UOL Notícias Internacional
 

21/10/2007

Amor Moderno: "Pena para mim que ela fosse tão amada"

The New York Times
Alexis Wolff
Alguns dias depois de iniciar meu semestre de vivência no Níger, na África Ocidental, eu estava passando por um casebre de barro a caminho do mercado quando notei uma menina e uma mulher sentadas do lado de fora, sobre uma esteira de plástico colorido. Eu acenei. A menina olhou para mim por um instante, depois cobriu os olhos com as mãozinhas e começou a chorar.

A mulher, que era a avó da menina (embora fosse bastante jovem para ser sua mãe), mais tarde explicou que provavelmente minha pele branca havia assustado sua neta. Era possível que ela nunca tivesse visto uma "anasara" ("pessoa branca" em djerma, a língua local), porque quando o último grupo de estudantes americanos esteve aqui ela morava na cidade com outros parentes.

A menina também era uma visão incomum para mim.

The New York Times 

Com suas quatro tranças curtas, nariz de botão e traços exagerados, ela não era muito diferente das crianças com quem eu havia trabalhado numa pré-escola em Connecticut. Mas, quando ela murmurou alguma coisa para sua avó, fiquei chocada ao ver seus dentes, tão estragados que pareciam lascas de marfim amarelo enfiadas em suas gengivas.

Eu não deveria ter-me surpreendido. O Níger é um dos lugares mais pobres do mundo, classificando-se em último lugar entre 177 países em um índice de desenvolvimento da ONU. Montes de lixo e excrementos enchem as ruas. Corpos atingidos pela pólio, arrastando-se estranhamente, são vistos em todo canto.

Mas por algum motivo o sorriso tímido que eu vi essa menina dar para sua avó, apesar dos dentes feios, rapidamente se transformou de uma personificação dos problemas do Níger em uma distração deles. Logo eu me vi gastando quase todo o meu tempo livre tentando conquistá-la.

Não foi fácil. Cada visita terminava com ela enterrando a cabeça no colo da avó. Esforçando-me para me comunicar em djerma, eu finalmente soube que o nome da menina era Bouchara e o de sua avó, Fati, e um dia fui até a casa delas com uma nova estratégia. Quando me aproximei, Bouchara, como sempre, virou o pescoço para não olhar para mim. Mas, quando mostrei um livro para colorir e uma caixa com 24 lápis de cor, ela os examinou com hesitação antes de virar o rosto para o outro lado.

Algumas tardes depois, Bouchara não baixou os olhos quando me viu. Quando acenei, porém, ela não acenou de volta. Fati riu ao se levantar da esteira plástica. Fez sinal para eu acompanhá-la e entrar na casa, onde pegou o livro de colorir e o abriu numa página cheia de rabiscos coloridos.

"Bouchara", disse Fati, apontando, e depois virou para outra página rabiscada.

Era um passo.

Afinal, Bouchara me deixou sentar ao seu lado, depois brincar com ela e, então, abraçá-la. Depois começou a andar as poucas dezenas de metros até o meu apartamento para me ver. Eu segurava seus braços estendidos e a suspendia até o meu quadril, então passeávamos pelo bairro e procurávamos algo para fazer.

Às vezes ajudávamos as garotas mais velhas a cortar os caules de folhas que os meninos colhiam das árvores para serem misturadas ao arroz para o jantar. Outras, eu a levava para o meu apartamento e brincávamos com brinquedos que eu pedira para minha mãe enviar de casa. Fati começou a me chamar de "Bouchara nya", ou "mãe da Bouchara", porque passávamos tanto tempo juntas.

E era muito tempo: três a quatro horas por dia, todos os dias. O trabalho do meu curso não era muito intenso e me deixava grande parte do dia livre para usar como eu quisesse.

Parecia normal para os meus colegas estudantes americanos que eu fosse amiga de uma menina de 2 anos, em vez de, como eles, explorar a cidade ou conhecer nigerinos da nossa idade. Afinal, eu era a única do grupo que não tinha estudado francês ou djerma, por isso Bouchara e eu tínhamos capacidades lingüísticas semelhantes.

Mas não era só isso. Eu me divertia com Bouchara, às vezes brincando com ela e as outras garotas de tirar grilos das paredes de estuque do meu prédio e jogá-los dentro dos vestidos, rindo como uma escolar. Nesse lugar descrito pelos jornalistas como um dos mais miseráveis da terra, eu me senti de certa forma mais feliz e infantil que nunca.

Certa tarde, cerca de dois meses depois de minha chegada, Fati me chamou.

"Bouchara, quem é esta?", ela perguntou em djerma.

"Tatata", Bouchara respondeu.

Eu não conhecia a palavra e pensei que tivesse entendido mal a pergunta de Fati.

"Tatata", Fati disse, segurando minha mão e batendo no meu peito com ela.

Bouchara só dizia quatro palavras constantemente: "mama", que se referia tanto a sua mãe como à avó; "yaya" (qualquer outro membro da família); "wawa" (qualquer comida ou bebida); e "bye-bye", que eu lhe havia ensinado. Agora havia uma quinta, e era meu nome ou, pelo menos, o nome que ela havia inventado para mim.

Algumas semanas antes de minha volta para Connecticut e para a faculdade, fiquei frenética para encontrar alguma coisa para deixar para Bouchara. Eu já tinha lhe dado muitos presentes, mas as roupas e os brinquedos se gastariam rapidamente. Queria lhe dar algo que fosse duradouro.

Decidi fazer um balanço para ela. Pedi a seu avô um dos velhos pneus que tinha no quintal, comprei uma corda no mercado e pedi aos meninos mais velhos da família que me ajudassem a amarrá-la a um galho baixo.

Quando ficou pronto, as crianças se revezaram para balançar, os meninos empurrando as meninas tão alto que elas gritavam. Até Bouchara experimentou. Quando me afastei, seus olhos castanhos se arregalaram. Os meninos empurraram o pneu bem de leve, e ela riu.

As horas passaram como minutos, e eu me envolvi tanto, como muitas vezes naqueles seis meses, em brincar e fingir -que eu era uma criança, que esta era minha família, minha vida- que certa vez, quando empurrei o balanço e meu braço ficou diante do meu rosto, me assustei com sua brancura. Fiquei chocada ao lembrar que aquela vida não era minha, por mais que eu sentisse e quisesse que fosse.

Em meu último dia no Níger, encontrei Bouchara dormindo numa esteira dentro de casa, com resfriado. Deitei-me ao seu lado. Ela se mexeu um pouco e agarrou meu dedo indicador antes de voltar a dormir.

Deitada ali, me perguntei o que aconteceria amanhã, quando ela andasse pela rua de terra até meu apartamento e perguntasse a qualquer pessoa: "Tatata?". Eu não estaria ali para segurar seus braços estendidos, e ela não saberia por quê.

O que aconteceria quando Bouchara finalmente percebesse que eu não tinha ido só até o mercado, mas que eu nunca voltaria? Talvez ela chorasse. Talvez Fati a pegasse e carregasse até ela dormir ou esquecer.

E ela me esqueceria completamente? Era provável. Tinha apenas 2 anos. Ou talvez esquecesse só até que outra anasara entrasse em sua vida no semestre seguinte, e então ela sentiria ainda mais medo do que quando me conheceu, porque dessa vez seu medo seria justificado: ela havia conhecido uma anasara, a havia amado, lhe dera um nome e a anasara partira.

Quando eu tinha a idade de Bouchara, minha vida era diferente da dela em quase todos os aspectos. Meus pais eram advogados bem-sucedidos. Morávamos numa casa de três andares e eu tinha dois quartos só para mim, um dos quais tinha um terraço privativo. Havia uma babá em tempo integral, pôneis no meu aniversário e tantos vestidos bonitos que eu raramente usava o mesmo duas vezes.

Mas, mesmo naquele tempo, as coisas não eram o que pareciam ou como me lembro nebulosamente. A verdade é que quando eu tinha a idade de Bouchara a desintegração da minha família já havia começado; os demônios da dependência de drogas que destruiriam a carreira de meu pai e nossa família já estavam no comando.

E nos anos seguintes nossa família se rompeu, nossa riqueza murchou e nós caímos em uma espiral de instabilidade de todo tipo, um buraco emocional se abriu em mim, buraco que minha amizade com Bouchara ajudou a preencher.

Embora a família de Bouchara não fosse muito rica (seus dentes cariados eram prova disso), seus pais e avós podiam alimentá-la, vesti-la e, mais importante, mimá-la com amor. Na verdade sua mãe e sua avó vinham discutindo ultimamente sobre onde ela iria morar. Embora seja comum no Níger que uma criança primogênita more com a avó, todos queriam Bouchara.

Eu sabia que ela gostava de estar comigo e poderia até sentir minha falta, mas não precisava de mim. Eu soubera disso o tempo todo. E ali ao seu lado pela última vez tive um pensamento do qual não me orgulho.

Pensei que era pena que Bouchara não precisasse de mim, pena que ela tivesse uma família carinhosa e intacta, porque, se sua família não a amasse tanto ou se ela fosse uma das crianças nigerinas abandonadas ou órfãs que eu tinha visto com freqüência no jornal, talvez eu pudesse adotá-la.

Eu me imaginei saindo do dormitório estudantil, arranjando um apartamento e passando meu tempo livre trabalhando para dar a ela tudo de que precisasse. Talvez eu até deixasse a faculdade e começasse uma vida totalmente nova.

Mas por quem eu faria isso? Por ela?

Não. O impulso parecia amor maternal, tinha todas as armadilhas da preocupação ocidental pelos pobres africanos, mas não era. Porque em vez de me sentir feliz por Bouchara ser feliz e grata por ela não estar em uma situação da qual eu tivesse de salvá-la, eu estava decepcionada. Eu queria o melhor para ela, sim, mas mais que isso, a queria para mim.

Eu estava no meio desses pensamentos quando Fati me tocou -estava na hora de eu partir. Levantei-me. Fati ergueu Bouchara da esteira e, embora os olhos da menina piscassem, sua cabeça logo se aninhou no ombro da avó e ela voltou a dormir.

Depois que abracei todo mundo, beijei a testa de Bouchara, e foi então que as lágrimas escorreram. O calor era sufocante, o que, somado à emoção do momento, quase me fez desmaiar; apoiei-me em Fati, que me abraçou. Por um instante eu a deixei, mas então tinha de ir.

Dentro da van, olhei pela janela enquanto o motorista ligava o motor. O barulho acordou Bouchara. Ela me viu atrás do vidro e, ainda sonolenta, levantou a mãozinha. "Bye-bye", ela murmurou, como eu lhe havia ensinado.

Quando nos afastamos, eu torcia as pulseiras no meu pulso -as fieiras de contas apertadas que Bouchara me havia dado alguns dias antes. Eram tudo o que eu teria dela no meu país, onde me aguardava a vida adulta.

Eu esperava que elas fossem suficientes. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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