UOL Notícias Internacional
 

18/10/2007

Vitória do Irã e da China na disputa de licitações no Iraque preocupa os EUA

The New York Times
James Glanz

Em Bagdá
O Iraque concordou em conceder US$ 1,1 bilhão em contratos para empresas iranianas e chinesas construírem um par de enormes usinas de força, disse o ministro da eletricidade iraquiano na terça-feira. A notícia do projeto provocou sérias preocupações entre os oficiais militares americanos, que temem que investimentos comerciais iranianos possam mascarar atividades militares em um momento de maior tensão com o Irã.

O ministro da eletricidade iraquiano, Karim Wahid, disse que o projeto iraniano seria construído em Sadr City, um enclave xiita em Bagdá que é controlado pelos seguidores do clérigo antiamericano Muqtada al Sadr. Ele acrescentou que o Irã também concordou em fornecer eletricidade barata de seu próprio sistema para o sul do Iraque, assim como construir uma grande usina de força de forma basicamente gratuita em uma área entre as duas cidades sagradas xiitas no sul, Karbala e Najaf.

A ampliação dos laços entre o Iraque e o Irã ocorre enquanto os Estados Unidos e o Irã entram em choque em torno de questões nucleares e das repetidas acusações de oficiais americanos de que o Irã apóia grupos armados no Iraque. Os oficiais americanos dizem que os iranianos, por meio de uma ala militar internacional conhecida como Força Quds, estão particularmente ativos no apoio a elementos de elite do Exército Mahdi, uma milícia controlada por Al Sadr.

Michael Kamber/The New York Times 
Trabalhadores durante instalação de um novo gerador de energia elétrica em Bagdá

Um oficial militar americano em Bagdá disse que apesar de não ter conhecimento específico dos contratos para a usina de força, qualquer ampliação dos interesses iranianos é motivo de preocupação para as forças armadas aqui.

"Nós, é claro, estamos observando atentamente a presença geral do Irã aqui no Iraque", disse o oficial militar. "Como você sabe, nem sempre é o que parece. A Força Quds deles usa rotineiramente negócios para mascarar seu verdadeiro propósito de inteligência."

"Este é um mercado livre, de forma que não há muito que possamos fazer a respeito", disse o oficial.

Ao mesmo tempo, é possível ver o investimento iraniano e chinês como uma forma destes países terem maior interesse na estabilidade iraquiana. As usinas de força também poderiam contribuir favoravelmente ao problemático esforço de reconstrução no Iraque. Um porta-voz da embaixada americana disse: "Nós apreciamos quaisquer esforços para ajudar a desenvolver a infra-estrutura de energia do Iraque".

"Estas propostas refletem as oportunidades de negócios que estão surgindo no Iraque, pelas quais as empresas americanas deveriam estar competindo", disse o porta-voz, que pediu para que seu nome não fosse citado por causa do protocolo padrão da embaixada.

Não se sabe se alguma empresa americana tentou conquistar os contratos, apesar de Wahid ter dito que os projetos foram submetidos a licitação. O porta-voz da embaixada disse: "Nós não estamos cientes de nenhuma violação dos princípios de licitação aberta e justa".

Os acordos entre o Iraque e o Irã ocorrem após o esforço de reconstrução liderado pelos americanos, que se apoiou principalmente em grandes empresas americanas, ter gasto quase US$ 5 bilhões de dinheiro dos contribuintes americanos no sistema elétrico do Iraque. Fora alguns poucos pontos positivos isolados, houve pouco impacto em um país onde em muitos lugares o fornecimento de eletricidade é de poucas horas por dia. Como as usinas de força ficam principalmente em áreas controladas pelos xiitas, é possível que elas não enfrentem a mesma violência sectária que prejudicou tantos projetos de reconstrução americanos.

Wahid não disse quanto a usina entre Karbala e Najaf custaria, mas de acordo com os preços internacionais para uma usina do tamanho que ele descreveu, ela custaria entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões.

As linhas gerais de todos os três acordos foram confirmados por Thamir Ghadban, um especialista em energia que também é diretor do comitê de assessores do primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki. Mas Ghadban disse que a concessão de projetos imensos para rivais dos Estados Unidos não é um indício de que as empresas americanas deixaram de ser consideradas agora que a receita do petróleo do Iraque, que é a base do orçamento do governo iraquiano, está pagando pela reconstrução do sistema.

"Não há preferência pelos iranianos", disse Ghadban, citando o ponto sensível potencial mais óbvio para os Estados Unidos. "Não há oposição nem posição do governo iraquiano de proibição de empresas americanas ou ocidentais. Pelo contrário", disse Ghadban, indicando que gostaria que empresas americanas participassem das licitações para obras no Iraque.

Dos dois novos projetos que o Iraque concordou em financiar, disse Wahid, o maior é uma usina de força de US$ 940 milhões em Wasit, que será construída por uma empresa chinesa, que disse ter sido batizada de Shanghai Heavy Industry. Tal projeto adicionará 1.300 megawatts de eletricidade à rede iraquiana. Em comparação, todas as usinas atualmente ligadas ao sistema iraquiano produzem um total de cerca de 5.000 megawatts.

Ele disse que o Iraque já gastou US$ 12 milhões em terraplanagem na preparação para a usina chinesa. O projeto de Sadr City, que incluirá uma pequena refinaria, custará US$ 150 milhões e será construído por uma empresa iraniana, a Sunir, disse Wahid. Tal usina deverá produzir cerca de 160 megawatts de eletricidade.

O Ministério da Eletricidade Iraquiano, chefiado por Wahid, é um dos poucos no governo central a receber elogios por gastar de forma bem-sucedida grande parte do dinheiro alocado para ele pelo orçamento iraquiano para projetos de reconstrução. Devido aos problemas de segurança, escassez de pessoal capacitado para elaborar e executar contratos e à corrupção endêmica, muitos dos ministérios não gastaram suas verbas para reconstrução ou o aplicaram em projetos que tiveram impacto marginal sobre a qualidade de vida dos cidadãos iraquianos.

Ao ser questionado sobre como conseguiu obter progresso dentro do atoleiro de grande parte do governo iraquiano, Wahid disse que simplesmente aprendeu a se virar sozinho. Fora o financiamento, o que mais precisa do governo central é de garantias de que as forças de segurança iraquiana protegerão seus trabalhadores e a infra-estrutura de eletricidade.

"Não me amolem", Wahid disse ser sua principal mensagem para o governo. "Me deixem fazer meu trabalho."

Se outras autoridades ficarão contentes com os acordos é outra questão. Um especialista estrangeiro em energia, envolvido no setor elétrico do Iraque, disse que entende que o projeto em Sadr City foi originalmente uma iniciativa iraniana e que o Ministério da Eletricidade demonstrou pouco interesse inicialmente.

O especialista também disse que a Comissão Iraquiana de Integridade Pública, que investiga a corrupção, já sinalizou que investigará o projeto. Membros da comissão não puderam ser contatados para comentários na noite de quarta-feira.

Wahid disse que as novas usinas de força fazem parte de um plano abrangente para aumentar a produção de eletricidade no sistema, que vêm aumentando nas últimas semanas. Ele disse que o ministério estava discutindo a construção de outra grande usina, uma que produziria 600 megawatts, dentro da cidade de Karbala.

O ministro disse que a primeira parte de outra iniciativa há muito discutida, de trazer geradores a diesel para alguns bairros de Bagdá, está próxima de ter um impacto.

Cerca de 14 dos geradores, que produziriam 1,75 megawatt cada, devem chegar à capital em questão de semanas, disse Wahid. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h50

    -0,22
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h56

    -0,33
    75.724,91
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host