UOL Notícias Internacional
 

20/10/2007

Para impedir os crimes de rua no Japão, não se vista como uma vítima

The New York Times
Martin Fackler
Em Tóquio
Em uma rua estreita de Tóquio, perto de um restaurante especializado em gyudon e de uma casa de pachinko (jogo praticado em máquinas que lembram as de pinball), Aya Tsukioka demonstra os novos designs de roupas que ela espera que reduzam o medo crescente dos crimes no Japão.

Com um movimento hábil, Tsukioka, uma designer de moda de 29 anos de idade, levanta uma prega na frente da sua saia para mostrar um pedaço de pano de um vermelho vivo com a logomarca de um refrigerante parcialmente visível. Ao abrir inteiramente o pedaço de pano e caminhar para a lateral da rua, ela mostra como uma mulher que caminha sozinha pode enganar perseguidores - disfarçando-se de máquina de vender refrigerantes.

A pessoa esconde-se por detrás do pano, que é impresso com uma foto de tamanho real de uma máquina de vender refrigerantes. A roupa inventada por Tsukioka ainda está em fase de desenvolvimento, mas ela já criou diversas versões, incluindo uma que é desdobrada de um quimono e de um modelo de luxo com quatro faces, para proporcionar uma camuflagem mais completa.

Torin Boyd/Polaris/The New York Times 
Disfarce de máquina de vender refrigerantes é uma das invenções para se evitar assaltos

Tais defesas elaboradas estão surgindo em um momento no qual os índices de criminalidade estão na verdade diminuindo no Japão. Mas os japoneses, preocupados com as menores indicações de problemas sociais, dizem sentir-se cada vez mais ansiosos com relação à segurança, um fenômeno que é estimulado pela mídia sensacionalista. Porém, ao invés de recorrerem aos sprays de gás pimenta, os japoneses estão elaborando uma variedade de novas soluções, algumas de alta tecnologia, outras simplesmente esquisitas, mas todas refletindo a sensibilidade japonesa única.

Vejamos por exemplo a "bolsa buraco", uma bolsa capaz de esconder os seus bens valiosos ao ser desdobrada para parecer-se com uma tampa circular de esgoto. Coloque-a na rua com a sua carteira dentro, e os ladrões desavisados passarão por ela, confundindo-a com uma tampa de esgoto comum. Há também um conjunto de uniformes para estudantes de segundo grau à prova de facadas, feitos com o mesmo material usado no kevlar, e um livro com dicas para mães sobre como vestir até as crianças mais modestas como "pseudo-criminosos", a fim de assustar aqueles garotos brutos que gostam de intimidar e bater nos mais fracos.

Há telefones celulares em tons pastéis para crianças, que podem ser rastreados remotamente pelos pais com a utilização de GPS, e um chip para mochilas que indica quando a criança entra e sai da escola.

Os criadores dos dispositivos admitem que algumas das suas idéias podem parecer meio absurdas, especialmente para os norte-americanos acostumados com a criminalidade. E até mesmo alguns japoneses vêem algumas dessas idéias como meio ingênuas, possivelmente refletindo a baixa incidência de crimes de rua. Apesar da atenção da mídia e de uns poucos casos sensacionais, a incidência de crimes violentos no Japão continua sendo de apenas um sétimo daquela registrada nos Estados Unidos.

Mas os criadores dos dispositivos argumentam também que as idéias do Japão para a prevenção dos crimes são o produto de diferenças culturais profundas. Enquanto os norte-americanos desejam proteger-se dos criminosos, ou até reagir, os criadores nipônicos afirmam que muitos japoneses preferem recorrer à camuflagem ou ao engodo, o que é o reflexo de uma cultura que tem horror à auto-afirmação, até mesmo em casos de defesa pessoal.

"Simplesmente é mais fácil para os japoneses se esconder", afirma Tsukioka. "Fazer uma cena seria para eles muito embaraçoso". Ela disse que a idéia da máquina de vender refrigerantes foi inspirada em um truque utilizado pelos antigos ninjas japoneses, que à noite se cobriam com lençóis negros.

Na verdade, algumas dessas idéias, incluindo o disfarce de máquina de vender refrigerantes, ainda não se tornaram comercialmente viáveis. No entanto, o fato de tais idéias serem recebidas com seriedade - ou o simples fato de terem surgido - revela uma outra faceta menos apreciada da sociedade japonesa: o seu gosto por idéia e invenções bizarras.

Os laboratórios corporativos do Japão inundaram o mundo com tecnologia, dos rádios transistores aos carros híbridos. Mas a nação também abriga uma cultura prolífica de inventores individuais, cujas invenções variam do prático ao bizarro. Os inventores dizem que uma longa tradição de consertar e construir fez do Japão um lugar para as idéias experimentais, por mais excêntricas que sejam.

"A sociedade japonesa não ri disso, de forma que os inventores não têm medo de fazer experiências com novas coisas", explica Takumi Hirai, presidente da maior associação de inventores individuais do Japão, a Hatsumeigakkai, que tem 10 mil membros.

Na verdade, o Japão produz tantas invenções incomuns que existe até uma palavra para elas, chindogu, ou instrumentos esquisitos. O termo foi popularizado por Kenji Kawakami, cuja criação de centenas de invenções intencionalmente engraçada e destituídas de qualquer função prática fez com que ele atraísse atenção internacional como a resposta japonesa a Rube Goldberg. As criações de Kawakami, que ele chama de "não inúteis", incluem um rolo de papel higiênico fixado à cabeça para ser facilmente alcançado durante a estação de rinite alérgica, e pequenos esfregões para as patas dos gatos que lustram o assoalho enquanto o animal caminha por ele.

Torin Boyd/Polaris/The New York Times 
Aya Tsukioka demonstra como funciona seu disfarce para evitar roubos

Kawakami diz que embora os dispositivos anticrime do Japão possam não parecer práticos, eles são, de toda forma, valiosos, já que podem conduzir a novas, e até melhores, idéias.

"Até as coisas sem utilidade podem ser úteis", afirma Kawakami. "A lógica esquisita dessas invenções nos ajuda a ver o mundo de maneiras novas".

Até mesmo alguns dos mais incomuns dispositivos anticrime surgidos aqui refletem uma lógica única. Um deles é um par de óculos de sol envolventes para mulheres com lentes tão escuras que é impossível determinar para onde a pessoa está olhando. A intenção é espantar os criminosos sexuais nos trens lotados de Tóquio, nos quais a apalpação em mulheres é um problema constante.

O mesmo se aplica em relação a algumas das soluções para o espancamento e assédio nas escolas das crianças mais fracas por parte das mais fortes, um grande problema no Japão. Kaori Nakano, historiadora de moda, escreveu um livro popular que inclui um capítulo sobre como afastar essas crianças agressivas vestindo as suas vítimas de forma que elas se pareçam com pequenos marginais. Entre os conselhos de Nakano está o de substituir a cinto preto padrão dos uniformes escolares japoneses por um branco, preferivelmente dotado de tachas metálicas ou pequenos espelhos, e comprar meias curtas com desenhos espalhafatosos.

"O Japão é tão atento às tendências da moda que o simples fato de modificar a forma como a pessoa se veste pode fazer com que ela fique mais segura", diz Nakano. "A cultura desempenha um grande papel na prevenção do risco".

Tsukioka disse que decidiu fazer as suas saias com a aparência de máquina de vender refrigerantes porque tais máquinas são comuns nas ruas do Japão. Ela desenhou uma versão para crianças, uma mochila que se transforma em um hidrante no estilo japonês, escondendo a criança. A "bolsa buraco" também foi idéia dela.

Tsukioka diz que as suas camuflagens são experimentais e podem até não ser muito práticas em certas circunstâncias, "especialmente quando as suas mãos estão tremendo", diz ela. Mesmo assim, ela espera que os designs ou algumas variações deles possam ser comercializados em grande escala. Até o momento, ela vendeu cerca de 20 saias com camuflagem de máquina de vender refrigerantes, por aproximadamente US$ 800 cada uma. Ela faz a impressão e costura cada saia a mão.

Tsukioka disse que nunca ouviu falar que a saia realmente prevenisse um crime. Em uma tarde recente em Tóquio, pedestres observavam o pano de Tsukioka, atado à parte da frente da saia, se desdobrando. Mas assim que ela se escondeu atrás dele e se colocou ao lado de uma seqüência de máquinas de vender refrigerantes, a imagem impressa mostrou ser suficientemente convincente como camuflagem para que as pessoas que passavam pelo local não notassem a presença dela.

Ela diz reconhecer que as suas idéias podem ser um pouco fantásticas. Mas Tsukioka afirma que a disposição dos japoneses de aceitar a imaginação é uma dos pontos culturais fortes do país.

"Para os estrangeiros essas idéias podem parecer bizarras", acrescenta ela. "Mas, no Japão, elas podem tornar-se realidade". UOL

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