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22/10/2007

Quando o trabalho duro se torna um excesso

The New York Times
Phyllis Korkki
Pergunta: Você trabalha de 12 a 14 horas por dia no escritório e, muitas vezes, também durante os fins de semana e em casa. Algumas pessoas brincam, dizendo que você é um "workaholic" (termo em inglês para designar as pessoas viciadas em trabalho) e algumas, mais próximas, chegam a dizer que esse é um problema sério. Será que é mesmo? Como você poderia dizer se este padrão é normal ou se é um problema?

Resposta:
É provável que você seja um workaholic caso sinta-se compelido a trabalhar apenas por trabalhar e sinta pânico, ansiedade ou seja tomado por uma sensação de perda quando não está trabalhando. O workaholic é "viciado em atividade incessante", afirma Diane M. Fassel, autora do livro "Working Ourselves to Death" (algo como "Trabalhar Propositalmente Até Morrer") e diretora-executiva da empresa Newmeasures, que faz pesquisas sobre satisfação dos funcionários.

Esse comportamento persiste, mesmo que o trabalhador seja informado que isso faz mal a sua pessoa -e que pode ser prejudicial também à qualidade do trabalho, diz Fassel.

P.: O vício em trabalho é de fato uma doença, como o alcoolismo?

R.:
As opiniões diferem quando se trata de determinar se tal comportamento prejudicial à saúde, quando comparado por exemplo ao uso abusivo de substâncias como o álcool e as drogas, pode ser considerado um vício real. Mas um número maior de profissionais de saúde mental atualmente considera o vício em trabalho um problema capaz de causar tanto danos mentais quanto físicos, afirma Bryan E. Robinson, psicoterapeuta em Asheville, na Carolina do Norte, e autor do livro "Chained to the Desk" (algo como "Acorrentado à Mesa de Trabalho").

Um problema é o fato de as pessoas serem elogiadas e recompensadas por trabalharem excessivamente. Isso quase nunca ocorre quando se trata dos vícios tradicionais, diz Fassel.

P.: Existem algumas pessoas mais propensas do que outras a serem viciadas em trabalho?

R.:
A maioria dos workaholics ou é perfeccionista ou tem uma necessidade de controle ou então apresenta uma combinação destas duas características, afirma Gayle Porter, professor de administração da Escola de Negócios da Universidade Rutgers, em Camden, Nova Jersey, que estuda o problema do vício em trabalho.

De acordo com Robinson, trabalhar muito arduamente pode também ser uma forma de escapar de um mau relacionamento ou de compensar por uma determinada ausência na vida pessoal.

P.: Quais são alguns dos perigos associados a trabalhar demais?

R.:
Foi descoberto que o estresse que acompanha o trabalho excessivo leva ao uso abusivo de substâncias como álcool e drogas, desordens de sono, ansiedade e até mesmo a problemas físicos como doenças do coração, diz Fassel. Muitas vezes, uma consulta médica é o primeiro passo para a recuperação, diz ela.

P.: Qual é a diferença entre ser viciado em trabalho e trabalhar muito?

R.:
A pessoa que não é workaholic sabe como estabelecer limites. Fassel disse: "Muitos de nós, em diversas fases das nossas vidas, têm que trabalhar durante longas horas, mas temos um regulador interno que diz 'Isso está indo longe demais'. Já o workaholic sente-se infeliz sem tal atividade constante", diz ela.

P.: Quais são os sinais de que uma pessoa é workaholic?

R.:
Se várias pessoas próximas a você lhe dizem que sentem-se negligenciadas devido ao seu trabalho, você certamente deveria levar essas palavras a sério. E se a pessoa freqüentemente oculta dos seus familiares o fato de que está trabalhando -digamos, entrando furtivamente no quarto ao lado para dar uma espiada no seu BlackBerry-, ela pode ter um problema, diz Robinson.

P.: A tecnologia está tornando mais grave o fenômeno do vício em trabalho?

R.:
Sem dúvida. Atualmente as pessoas são capazes de consultar os BlackBerrys nas calçadas ou restaurantes e conectar-se à Internet em suas casas durante as férias. Além de acreditarmos que a pessoa que fica mais tempo no escritório é o melhor funcionário, podemos também achar que o indivíduo que fica conectado à Internet 24 horas por dia, sete dias por semana, é o mais valioso, diz Porter.

P.: Os workaholics produzem mais do que as pessoas que trabalham menos horas?

R.:
Muitas vezes, não. Isso porque, como perfeccionistas, eles podem se fixar em detalhes desimportantes de forma que sintam dificuldade de passar à próxima tarefa, diz Robinson.

Ou, conforme explica Porter: "Eles não estão procurando maneiras de se tornarem mais eficientes; estão simplesmente buscando formas de sempre ter mais trabalho a fazer".

Muitas companhias acham que se beneficiam das longas horas trabalhadas pelos workaholics, ainda que às custas do trabalhador, afirma Porter. Na verdade, diz ela, o vício em trabalho pode prejudicar tanto a empresa quanto o trabalhador.

P.: E como o vício em trabalho poderia prejudicar a companhia?

R.:
Além de desencorajar a eficiência, ele pode gerar um estresse enorme entre os outros funcionários. Se o workaholic for um chefe, ele ou ela poderá esperar que os seus subordinados trabalhem muitas horas ou forçá-los a tentar atingir padrões impossíveis e, a seguir, se movimentar freneticamente para consertar as coisas quando o resultado disso tudo for qualificado como medíocre, diz Porter.

A pessoa pode parecer ser um herói, surgindo para resolver uma crise após a outra, quando na verdade essas crises poderiam ter sido evitadas. Às vezes, o workaholic pode ter inconscientemente criado problemas a fim de gerar jornadas intermináveis de mais trabalho.

P.: Que passos a pessoa pode tomar para deixar de trabalhar tão arduamente?

R.:
Esse comportamento pode ser muito difícil de se modificar, dizem os especialistas. "As pessoas passarão por uma espécie de síndrome de abstinência", diz Porter.

Além do mais, um patrão pode ver a redução de horas trabalhadas pelo workaholic e a redução de acesso a este funcionário como uma queda de desempenho, opina Porter. Neste caso, pode ser necessário um pedido de uma nova função ou de uma transferência dentro da companhia, diz ela.

É por isso que o auxílio profissional, ou pelo menos o apoio ativo de familiares e amigos, pode ser necessário para reverter essa tendência. UOL

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