UOL Notícias Internacional
 

22/10/2007

Virada de mesa: países pobres apontam dedos para os ricos

The New York Times
Steven R. Weisman*

Em Washington
Os encontros semi-anuais das principais autoridades financeiras e bancárias são previsíveis em um sentido: europeus e americanos freqüentemente fazem uso deles para admoestar os líderes dos países pobres sobre a necessidade de modernizar seus mercados de capital, promover a transparência e aderir a padrões de investimento sólidos.

Que diferença faz uma crise de títulos hipotecários de risco. Agora são os países em desenvolvimento que estão repreendendo o Ocidente.

Com centenas de autoridades e especialistas reunidos no fim de semana na capital dos Estados Unidos, o tema neste ano não foi o temor de protestos, mas o impacto global dos problemas do setor imobiliário americano, com muitos delegados culpando regulamentações frouxas e fiscalização desatenta na Europa e Estados Unidos.

"Me permita apontar para a ironia desta situação", disse Guido Mantega, o ministro da Fazenda do Brasil, aos repórteres, argumentando que os "países que eram referência de boa governança, de padrões e códigos para os sistemas financeiros" eram agora os mesmos países cujos problemas financeiros ameaçavam descarrilar a prosperidade global.

Em uma entrevista, o ministro das Finanças da África do Sul, Trevor A. Manuel, disse: "Se alguém olhar para o impacto da crise das hipotecas de risco nos Estados Unidos, os perdedores são os cidadãos pobres que tendem a ser negros e latinos. Mas também os grandes bancos com perfil internacional na Europa e nos Estados Unidos que sofreram um duro golpe". Ele acrescentou: "Está claro que houve uma falha de regulamentação e supervisão".

Os ministros das finanças e presidentes de bancos centrais de todo o mundo passaram o fim de semana discutindo a turbulência de mercado provocada pela crise de crédito, dizendo em uma declaração que continuarão "analisando a natureza das perturbações e considerando as lições que precisam ser aprendidas e as ações necessárias".

Mas para muitos, as lições já estavam claras. Eles disseram que os reguladores dos países ricos ignoraram os sinais de alerta, os bancos dos países ricos usaram "meios" exóticos fora dos livros para comprar e vender produtos hipotecários duvidosos, as agências de rating dos países ricos compactuaram e agora todo o mundo estava sofrendo com os excessos do países ricos.

Geralmente estes encontros repetem antigos debates sobre o que costumava ser chamado de diálogo norte-sul, nos quais os países prósperos saíam em resgate aos países pobres em dificuldades. Algumas poucas centenas de manifestantes em Washington neste fim de semana gritavam slogans sobre a exploração pelos ricos. Juntamente com os manifestantes, é claro, havia as ruas fechadas, as barreiras policiais e limusines aguardando em muitos hotéis do centro.

Também houve novo apontar de dedos, e talvez prazer com a desgraça alheia, perceptível na declaração do grupo G-24 dos países pobres liderado pelos ministros das finanças da Argentina, Síria e Congo, que notaram que os "países em desenvolvimento são uma nova força motriz assim como fator estabilizador na economia mundial".

Como outros ministros do que costumava ser chamado de Terceiro Mundo, eles citaram as regulamentações e falta de transparência dos países avançados como causas da confusão. Estes países estão unidos na exigência de mais peso para eles nos conselhos diretores do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

Em resposta a toda esta admoestação, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry M. Paulson Jr., e seus principais assessores se espalharam por várias reuniões para assegurar aos ministros das Finanças que, apesar do impacto da turbulência do mercado ainda não ter sido plenamente sentida ou entendida, não havia necessidade para pânico porque os fundamentos da economia americana eram sólidos.

"Nós reconhecemos que há algumas questões no sistema que precisam ser tratadas", disse Clay Lowery, secretário-adjunto do Tesouro para assuntos internacionais, alertando contra soluções rápidas que poderiam ser contraproducentes. "Nós queremos garantir que não haja um julgamento apressado."

Robert K. Steel, subsecretário do Tesouro para finanças domésticas, disse às platéias como o Tesouro trabalhou com bancos para a criação de um novo superfundo visando aliviar os mercados de crédito.

"A organização técnica desta solução é complexa", ele disse ao Instituto de Finanças Internacionais, uma associação global de bancos, seguradoras e outras instituições. "Os progressos iniciais estão sendo feitos pelos principais bancos e a participação deverá crescer nas próximas semanas."

Mas muitos ouvintes nutriam dúvidas. Manuel, o ministro sul-africano, notou que o novo fundo já tinha recebido uma resposta cética neste fim de semana, em discursos de Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, e Michel Camdessus, o ex-diretor do FMI.

Josef Ackermann, presidente do Deutsche Bank, também expressou ceticismo em uma entrevista. "Seria prematuro fazer um julgamento rigoroso, já que nem todos os detalhes são conhecidos", ele disse, falando pelo conselho do Instituto de Finanças Internacionais.

Paulson e Steel disseram aos participantes do encontro que os Estados Unidos já criaram conselhos consultivos reguladores e de auditoria para o setor de serviços financeiros. Mas a ênfase deles era pela auto-regulamentação do setor, não por regulamentação pelo governo.

"Nós estamos fazendo progresso e avançando em meio à turbulência no mercado de capitais", disse Paulson, após se encontrar com os ministros das finanças da Europa, Canadá e Japão. "Nós temos muito o que fazer. Mas podemos todos nos reunir e dizer como podemos aprender com alguns dos erros e fazer algumas correções."

Os países em desenvolvimento não foram os únicos a receberem friamente a idéia de auto-regulamentação. Muitos delegados europeus se mostraram céticos com a forma como o governo Bush estava lidando com a questão, que se assemelha ao pedido de medidas voluntárias para regulamentação de fundos hedge e "fundos de riqueza soberana", os fundos governamentais administrados pela China, Rússia e países exportadores de petróleo que começaram a investir em peso no Ocidente.

"Nós não podemos dizer que esta crise foi totalmente inesperada, mas não antecipamos como esta turbulência ocorreria", disse Joaquín Almunia, o comissário europeu para assuntos econômicos e monetários, em uma entrevista. "Nós poderemos precisar da adoção de novas regulamentações, mas no momento nossa ênfase está no diagnóstico do problema."

Grande parte da revolta entre os países em desenvolvimento era voltada contra o FMI, que juntamente com o Banco Mundial era o anfitrião dos encontros em Washington.

O fundo, que faz empréstimos emergenciais para socorrer países ameaçados de insolvência, é amplamente detestado no mundo em desenvolvimento pelos duros programas de austeridade impostos como preço pelo socorro.

Os países asiáticos e latino-americanos socorridos nos anos 90, muitos deles atualmente saudáveis devido às suas exportações, pagaram seus empréstimos ao fundo mas ainda remoem as admoestações que receberam e os aumentos de impostos que foram forçados a adotar.

Os países em desenvolvimento do G-24 ofereceram uma forte resposta ao fundo, o repreendendo por ter pisado na bola enquanto os bancos dos países ricos investiam imprudentemente em hipotecas de risco usando meios de empréstimos fora de seus balancetes.

Os diretores do fundo também ficaram na defensiva com a reação incomum. Rodrigo de Rato, o diretor-gerente de saída do fundo e ex-ministro das finanças da Espanha, disse ser injusto castigar sua organização por descuido.

Exibindo um documento emitido pelo fundo em abril passado, ele disse que ele comprovava que "já estávamos declarando nossas preocupações" com a situação. De fato, o documento alertava que "o segmento de risco do mercado imobiliário americano está exibindo sinais de deterioração da qualidade de crédito" e que o problema poderia "se aprofundar e se espalhar para outros mercados".

* Edmund L. Andrews contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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