para misturar à gasolina, reduzindo a necessidade de petróleo estrangeiro.

Mas os produtores de etanol não estão entusiasmados. E o plano está atraindo fogo de oponentes dos subsídios agrícolas e de antigos críticos do setor açucareiro, que se queixam de que os produtores já contam com um dos melhores acordos na agricultura americana.

"É um fardo tributário sem benefício que distorce tanto o mercado de etanol quanto o mercado de alimentos", disse Richard E. Pasco, advogado da Associação dos Usuários de Adoçantes, um lobby de empresas de alimentos que utilizam açúcar. "E adivinha quem pagará o preço? Os contribuintes e consumidores."

O Escritório de Orçamento do Congresso calcula o custo em US$ 660 milhões ao longo de cinco anos, relativamente barato em comparação a outros programas agrícolas. Mas esta é uma estimativa baseada em suposições sobre quanto açúcar cruzará a fronteira. Na verdade, ninguém sabe.

"O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos assumiria um compromisso ilimitado de comprar qualquer quantidade de açúcar a um preço garantido, e isto se tornaria rapidamente muito caro", disse Robert L. Thompson, um professor de política agrícola da Universidade de Illinois.

Em questão está um artigo do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (Nafta, na sigla em inglês), o grande pacto comercial visando criar um mercado comum entre o México, Canadá e Estados Unidos. Apesar do Nafta ter sido adotado em 1993, alguns de seus artigos mais controversos apenas agora estão entrando em vigor.

Um deles abrirá os Estados Unidos a importações ilimitadas de açúcar do México -a maior brecha em anos na muralha de subsídios a preços e protecionismo que o governo, em prol do setor açucareiro, ergueu contra a concorrência estrangeira. Tal sistema inclui cotas para limitar a produção doméstica e tarifas para limitar a importação, resultando em um açúcar com preço de mercado nos Estados Unidos duas vezes maior do que o preço no mercado mundial.

O artigo do Nafta funcionará em ambas as direções, com os Estados Unidos podendo exportar ao México uma forma de xarope de milho freqüentemente usada como adoçante. Tal adoçante, muito mais barato que o açúcar, poderia tomar uma fatia do mercado açucareiro no México, aumentando a disponibilidade deste para envio para os Estados Unidos.

Em meio às incertezas sobre o que acontecerá, os 12 mil produtores de cana-de-açúcar e beterraba do país estão apelando a Washington por uma apólice de seguro. "Se o México decidir produzir em excesso e enviar isto para cá, eles poderão engolir nosso mercado", disse James H. Simon, Liga Americana da Cana-de-Açúcar.

A cana-de-açúcar cresce apenas nos Estados mais quentes, com a produção concentrada na Flórida e na Louisiana. Os agricultores em alguns Estados do norte cultivam beterraba para açúcar.

No sul da Louisiana, ainda se recuperando dos furacões Katrina e Rita, a cana é cultivada em 170 mil hectares e é o esteio da economia há gerações.

Por uma grande área do Estado, o cheiro doce de melaço é carregado pela brisa no outono, a vida social gira em torno das feiras e festivais de açúcar e antigas caldeiras de açúcar decoram jardineiras de flores. Mansões brancas, imponentes mas nem sempre bem conservadas, ficam sob sombras de carvalhos cobertos de musgo.

As pessoas temem a perda de um modo de vida com a investida do açúcar mexicano. Os agricultores e os trabalhadores de engenhos da Louisiana dizem que o açúcar está no sangue deles, em parte porque poucas culturas crescem tão bem no clima difícil, pontuado nos últimos anos por poderosos furacões que devastaram as plantações.

"Toda minha vida foi dedicada à produção de açúcar", disse Michael Comb, 48 anos, gerente geral da Cooperativa de Cana-de-Açúcar da Louisiana, em Saint Martinville. "Eu tinha 8 anos quando subi em um trator em uma plantação de açúcar. É tudo o que sei."

Os produtores de açúcar vêem a proposta do etanol como o início de um compromisso nacional muito maior de produção de energia a partir da cana.

O Brasil substituiu grande parte de sua gasolina transformando suco de cana em etanol. Os preços do açúcar nos Estados Unidos são altos demais para isto -e o país impõe uma tarifa elevada que desencoraja a importação de etanol do Brasil.

Mas a indústria açucareira americana acredita que com nova tecnologia, o bagaço da cana que resta após a extração do suco poderia se tornar uma fonte de combustível automotivo.

A proposta que está sendo considerada em Washington "poderia ser uma ponte para coisas maiores para o açúcar", disse Anthony Joe Judice, 61 anos, que trabalha nos campos ao longo das águas lamacentas de Bayou Teche, perto de Saint Martinville. "É como um noivado para um futuro casamento."

O artigo de etanol de açúcar foi aprovado pela Câmara. Com o apoio do senador Tom Harkin, democrata de Iowa e presidente do Comitê de Agricultura, ele poderá passar no Senado apesar da oposição do governo e da indústria de alimentos.

A medida seria enxertada em uma política existente para o açúcar, tão complexa que mesmo muitos produtores rurais têm dificuldade para entendê-la.

O governo limita a oferta de açúcar por meio de cotas de produção e restrições à importação, e usa mecanismos financeiros para estabelecer um piso de preços.

O sistema não tem custo direto para os contribuintes, um motivo de orgulho para o setor. Mas custa aos consumidores, que pagam preços mais altos pelo açúcar. O sistema é alvo de críticas há décadas, mas o lobby do açúcar tem força no Capitólio. Os produtores de açúcar doaram US$ 2,7 milhões em contribuições de campanha para deputados e senadores eleitos em 2006, mais do que qualquer outro grupo de produtores rurais de alimentos, segundo o Centro para Políticas Responsivas (Center for Responsive Politics), um grupo de Washington.

Um novo projeto de lei agrícola manteria grande parte do sistema existente, que os produtores de açúcar se defendem dizendo que virtualmente todos os países com indústria doméstica de açúcar contam com fortes proteções. Mas ela adicionaria ainda mais garantias, incluindo uma que asseguraria aos produtores americanos 85% do mercado independente de quanto açúcar venha de fora.

Para realizar tal política, o governo compraria o açúcar excedente e o venderia com prejuízo aos produtores de etanol. Eles fermentam o amido de milho para produção de etanol, mas a adição de um pouco de açúcar pode acelerar a reação.

Mark E. Keenum, o subsecretário de Agricultura para assuntos internacionais do governo Bush, disse que a administração do programa de etanol seria "muito desajeitada".

Keenum sugeriu que o Departamento de Agricultura acabaria comprando açúcar por 22 centavos a libra e o vendendo para os produtores de etanol a algo entre 4 e 7 centavos a libra. "É fácil fazer as contas e perceber o prejuízo potencial", ele disse.

Ele acrescentou que o departamento tentou vender açúcar para a indústria de etanol em 2001, mas os produtores de etanol estavam interessados em comprar apenas 10 mil das 100 mil toneladas oferecidas a eles mesmo ao preço baixo de 4 centavos a libra.

Os produtores de etanol, que poderiam ser forçados a investir em novo equipamento para processar o açúcar, dizem não ter muito interesse na idéia. Matt Hartwig, um porta-voz da Associação de Combustíveis Renováveis, disse: "Nas atuais bio-refinarias baseadas em grãos, a quantidade de açúcar que poderia ser introduzida no processo seria bem pequena".

Keenum disse que o Departamento de Agricultura não quer ser forçado a vender apenas aos produtores de etanol, argumentando que poderia obter um melhor preço vendendo açúcar para ração animal ou para álcool industrial. Neste ponto, o lobby do açúcar está disposto a negociar.

Os produtores de açúcar dizem que sejam quais forem os custos, o novo projeto de lei agrícola é necessário para salvar o setor.

"Nós não gostamos que o governo gaste dinheiro, mas se vão dar nosso mercado para os importados, então temos que procurar alternativas", disse Simon, da Liga Americana da Cana-de-Açúcar. "Nós estamos confiantes de que conseguiremos a aprovação do projeto de lei e que ele nos manterá à tona até podermos concretizar as oportunidades de produção de energia a partir da cana-de-açúcar." George El Khouri Andolfato

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