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19/10/2007

Bombas marcam retorno de Bhutto ao Paquistão

The New York Times
Carlotta Gall e Salman Masood

Em Karachi, Paquistão
Na quinta-feira (18/10), duas bombas explodiram em um intervalo de apenas segundos e a poucos metros do caminhão que transportava a líder da oposição que retornava ao país, Benazir Bhutto, não a atingindo por pouco, mas matando muitas pessoas e manchando de sangue uma triunfal volta para casa após oito anos no exílio.

Vários relatos diziam que 126 pessoas foram mortas e cerca de 150 ficaram feridas (segundo estimativas de 23h30, horário de Brasília), incluindo civis e membros do partido. Mas no caos inicial, o Ministério do Interior só conseguiu confirmar 70 mortes.

Não há reivindicações de responsabilidade pelo ataque.

Benazir Bhutto, que passou oito horas no teto do veículo acenando para os simpatizantes, tinha entrado em um veículo blindado 10 minutos antes das explosões ocorrerem, pouco antes da meia-noite, disse Rehman Malik, o conselheiro de segurança de Bhutto e um associado próximo.

Ela foi levada imediatamente para a Casa Bilawal, seu lar em Karachi, encerrando seu desfile pela cidade até o túmulo de Muhammad Ali Jinnah, o fundador do Paquistão.
AFP
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A chegada de Bhutto às 14 horas atraiu uma multidão imensa, talvez de 200 mil ou mais, que dançava sobre os ônibus e nas ruas, assim como avançava na direção dela enquanto o caminhão percorria vagarosamente o trajeto até sua casa na cidade.

A grande presença da população forneceu uma recepção emotiva para Bhutto, assim como uma espécie de reconhecimento político para uma mulher duas vezes afastada do cargo de primeira-ministra após ser acusada de corrupção.

Também demonstrou que Bhutto continua sendo uma força política decisiva no Paquistão, mesmo após sua longa ausência, e marcou o que tanto simpatizantes quanto oponentes concordaram ser um novo capítulo político para o país.

O ataque a bomba mostrou que também pode ser traiçoeiro.

As explosões, registradas por câmera, provocaram dois clarões brancos brilhantes e incendiaram dois veículos. Os sobreviventes cambaleavam sobre corpos e escombros em meio a uma nuvem de fumaça. Não ficou imediatamente claro se as explosões foram causadas por homens-bomba.

"Eu só posso dizer que vi muitos corpos espalhados ali", disse Malik, o conselheiro de Bhutto. Ele estava à frente do caminhão e foi derrubado pela força da explosão, ele disse. Seu cabelo foi queimado.

"O estrago poderia ter sido muito pior se não tivéssemos adotado nossas próprias medidas de segurança", ele acrescentou.

O governo prometeu fornecer segurança antes da chegada de Bhutto, mas também pediu para que ela adiasse sua volta.

O Partido Popular do Paquistão de Bhutto usou 2 mil de seus próprios funcionários para formar anéis em torno de sua líder, a protegendo com seu número e impedindo quaisquer veículos ou pessoas de se aproximarem.

Antes das explosões arruinarem a celebração, milhares de simpatizantes e membros do partido margearam a rota de Bhutto, acenando bandeiras e avançando na tentativa de um vislumbre da líder da oposição enquanto percorria lentamente as ruas. Bhutto acenava enquanto música soava dos alto-falantes.

A multidão era predominantemente operária. Muitos homens jovens disseram ser desempregados, mas viajaram centenas de quilômetros, pagando do próprio bolso, e acamparam na estrada para o aeroporto para aguardar sua chegada.

Na multidão, Raja Munir Ahmed, um corretor imobiliário de 42 anos, disse que veio de Mirpur, no lado paquistanês da Caxemira. "Foi uma jornada de 1.500 quilômetros e no caminho todo vimos ônibus e carros com bandeiras do Partido Popular", ele disse. "As pessoas querem mudanças. As pessoas querem se livrar da inflação e do desemprego."

Então ele gritou: "Vida longa a Bhutto!" e desapareceu na multidão.

Tais simpatizantes estavam entre a maioria dos mortos e feridos. Mas cerca de 20 eram policiais e autoridades, disse o ministro do Interior, Aftab Ahmed Khan Sherpao. Oito vans policiais flanqueavam o caminhão no momento e as explosões ocorreram nos lados esquerdo e direito da estrada, ele disse.

Ele negou ter sido um lapso de segurança, dizendo que as multidões e a extensão da rota tornaram extremamente difícil garantir a segurança.

Antes, Bhutto estava claramente emocionada ao dar seus primeiros passos em solo paquistanês, após viver os últimos oito anos em exílio auto-imposto em Londres e Dubai. Ela deixou o Paquistão para escapar das acusações de corrupção que argumenta serem politicamente motivadas.

Ela desceu por uma escada de metal para chegar à pista do aeroporto, fez uma pausa no último degrau e rezou enquanto amigos erguiam um Alcorão para o alto. Enquanto um assessor a abraçava, Bhutto enxugava as lágrimas dos olhos.

"O passo mais importante -estar de volta ao Paquistão", ela disse, enquanto era cercada por câmeras.

No avião vindo de Dubai, simpatizantes repetidamente davam vivas e cantavam "primeira-ministra Benazir", ficando em pé nos corredores e atrasando o vôo por quase uma hora. Bhutto foi até a cabine para saudar os simpatizantes e a imprensa.

"Estou muito empolgada, muito feliz, muito orgulhosa, com um tremendo senso de responsabilidade diante de tantas pessoas no aeroporto", ela disse ao ser perguntada como se sentia.

Em palavras que posteriormente pareceram prescientes, ela falou vigorosamente contra o terrorismo e da necessidade de salvar o Paquistão do extremismo pela democracia. "Chegou o momento da democracia", ela disse. "Se quisermos salvar o Paquistão, nós temos que ter democracia."

Ela tem se manifestado abertamente contra os militantes e a Al Qaeda e repetiu os mesmos comentários durante o vôo. "Os terroristas estão tentando tomar meu país e precisamos detê-los", ela disse.

Bhutto deixou claro repetidas vezes que está retornando ao Paquistão para liderar seu partido nas eleições parlamentares marcadas para janeiro. Se ela conseguir uma mudança na lei, ele concorrerá para primeira-ministra pela terceira vez, algo que a lei não permite no momento.

"As pessoas me dizem que as questões básicas são as mais importantes", ela disse, "Elas dizem que a pobreza aumentou, a desigualdade entre ricos e pobres aumentou. Elas dizem que as pessoas querem mudanças. Elas querem um governo que as escute, que as respeite, que trate dos problemas do povo."

Importantes membros do partido que viajavam com Bhutto disseram que o comparecimento da população deixou claro que eles querem mudanças após oito anos de governo militar.

"É algo sem precedente", disse Aftar Rana, um importante membro do partido da província de Punjab, olhando para a multidão. "Eu acho que teremos uma grande vitória nas eleições. Vieram pessoas de todas as partes."

A volta da líder da oposição foi possível após meses de negociações com o presidente do Paquistão, o general Pervez Musharraf, em torno de uma forma dos dois líderes dividirem o poder enquanto o Paquistão faz a transição do governo militar.

No início deste mês, o partido de Bhutto não se juntou aos demais partidos de oposição no boicote à eleição presidencial pelas assembléias nacional e provinciais. A medida permitiu que Musharraf orquestrasse de forma bem-sucedida sua reeleição, apesar de ainda enfrentar o questionamento legal de sua elegibilidade na Suprema Corte.

Por sua vez, Musharraf emitiu uma anistia para Bhutto e outros acusados de corrupção nos últimos anos, além de ter concordado em deixar seu posto de chefe do Exército e servir seu próximo mandato como civil.

Mas o atentado na chegada de Bhutto deixou claro que com ou sem acordo, a política no país continua extremamente tensa e perigosa.

As explosões certamente adicionarão mais veneno às relações entre o Partido Popular do Paquistão e o governo.

Musharraf, segundo uma declaração divulgada pelos meios de comunicação estatais, condenou o ataque "nos termos mais fortes possíveis", o chamando de "uma conspiração contra a democracia".

O governo Bush, que apóia Musharraf, indicou sua condenação do ataque, enquanto o Departamento de Estado divulgou uma declaração dizendo: "Os responsáveis buscam apenas fomentar o medo e limitar a liberdade".

Todavia, o marido de Benazir Bhutto, Asif Ali Zardari, que não voltou para o Paquistão com sua esposa, apontou imediatamente o dedo para o governo e disse que o Partido Popular do Paquistão deve repensar seu acordo com o governo.

Ele disse que o governo se sentiu ameaçado pelo poder de Bhutto e sugeriu que as agências de inteligência estavam por trás do atentado.

"Eu culpo o governo", ele disse em uma entrevista para a TV "Geo" de sua casa em Dubai. "As agências de inteligência estão espalhando o terrorismo. Aqueles que estão no governo se sentem ameaçados por nós."

Bhutto disse anteriormente em uma entrevista no caminhão que ela estava preocupada com sua segurança e que disse a Musharraf que suspeita que pessoas do governo dele e das forças de segurança estão apoiando os militantes e o terrorismo.

"Este não é o mesmo Paquistão que era em 1996, quando meu governo foi derrubado", ela disse. "Os militantes ganharam poder. Mas eu sei quem são estas pessoas, conheço as forças por trás delas e escrevi ao general Musharraf a respeito. Eu disse a ele que certas pessoas das quais suspeito estão no governo e na segurança."

"A menos que seja tratado, isto é o que encoraja os militantes. Eles contam com apoio às escondidas de simpatizantes dentro do sistema." George El Khouri Andolfato

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