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20/10/2007

Jovem, negro e viciado - em cigarros mentolados

The New York Times
Erik Eckholm

Em Baltimore
Do lado de fora de estações do metrô e bares em partes desta cidade empestada, vendedores ambulantes desleixados dizem "avulsos, avulsos" para os transeuntes, oferecendo negócios rápidos, de 50 centavos por um cigarro ou três por um dólar.

Seu negócio ilegal mas raramente processado: a venda de cigarros Newport avulsos para aqueles que não têm US$ 4,50 para comprar um maço.

Em pequenos mercados de esquina, os fregueses às vezes usam palavras em código como "goma de mascar" ou "guardanapo" para receber cigarros individuais embrulhados em guardanapo. Ou quando compram um Black and Mild com sabor, a mais recente febre aqui, de um pacote de cinco.
Brendan Smialowski/The New York Times 
Antonio Stokes (esq.) e Darnell Burden fumam em uma rua de Baltimore

As vendas avulsas são comuns nas áreas pobres de muitas cidades, uma adaptação às rendas baixas e erráticas e aos crescentes impostos sobre os cigarros. Mas pesquisadores dizem que são apenas uma faceta do alto índice de fumantes entre os negros urbanos de baixa renda.

Apesar de campanhas antifumo terem reduzido acentuadamente o uso do tabaco na sociedade como um todo, o fumo permanece bem mais comum entre os pobres de todas as raças.

Ainda assim, as autoridades daqui se disseram surpresas quando um recente estudo sugeriu que mais da metade dos jovens negros adultos pobres fuma cigarros -quase sempre mentolado, quase sempre da marca Newport.

Na mais recente variação, o estudo também apontou que quase um entre quatro deles também fuma cigarrilhas com sabores doces, freqüentemente inalando apesar do risco apresentado pelos níveis mais altos de alcatrão e nicotina.

Alarmado com os resultados, o comissário municipal de saúde, o dr. Joshua Sharfstein, reuniu na segunda-feira especialistas de saúde, líderes comunitários e estudantes colegiais para discutirem a disseminação do uso de Black and Milds, cigarrilhas com piteira de plástico que vêm em sabores como vinho, creme e maçã e são freqüentemente vistas em vídeos de hip-hop e na série "The Wire" da HBO, que se passa em Baltimore.

Jamila Wilson, 17 anos, disse no encontro que ela começou a fumar Black and Milds aos 15 anos e agora fuma vários ao dia, inalando.

"Se você fuma o sabor vinho, ele deixa você meio embriagada", disse Wilson, acrescentando que se passar muito tempo sem fumar um, "eu fico meio tonta".

Em meio aos problemas da violência e drogas, fumar pode parecer um vício comparativamente inofensivo. "Mas se você der um passo para trás, é o fumo que acabará matando muitos destes garotos, talvez não na próxima semana, mas antes do tempo", disse Sharfstein.

Em uma campanha antifumo mais forte, as autoridades de Baltimore estão oferecendo adesivos ou gomas de mascar de nicotina gratuitamente e estão considerando medidas mais fortes para controlar a venda dos avulsos, aos quais os jovens têm fácil acesso.

"Toda a questão aqui é que as normas sociais não mudaram como em grande parte da sociedade", disse Frances Stillman, da Escola Johns Hopkins de Saúde Pública, co-autora do estudo sobre hábitos de fumo entre os pobres de Baltimore, que foi publicado em agosto na "American Journal of Public Health". "Todo mundo fuma e todo mundo acha que é OK."

Neste estudo mais recente, os pesquisadores entrevistaram 160 negros com idades entre 18 e 24 anos que estavam matriculados em cursos profissionalizantes. No grupo, 60% fumava cigarro e 24% fumou recentemente uma cigarrilha.

Uma pesquisa envolvendo 1.021 negros de baixa renda em Detroit, publicada em 2005 na "American Journal of Preventive Medicine", revelou que 59% dos homens e 41% das mulheres fumavam, um resultado que "chocou a todos", disse o principal autor, Jorge Delva, da Escola de Serviços Sociais da Universidade de Michigan.

Há muito se sabe que os índices de fumo são maiores entre os pobres e aqueles com menor escolaridade de todas as raças; mas Delva e outros especialistas disseram que os índices encontrados recentemente entre os negros urbanos foram surpreendentemente altos, possivelmente indicando que não foram devidamente representados em pesquisas mais amplas.

Por uma mistura de motivos culturais assim como de marketing seletivo, os cigarros mentolados contam com preferência especial entre os negros: 75% dos fumantes negros de todo o país os fumam, em comparação com menos de 30% dos fumantes brancos.

Nos anos 60, o Kools dominava o mercado. Mas o Newport, com nível de mentol mais baixo que muitos dizem ser mais suave e uma campanha de marketing que inclui os cartazes verdes "Prazer do Newport!" em quase todo mercado e posto de gasolina daqui, assumiu uma forte liderança em muitas cidades.

"Todos os meus amigos fumam e todos fumam Newport", disse Collin Mazick, 24 anos, um morador do nordeste de Baltimore que estuda para se tornar assistente de enfermagem geriátrica.

Nos últimos anos, os orçamentos de publicidade de grandes empresas de cigarros foram desproporcionalmente dedicados aos mentolados, disse Gregory N. Connolly, diretor de pesquisa de controle de tabaco da Escola de Saúde Pública de Harvard. "Parece que a indústria está se voltando para os grupos mais vulneráveis por meio da propaganda e da manipulação dos níveis de mentol", disse Connolly.

Em uma resposta por e-mail às perguntas, a Lorillard Tobacco Co., fabricante do Newport, disse que seu marketing foi direcionado a "todos fumantes adultos", apesar de 51% dos compradores do Newport serem negros. Em Montebello, um bairro barra-pesada do nordeste de Baltimore, os cigarros Newport são compartilhados, às vezes por dinheiro, por pessoas que tentam recuperar o custo do maço.

"Todo mundo aqui fuma o que pode pagar", disse Eddie Johnson, 54 anos, que se livrou do vício em heroína durante uma recente passagem pela prisão e agora está treinando para ser orientador para viciados. Johnson disse que fumava entre 10 e 20 cigarros por dia. Os cientistas não apotnaram que os cigarros mentolados são mais perigosos, mas eles dizem que o mentol pode facilitar para as pessoas começarem a fumar e dificultar para que abandonem o hábito, e que intensifica o efeito da nicotina.

Um morador dos becos de Montebello, Antonio Stokes, 39 anos, que foi vago sobre a forma como ganha dinheiro, concordou. Sobre o Newport que filou de uma amigo na outra noite, ele disse: "É pior que crack. Eles deviam ter um centro de desintoxicação para estas coisas". George El Khouri Andolfato

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