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19/10/2007

Enquanto as greves varrem a França, Sarkozy anuncia divórcio

The New York Times
Elaine Sciolino
Em Paris
O presidente da França Nicolas Sarkozy enfrentou reveses em duas frentes totalmente diferentes na quinta-feira (18/10): uma onda de greves que varreu a França e um anúncio oficial que seu casamento de 11 anos terminou.

Pouco depois de David Martinon, porta-voz do Palácio do Elysee, dizer aos repórteres em uma conferência com a imprensa convocada de última hora na quinta-feira que não tinha nenhuma notícia sobre o casamento, o palácio soltou a bomba: Sarkozy e sua mulher Cecilia "anunciam sua separação por consentimento mútuo".

Isso torna Sarkozy não só o primeiro divorciado eleito presidente da França, mas também o primeiro a se separar durante o mandato.
QUINTA-FEIRA NEGRA
PARA SARKOZY
Horacio Villalobos/EFE
Duas pessoas em uma das plataformas de embarque da estação Gare d'Austerlitz, em Paris
Joel Saget/AFP
Manifestante segura cartaz escrito: "Cecilia, volte. Ele ficou (ainda mais) louco"
Joel Saget/AFP
Cartaz visto durante manifestação contra governo critica Sarkozy por não priorizar a educação
Bertrand Guay/AFP
Parisienses usam bicicletas como meio de locomoção devido à greve do transporte público
Mehdi Fedouach/AFP
Greve de 24 horas atingiu 60 cidades francesas, segundo estimativas dos sindicatos
CECILIA E AS ENFERMEIRAS


Imediatamente após a notícia ser divulgada em rádio e televisão, os manifestantes na greve da cidade portuária de Le Havre gritaram: "Cecilia, somos como você! Estamos cansados de Nicolas!"

O anúncio do Elysee, que pôs fim a semanas de especulação sobre os problemas conjugais do primeiro casal, disse que nenhum dos dois comentaria a separação.

O anúncio coincidiu com uma greve nacional no setor público -a primeira na presidência de cinco meses de Sarkozy- para protestar contra o projeto do governo conservador de eliminar privilégios especiais de aposentadoria que o setor privado não tem.

Rotulada de "quinta-feira negra", a greve fez parar a maioria dos trens, metrôs e ônibus do país, cancelou aulas em algumas escolas e suspendeu algumas apresentações de teatro.

Somente 46 dos 700 trens de grande velocidade do país estavam rodando. Muitos museus fecharam. Os trabalhadores das gigantes estatais de energia elétrica e gás uniram-se ao protesto, levando a uma redução da oferta de eletricidade.

Ainda assim, a paralisação não foi tão dramática quanto se antecipou, talvez refletindo a sensação crescente do país que a reforma econômica é necessária. A autoridade de aviação civil informou que estava "tudo normal" com o tráfego aéreo do país, apesar de alguns vôos terem sido cancelados antes. Os jornais foram entregues. As grandes estações de rádio que recebem apoio do governo funcionaram normalmente.

Em Paris, um dia de outono agradável, fresco e sem nuvens contribuiu para um ambiente de calma e normalidade, enquanto as pessoas usavam carros, bicicletas, patins, pernas e até serviços de moto-táxi para irem ao trabalho. O novo sistema público de aluguel de bicicletas ficou esgotado em algumas localidades. Outras cidades do país tiveram menos interrupções de serviços de ônibus e metrô.

No entanto, a notícia que tomou os jornais, revistas e ondas de rádio não foi a greve -os franceses estão acostumados com greves- mas uma enchente de recentes notícias que Sarkozy e sua mulher Cecilia haviam entrado na justiça com pedido para pôr fim ao casamento.

A revista semanal "Le Nouvel Observateur" foi a primeira a divulgar a notícia, no início da semana, informando que os dois Sarkozys apresentaram-se diante de um juiz na segunda-feira para "formalizar o procedimento de separação do casal".

O LCI, um canal de televisão só de notícias, informou logo depois que Cecilia Sarkozy apareceu diante de um juiz na segunda-feira de manhã e que o juiz mais tarde visitou o Palácio do Elysee para receber a concordância de Sarkozy.

Cecilia Sarkozy parou de aparecer em público recentemente, mas na semana passada posou -a seu pedido- em um hotel em Paris para a revista popular "Paris-Match", cuja última edição apareceu nos jornais na quinta-feira. A reportagem da capa e três páginas internas trazia o título: "Cecilia - uma mulher serena", mas não revelava nada sobre o estado do casamento.

O "Liberation", de esquerda, que adotara a posição de não falar da história enquanto fosse baseada em rumores, mudou de curso em reportagem especial no jornal de quinta-feira, com uma foto na primeira página do casal e a manchete, em inglês, "Desperate Housewife".

"Um jornal deve publicar informações e não rumores", disse o editorial do "Liberation" explicando a decisão do jornal, e acrescentou: "As coisas mudaram".

O "Liberation" citou um "antigo amigo" de Sarkozy, que disse que há um ano e meio Sarkozy teve "em suas mãos uma declaração anunciando o divórcio. Mas ele nunca teve coragem de torná-la pública".

Outras revistas semanais também anunciaram as dificuldades do casal na capa.

O casal tem um filho de 10 anos, Louis, e dois filhos adultos de casamentos anteriores.

Sarkozy estava viajando para Lisboa, Portugal, para uma reunião com os líderes dos 27 países da União Européia.

A greve, que começou na noite de quarta-feira, não foi uma repetição de 1995, quando três semanas de greves e protestos nas ruas sobre a reforma na aposentadoria prejudicou de tal forma o governo que este perdeu as eleições para os socialistas dois anos depois. O presidente conservador Jacques Chirac foi forçado a governar em um arranjo inconfortável com um primeiro-ministro socialista.

As atuais greves foram decididas para forçar Sarkozy a retirar um plano de reforma dos privilégios especiais de pensão da França que beneficiam 500.000 trabalhadores e 1,1 milhão de aposentados, na maior parte dos setores de transporte e serviços, assim como deputados, pescadores e mineiros. Os privilégios criaram um rombo anual de US$ 7 bilhões (em torno de R$ 14 bilhões) que os contribuintes precisam cobrir.

Sarkozy está determinado a igualar os pagamentos dessas pensões do setor público com o setor privado. Isso significa que os funcionários do setor público teriam que pagar contribuições por 40 anos em vez de 37,5. Em setores especiais, incluindo eletricidade e linhas férreas, certos trabalhadores podem até se aposentar aos 50 anos. Atualmente, por exemplo, alguns funcionários dos trens podem se aposentar com aposentadoria plena quando fizerem 50 anos.

Os sindicatos se reunirão na segunda-feira para decidir se farão mais greves. Deborah Weinberg

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