UOL Notícias Internacional
 

23/10/2007

No norte do Iraque, cresce o conflito em uma segunda frente curda

The New York Times
Richard A. Oppel Jr.*

Em Bagdá
Incursões mortais na Turquia por militantes curdos que se escondem no norte do Iraque são o foco de diplomacia urgente, com a Turquia ameaçando invadir o Iraque e os Estados Unidos implorando por restrição, ao mesmo tempo que expressam solidariedade com a ira dos turcos.

Mas aos olhos do público, uma batalha assustadoramente semelhante está transcorrendo na fronteira iraquiana com o Irã. Guerrilheiros curdos fazem emboscadas, matam soldados iranianos e se refugiam em seus esconderijos no Iraque. Os americanos oferecem pouca simpatia aos iranianos -Teerã até mesmo diz que Washington ajuda os guerrilheiros iranianos, uma acusação que os Estados Unidos negam. Verdade ou não, tal conflito, assim como o turco, tem potencial explosivo.

Em uma recente viagem à fronteira Irã-Iraque, Salih Shevger, um guerrilheiro curdo iraniano, foi entrevistado enquanto se deitava em uma rocha sobre uma montanha de 3 mil metros, com binóculos pressionados contra o rosto enquanto vigiava os postos das forças armadas iranianas empoleirados em picos a cerca de 6 quilômetros de distância.

Warzer Jaff/The New York Times 
Guerrilheiras curdas do Partido por uma Vida Livre no Curdistão preparam pão

Ele e seus companheiros contaram como emboscaram uma patrulha iraniana entre as bases poucos dias antes, matando três soldados e capturando outro. "Eles estavam sentados conversando sobre uma colina, e nós nos aproximamos, nos escondemos e disparamos contra eles dos dois lados", disse Bayram Gabar, que comandou o ataque e como todos os combatentes daqui usa um nome de guerra.

Os guerrilheiros do Partido por uma Vida Livre no Curdistão, ou PJAK, travam uma insurreição mortal no Irã e são uma cria do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, conhecido como PKK, os guerrilheiros curdos que enfrentam a Turquia.

Como o PKK, os curdos iranianos controlam grande parte da fronteira escarpada, repleta de matacões, e promovem rotineiramente emboscadas contra as patrulhas do outro lado. Mas apesar dos americanos considerarem o PKK uma organização terrorista, os comandantes guerrilheiros dizem que o PJAK mantém "discussões diretas ou indiretas" com autoridades americanas. Eles não informaram quaisquer detalhes sobre as discussões ou o nível das autoridades envolvidas, mas notaram que o líder do grupo, Rahman Haj-Ahmadi, visitou Washington há alguns meses.

Biryar Gabar, um dos 11 membros da liderança do grupo, disse que há "diálogo normal" com as autoridades americanas, se recusando a ser específico. Um de seus guarda-costas disse que líderes do grupo se encontraram com americanos em Kirkuk no ano passado.

As autoridades iranianas acusam os Estados Unidos de fornecerem suprimentos aos combatentes e de usá-los para travar uma guerra em seu lugar, apesar de tais acusações serem negadas pelos militares americanos. "O consenso é de que as forças americanas não estão trabalhando ou aconselhando o PJAK", disse um porta-voz das forças armadas americanas em Bagdá, o comandante Scott Rye da Marinha.

Um alto diplomata americano disse que não houve nenhum contato oficial com o grupo e que não estava ciente dele ter recebido algum apoio dos Estados Unidos. Ele também disse que Haj-Ahmadi, enquanto esteve em Washington, não se encontrou com autoridades do governo.

Como o PKK está na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado e ajudar tais grupos é ilegal, os Estados Unidos estão ansiosos em evitar qualquer indício de cooperação com o PJAK.

Os líderes guerrilheiros disseram que os americanos classificam o PKK como grupo terrorista por estar combatendo a Turquia, uma importante aliada americana, enquanto o PJAK não é rotulado da mesma forma por estar combatendo o Irã.

Na verdade, os grupos parecem em grande parte ser um só e compartilham a mesma meta: travar campanhas para conquistar uma nova autonomia e direitos para os curdos no Irã e na Turquia. Eles compartilham liderança, logística e fidelidade a Abdullah Ocalan, o líder do PKK preso na Turquia.

Apesar da maioria dos curdos ser muçulmana sunita, os guerrilheiros rejeitam o fundamentalismo islâmico. Em vez disso, eles traçam suas raízes ao passado marxista. Eles ainda advogam o que chamam de "socialismo científico" e promovem os direitos das mulheres.

Após a intensificação dos choques entre guerrilheiros e forças iranianas neste ano, as forças armadas iranianas começaram a atacar com fogo de artilharia as aldeias de fronteira em agosto, promovendo a fuga dos aldeões e matando seus animais de criação. O ataque provocou críticas furiosas dos líderes iraquianos, que o condenaram como uma resposta desproporcional.

Mas entrevistas com guerrilheiros sugerem que eles causaram estragos consideráveis aos iranianos. Apesar de ser impossível verificar suas alegações, o líder do PKK, Murat Karayilan, disse que os combatentes do PJAK mataram pelo menos 150 soldados e oficiais iranianos desde agosto. Biryar Gabar disse que 108 iranianos foram mortos apenas em agosto.

O grupo disse que a intensidade de suas ações militares varia de acordo com o grau de perseguição de curdos dentro do Irã.

Os guerrilheiros do PJAK ancoram suas operações em pequenas bases nos vales, equipadas com geradores, televisão por satélite, poços e plantações de tomate, berinjela, romã e pêssego.

Eles construíram vários cemitérios para reenterrar os restos mortais de combatentes mortos em anos anteriores e para prepará-los para aqueles que vão morrer. Fotos de mais de 100 combatentes mortos, incluindo mulheres, cobrem as paredes internas de um prédio dentro de um cemitério.

No alto das montanhas, onde permanecem por um ano ou mais a cada vez, os combatentes vivem vidas espartanas, sobrevivendo de sopas, chá, arroz, feijão, água e pão assado em fornos improvisados. Eles têm poucas tendas e sacos de dormir, explicando que o único lar que eles têm é o que carregam em suas costas. Os campos são projetados para fugas rápidas.

Os guerrilheiros são adeptos de táticas de ataque e fuga, se saindo bem no ar rarefeito de cerca de três quilômetros acima do nível do mar, escalando e caminhando rapidamente pelos terrenos mais desafiadores. Eles enviam ao Irã pequenas equipes armadas com rifles Kalashnikov, granadas propelidas por foguete, rifles sniper e metralhadoras de fabricação russa.

Eles costumam atacar alguns poucos soldados à margem de um grupo maior, disse Sadun Edesa, um curdo iraniano de 22 anos que disse lutar aqui há cinco anos. Ele disse que geralmente é o que basta para arruinar uma operação iraniana que visa eliminar os guerrilheiros dentro do Irã.

Ele recentemente fez parte de uma equipe de emboscada composta de quatro homens que entrou no Irã e matou cinco soldados iranianos, ele disse, antes de retornar para as posições camufladas. "Quando você atinge um dos grupos deles desta forma, a operação militar deles morre", ele disse.

Em um posto avançado, os guerrilheiros permitiram uma breve entrevista com o soldado iraniano que disseram ter capturado na emboscada descrita pelo comandante do PJAK, Bayram Gabar. O prisioneiro se identificou como sendo Akbar Talibi, um membro da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.

Seu uniforme exibia a insígnia da Guarda e ele estava sentado de pernas cruzadas sobre um tapete fino enquanto seis guerrilheiros permaneciam perto dele, ou descansando um rifle Kalashnikov sobre suas coxas. O prisioneiro disse que de sua unidade de 70 homens, 15 foram mortos e 17 foram feridos desde agosto.

As forças armadas iranianas, acrescentou o prisioneiro, "querem destruir o PJAK". Autoridades iranianas em Teerã não responderam aos pedidos de comentário sobre os guerrilheiros ou sobre o suposto soldado capturado.

Um ex-membro do Parlamento iraniano, Jalal Jalilizadeh, que é curdo, disse que o grupo guerrilheiro intensificou seus ataques e começou a visar membros da Guarda Revolucionária e a assassinar outras autoridades no lado iraniano da fronteira há um ano.

Não há número oficial de baixas iranianas, apesar de Jalilizadeh ter estimado o total em cerca de 100 desde o ano passado. Ele também confirmou os ataques recentes descritos pelos guerrilheiros, incluindo a derrubada de um helicóptero iraniano perto da fronteira, em setembro, que matou pelo menos seis.

Shevger disse que liderou a equipe que destruiu o helicóptero, o derrubando com fogo de metralhadoras e rifles. "Nós encontramos um ponto fraco no helicóptero e abrimos fogo", ele disse. A luta com o Irã, ele acrescentou, "estará pior daqui um ano".

O grupo atualmente conta com "bem mais" que 2 mil guerrilheiros enfrentando o Irã, disse Biryar Gabar, que acrescentou que a maioria deles está baseada no Irã. Não há como verificar sua alegação.

Mas ainda assim o grupo conta com combatentes mais que suficientes nesta parte do Iraque para ser a lei, controlando as poucas estradas na área com checkpoints. Um posto avançado guerrilheiro no cume de uma cadeia de montanhas ao longo da fronteira sugere que ele domina grande parte desta, enquanto os soldados iranianos estão reunidos a vários quilômetros de distância.

Quando o ataque pesado de artilharia teve início em agosto, os iranianos também lançaram ataques de infantaria contra as posições dos guerrilheiros próximas deste posto avançado, mas foram rechaçados, disseram os guerrilheiros. O posto está escondido dentro de uma formação rochosa do tamanho de um cruzador.

Acima dela, ao longo do cume, sentinelas espiam com binóculos os movimentos das tropas a vários quilômetros de distância dentro do Irã, cuidadosos em manterem suas cabeças abaixadas, porque os iranianos apontam fogo de artilharia a qualquer sinal dos guerrilheiros.

Nada no comportamento deles sugere que os guerrilheiros abandonarão em breve sua luta. Mas seus crescentes ataques dentro do Irã neste ano estão colocando pressão sobre a União Patriótica do Curdistão, o partido político dominante no setor leste da região do Curdistão do Iraque, que vê o Irã como parceiro comercial crucial. Por sua vez, os guerrilheiros acreditam que o partido, cujo líder é o presidente do Iraque, Jalal Talabani, se tornou bajulador do Irã.

Mas autoridades do partido dizem que seria tolo e míope não cultivar boas relações com o Irã e com a Turquia, países dos quais os curdos, sem acesso ao mar, obtêm gasolina e outros suprimentos críticos. Os líderes curdos também estão altamente cientes da popularidade dos guerrilheiros junto à população curda.

As tensões entre o partido e os guerrilheiros aparentemente levaram a um choque no final de agosto, quando combatentes cruzaram a fronteira do Irã e foram atacados pela pesh merga, a força armada afiliada ao partido. Karayilan disse que telefonou imediatamente para seu par no partido, que lhe disse que este estava sendo "pressionado pelo Irã".

Talabani alertou os guerrilheiros a baixarem suas armas ou deixarem a fronteira. Mas um alto funcionário do partido, próximo de Talabani, reconheceu que "o povo se voltaria contra nós" se agíssemos contra eles.

O funcionário, que não estava autorizado a falar publicamente, se recusou a comentar o choque de agosto, mas reconheceu que a pesh merga não pôde derrotar os guerrilheiros durões e competentes. "Se o Irã e a Turquia, com seus exércitos imensos, não conseguem controlar suas fronteiras, como poderíamos fazer isto?"

Os guerrilheiros também parecem confiantes, apesar de temerem a artilharia iraniana. Edesa, o combatente de 22 anos, falou com certeza sobre a capacidade deles contra os iranianos. "Eles são bastante disciplinados. Mas somos mais. Eles são uma força militar e vivem em quartéis. Mas nós somos uma força guerrilheira."

* Warzer Jaff, no Curdistão iraquiano, e Nazila Fathi, em Teerã, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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