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19/10/2007

Líderes da Venezuela e Colômbia, rivais ideológicos, estão estreitando laços

The New York Times
Simon Romero

Em Bogotá, Colômbia
O governo Bush não tem maior amigo na América do Sul do que o presidente Álvaro Uribe, um advogado formado em Oxford e criado no mundo privilegiado das fazendas de gado e das escolas de elite.

Hugo Chávez, o presidente da vizinha Venezuela, nasceu na pobreza e ascendeu nas fileiras do Exército antes de despontar como o principal flagelo da política americana na região.

Tais opostos ideológicos poderiam sugerir um acirramento das rivalidades históricas entre os países, que estiveram à beira da guerra no final dos anos 80. Em vez disso, eles estão prestes a fechar acordos de energia, resolver uma disputa de fronteira e aumentar o comércio, com as exportações da Colômbia para a Venezuela atingindo o recorde de US$ 4 bilhões neste ano.

Governo colombiano/The New York Times 
Abraço entre os presidentes Álvaro Uribe (esq.), da Colômbia, e Hugo Chávez, da Venezuela

"Este é o momento mais favorável nas relações entre os dois países desde que se separaram em 1830", disse Socorro Ramirez, uma cientista política da Universidade Nacional daqui e uma especialista em Venezuela, se referindo às origens da Colômbia e Venezuela como um único país após sua independência da Espanha.

Obstáculos a laços mais calorosos persistem, com autoridades sempre trocando farpas. A fronteira de mais de 2.200 km entre os países continua um paraíso para os guerrilheiros, traficantes de drogas e outros conspiradores; dois agentes de inteligência colombianos foram mortos recentemente no lado venezuelano em um incidente não solucionado. Novos pedágios na fronteira colombiana provocaram protestos na Venezuela em outubro.

Mas Uribe surpreendeu o establishment conservador colombiano ao abraçar projetos que elevaram o perfil de Chávez na região. Em ato mais ousado, ele aceitou a oferta de Chávez de ajudar a intermediar a libertação de dezenas de reféns mantidos pelo maior grupo rebelde da Colômbia, incluindo três americanos capturados em 2003.

Em um encontro de cúpula perto da fronteira da Venezuela em 12 de outubro, para inaugurar um gasoduto para envio de gás natural colombiano para sua vizinha, Uribe também se ofereceu para ingressar no Banco do Sul, um banco de desenvolvimento regional defendido pela Venezuela como uma alternativa para as instituições sediadas em Washington, como o Banco Mundial.

As preocupações americanas com o tráfico de drogas e segurança da energia estão em jogo neste novo estágio da diplomacia andina. Os Estados Unidos continuam sendo os principais consumidores tanto da cocaína colombiana quanto do petróleo venezuelano, mas o baixo prestígio de Washington em grande parte dos Andes deixou Uribe, cercado por governos pró-Chávez no Equador e Bolívia, com pouca escolha a não ser fortalecer seus laços com Chávez.

Uribe ainda é alvo de escárnios de Chávez, que pratica um estilo confrontador entranhado no sistema político da Venezuela, como quando pediu ao líder colombiano em outubro para emprestar a um líder guerrilheiro um avião para que viajasse a Caracas para negociações. A sugestão foi recebida aqui com declarações amenas de respeito pela Venezuela como "país irmão".

"O que existe na Venezuela, assim como na Colômbia, é uma liderança política que reflete a vontade popular, e respeitamos isto", disse Fernando Araújo, o chanceler colombiano. Na quinta-feira, o gabinete de Araújo rejeitou os comentários feitos em Washington pelo ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, que disse ter pouca fé nos esforços de mediação de Chávez com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc.

Os esforços aqui para engajar Chávez contrastam com os esforços do governo Bush, que entrou em choque com a Venezuela em torno de várias questões, como as crescentes compras de armas da Rússia por Chávez e suas cada vez mais fortes alianças políticas com Cuba e Irã.

"Uribe certamente não se ilude com as ambições regionais de Chávez, mas ele sabiamente mantém a retórica provocativa sob controle", disse Michael Shifter, vice-presidente para políticas do Diálogo Interamericano, um grupo de políticas em Washington voltado para a América Latina.

"Washington precisa tirar algumas lições da habilidade de Uribe de lidar com Chávez."

As relações entre os vizinhos evoluiu desde que atingiram um ponto crítico em 2005, quando estourou uma crise diplomática em torno do seqüestro pela Colômbia de Rodrigo Granda, um líder guerrilheiro das Farc que estava vivendo perto de Caracas. Uribe o libertou em setembro em um gesto voltado a promover o avanço do caso dos reféns; Granda rapidamente se refugiou em Cuba.

Desde 2005, Uribe e Chávez constantemente restabeleceram as relações, movidos em grande parte pela crescente interdependência econômica e pelas ambições venezuelanas de reduzir sua dependência dos Estados Unidos como principal mercado para seu petróleo.

A Venezuela, por exemplo, conta com as maiores reservas de gás natural da América do Sul, mas ainda precisa do leste da Colômbia para manter a produção de petróleo na região ao redor do Lago Maracaibo. Mas a Venezuela diz que gostaria de inverter o fluxo do oleoduto assim que suas próprias reservas forem exploradas.

Os dois países também estão considerando um oleoduto para levar o óleo cru venezuelano para a costa do Pacífico da Colômbia, um projeto que reduziria o tempo de entrega do petróleo exportado para a China, algo fundamental para o desejo de Chávez de diversificar as exportações de energia da Venezuela.

Enquanto isso, recentes políticas econômicas na Venezuela criaram uma abundância de oportunidades para a Colômbia. Por exemplo, produtores rurais venezuelanos, impedidos pelos controles de preços, não têm conseguido atender a demanda doméstica por alimentos, com os produtores rurais colombianos correndo para atender a falta de itens alimentares básicos na Venezuela.

"Por quanto tempo vai durar a lua-de-mel?", perguntou a "Poder", uma revista de negócios daqui, em uma reportagem de outubro analisando a nova fase de relações da Colômbia com a Venezuela. As exportações do país para a Venezuela cresceram quase 50% neste ano, com os alimentos ganhando 31% na primeira metade de 2007 em comparação ao ano passado, e as exportações de automóveis aumentando 59%.

O governo Uribe desenvolveu uma postura não confrontador em relação ao governo Chávez; Chávez tem uma forma semelhante de lidar com Uribe. Ele tem evitado pressioná-lo nas acusações de violações de direitos humanos por esquadrões da morte, uma questão que alguns legisladores em Washington têm usado para adiar um acordo comercial entre Estados Unidos e Colômbia.

Estudiosos comparam o aquecimento das relações a precedentes em outras partes da região, como o degelo nos anos 80 entre Brasil e Argentina, países cujas forças armadas antes eram voltadas para as ameaças na fronteira mas que agora estão ocupados demais nas relações comerciais um com o outro para se concentrarem em disputas.

Os estilos semelhantes de governo de Uribe e Chávez também podem ter ajudado os líderes a formarem um laço. Ambos priorizam o contato próximo com os pobres, atacam os críticos na imprensa e investem contra oponentes políticos.

"Uribe é um populista da direita e Chávez é um populista da esquerda", disse Kenneth Maxwell, um professor de história latino-americana em Harvard. "Eles são semelhantes." George El Khouri Andolfato

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