UOL Notícias Internacional
 

19/10/2007

Nova tarefa para a Guarda Costeira em um Oceano Ártico em processo de aquecimento

The New York Times
Matthew L. Wald e Andrew C. Revkin
Em Washington
Durante a maior parte da história humana, o Oceano Ártico foi uma fronteira lacrada pelo gelo. Mas agora, em um dos mais concretos sinais do efeito de um clima em processo de aquecimento sobre as operações do governo, a Guarda Costeira dos Estados Unidos está planejando construir a sua primeira base operacional na região como forma de lidar com os navios de cruzeiro e petroleiros que já começam a navegar pelas águas árticas.

Com estações de águas abertas cada vez mais prolongadas na região, a Guarda Costeira também deu início a discussões com os russos sobre o controle do tráfego previsto de navios pelo Estreito de Bering, que até então era atravessado principalmente por navios quebra-gelo de pesquisa e por nativos caçadores de focas e morsas.

A Guarda Costeira diz que a sua base, que provavelmente ficaria perto da cidade mais setentrional dos Estados Unidos, Barrow, no Alasca, na costa da região do North Slope, seria sazonal, e inicialmente contaria somente com um helicóptero equipado para operações em clima frio e várias embarcações pequenas.

Dave Withrow/Guarda Costeira dos EUA/The New York Times 
Navio da Guarda Costeira dos Estados Unidos é fotografado no Mar de Bering

Mas, tendo em vista o aquecimento constante, essa pequena base, que poderia estar funcionando já na próxima primavera, seria expandida mais tarde para ajudar a agilizar as respostas a vazamentos de petróleo de navios-tanques que a Guarda Costeira acredita que cedo ou tarde navegarão da Escandinávia à Ásia pelo Estreito de Bering. Essa rota polar há tanto tempo aguardada encurtaria em 8.000 quilômetros ou mais uma jornada que costuma ser feita pelo Canal do Panamá ou pelo Canal de Suez.

A Guarda Costeira também deseja ser capaz de responder a emergências envolvendo navios de cruzeiro, que já estão começando a operar durante o verão em partes do Oceano Ártico.

E, em uma outra atividade nova na região, a Royal Dutch Shell está se preparando para realizar perfurações exploratórias em busca de petróleo ao largo da costa ártica do Alasca no ano que vem.

"Não sei se estou qualificado para falar sobre as questões científicas relacionadas ao aquecimento global", disse em uma entrevista o comandante da Guarda Costeira, almirante Thad W. Allen. "Tudo o que sei é que temos um ambiente operacional pelo qual somos responsáveis, e este ambiente está mudando".

O comandante do distrito da Guarda Costeira no Alasca, vice-almirante Arthur E. Brooks, afirmou em uma entrevista por telefone que a expansão da área de águas abertas à medida que o gelo marítimo no verão retrocede significa que "quase tudo o que os Estados Unidos já fazem, poderá ser feito no Ártico".

Uma nova pesquisa realizada por oceanógrafos norte-americanos no fundo do mar ao norte do Alasca, concluída no mês passado a bordo do navio quebra-gelo da Guarda Costeira, Healy, fornece novas evidências de que os Estados Unidos têm muita coisa em jogo na região. Os estudos feitos com sonar indicam que milhares de quilômetros quadrados adicionais de leito marinho poderão potencialmente ficar sob controle norte-americano. Esse leito pode proporcionar importantes depósitos de petróleo, gás ou minerais nas próximas décadas, segundo estudos do governo.

O gelo marinho retrocedeu tanto neste verão que a expedição foi capaz de examinar o fundo do mar várias centenas de quilômetros ao norte das áreas pesquisadas em expedições anteriores, disse o diretor do projeto, Larry Mayer, oceanógrafo da Universidade de New Hampshire. A equipe encontrou longas inclinações 320 quilômetros além do que se estimava anteriormente.

Embora mais pesquisas sejam necessários para apoiar qualquer reivindicação norte-americana, os países têm o direito de expandir o seu controle sobre os recursos do leito marinho para bem além das plataformas continentais adjacentes às suas costas, caso sejam capazes de encontrar tais extensões inclinadas dessas plataformas. Esse direito é garantido pelo Tratado da Lei do Mar da Organização das Nações Unidas (ONU), que, após anos de batalhas no congresso, os Estados Unidos parecem dispostos a ratificar. O tratado conta com o apoio do presidente Bush, mas a ratificação exige a aprovação de dois terços do senado.

Funcionários graduados do Departamento de Estado afirmam que os Estados Unidos precisam se envolver mais na região, e estão solicitando a outros países que cooperem para encorajar o comércio internacional pelo Extremo Norte.

"Contar com um regime de navegação ártica seguro e confiável é vital para o desenvolvimento apropriado dos recursos árticos, especialmente agora, com a extensão do recuo do gelo que presenciamos no verão passado", disse na última segunda-feira, em uma conferência internacional em Anchorage, no Alasca, o secretário-assistente de Estado dos Estados Unidos, Daniel S. Sullivan. "Só podemos contar com tal regime por meio da cooperação, e não competição, entre as nações árticas. A negação da passagem por rotas marítimas internacionais, ainda que estas possam estar em águas territoriais, e exigências incômodas para o trânsito de embarcações não beneficiarão nenhuma nação no longo prazo".

A mudança nas condições do mar e do gelo no Ártico tem sido de fato notável, conforme demonstra um exemplo extremo. A Guarda Costeira recentemente produziu um vídeo comemorando o trânsito pela Passagem do Noroeste no verão de 1957 por três navios quebra-gelos que acabaram encalhados no banco de gelo, obrigando as tripulações a dinamitar o gelo para desencalhar as embarcações. Agora as águas abertas são a norma nos verões ao longo da várias costas árticas.

O resultante aumento de atividade no Ártico significará uma maior necessidade de poder de pesquisa, de resgate e de proteção ambiental, dizem oficiais da Guarda Costeira. Na verdade, Allen afirma que o tráfego de navios poderá transformar o Estreito de Bering em um gargalo para a navegação a exemplo do Estreito de Gibraltar.

Os ambientalistas vêem o interesse da Guarda Costeira com temor, devido ao que isso sugere para o futuro de um meio ambiente frágil, mas também com um certo alívio.

"Como nação, devemos examinar atentamente aquilo de que necessitaremos para proteger adequadamente o meio ambiente ao nos depararmos com esse risco de mudança maciça", afirma Pamela A. Miller, coordenadora do Ártico do Centro Ambiental do Norte do Alasca, em Fairbanks.

Mead Treadwell, um empresário de Anchorage que é diretor da Comissão de Pesquisa do Ártico, criada pelo Congresso para assessorar o governo sobre questões científicas e outros temas pertinentes à região, diz que os planos da Guarda Costeira são apenas moderados.

"Já é passado o momento para que a nossa costa no norte conte com aquela mesma proteção fornecida pela Guarda Costeira da qual os moradores de outros Estados costeiros desfrutam", diz ele. "O Ártico pode estar sofrendo um aquecimento, mas não há indicações de que as condições marítimas na região estejam ficando mais seguras".

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