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23/10/2007

Uma lição de história francesa (próxima aula: política moderna)

The New York Times
Elaine Sciolino
Em Paris
Guy Moquet dá a impressão de ser um improvável ícone nacional do governo de centro-direita da França. Um comunista durante a Segunda Guerra Mundial, Moquet queria uma revolução para destruir o sistema capitalista.

Mas ele era também um membro da Resistência Francesa - de apenas 17 anos de idade - quando foi executado pelos nazistas. O aniversário de 66 anos da sua morte foi na segunda-feira (22/10). E sua carta curta e manuscrita enviada à família na véspera da sua execução comoveu tanto o presidente Nicolas Sarkozy que o seu primeiro ato oficial como presidente em maio último foi decretar que ela seja lida em todas as escolas de segundo grau da França todo mês de outubro.

Segunda-feira foi o dia da leitura da carta, mas a decisão de Sarkozy gerou uma reação furiosa de políticos da esquerda, do maior sindicato de professores de segundo grau e de alguns historiadores e acadêmicos. Eles estão acusando o presidente de manipular a história com fins políticos, interferindo em questões educacionais e reduzindo a complexa história da Resistência a uma caricatura.

Olivier Morin/AFP 
Aluna de escola em Estrasburgo lê a carta de Guy Moquet em sala de aula

"Está havendo uma revisão da história para servir a fins políticos que é escandalosa", denuncia Gerard Noiriel, diretor do Comitê de Vigilância Face ao Uso Público da História, que protestou contra a iniciativa. "O governo ocultou a verdade histórica sobre Guy Moquet, e as complexidades da Resistência foram reduzidas a uma carta tomada fora do contexto".

Segundo Noiriel, particularmente enganador é o fato de o documento oficial de instruções do Ministério Nacional da Educação às escolas omitir que Moquet era comunista.

Sarkozy cancelou os planos para visitar a escola de segundo grau de Moquet em Paris na segunda-feira, onde a carta seria lida. O seu gabinete alegou um conflito de agenda, mas o cancelamento pode ter sido motivado pelo fato de alguns professores terem ameaçado fazer um protesto.

Na segunda-feira, autoridades do governo, veteranos da Segunda Guerra Mundial e da Resistência, historiadores e professores prestaram tributo a Moquet, lendo a carta e apresentando a vários alunos um herói que tinha a idade destes quando morreu. Mas alguns professores recusaram-se a ler a carta, e alguns manifestantes acusaram Sarkozy de apropriar-se de um herói dos comunistas.

Marie-George Buffet, líder do Partido Comunista Francês, leu a carta de Moquet em uma escola de segundo grau no subúrbio operário parisiense de Seine-Saint-Denis, mas ela chamou a ação do governo de uma "homenagem solene, mas enganadora", enfatizando que a luta de classes está longe de ter acabado.

O amor de infância de Moquet, Odette Niles, atualmente com 83 anos de idade, foi citado na edição de segunda-feira do jornal "Le Parisien" como tendo dito: "Sarkozy não me agrada. Uma leitura forçada como esta me incomoda".

Entretanto, outros intelectuais disseram que a iniciativa de Moquet foi um gesto pequeno, mas importante, no sentido de ajudar a tornar a história da França relevante para os estudantes, injetando nestes um espírito de orgulho nacional.

"Nossos jovens carecem de heróis", afirma Bruno Racine, diretor da Bibliothèque Nationale, e também chefe de uma comissão presidencial sobre a educação. "Se Guy Moquet fornece uma oportunidade para discutirmos o significado de responsabilidade civil e de sacrifício, então, ainda que esta iniciativa seja polêmica, ela é positiva".

"Se Zidane pode ser um herói, por que não Guy Moquet?", acrescenta Racine, referindo-se ao astro do futebol Zinedine Zidane.

Moquet, filho de um comunista, tinha apenas 16 anos de idade quando os alemães invadiram a França em 1940. Ele distribuiu panfletos comunistas para a Resistência e foi preso em 1941, e, a seguir, julgado e absolvido. Mas como se identificou como comunista, ficou detido como preso político.

A sua execução foi um ato de vingança nazista. Depois que três comunistas mataram um oficial alemão, os nazistas ordenaram a execução de 50 prisioneiros. O governo francês de Vichy forneceu os nomes para a execução; Moquet era a pessoa mais jovem da lista.

Em 21 de outubro de 1941, na véspera da sua execução, ele escreveu uma carta a "minha adorada Mamãezinha, meu adorado e pequenino irmãozinho, meu querido Papaizinho", pedindo que eles fossem corajosos.

"Estou prestes a morrer!", escreveu Moquet, acrescentando: "Na verdade, eu gostaria de viver, mas o que desejo com todo o meu coração é que a minha morte sirva a um objetivo".

Ele disse que não se lamentava, "a não ser por deixar vocês para trás", acrescentando que beijava a sua família "com todo este meu coração de criança". "Sejam corajosos!", disse ele à família.

Sarkozy evocou o nome de Moquet durante a campanha presidencial como uma fonte de orgulho nacional e de sacrifício patriótico. Depois, no dia em que assumiu o cargo em maio, ele parou em um monumento no Bois de Boulogne, em Paris, para uma cerimônia em homenagem aos combatentes da Resistência que foram mortos lá pela Gestapo em 1944.

A carta de Moquet foi lida, e imagens de televisão mostraram Sarkozy enxugando uma lágrima. Ele prometeu pedir ao seu futuro ministro da Educação que exigisse a leitura anual da carta.

"Um jovem de 17 anos que dá a sua vida pela França. Isso é um exemplo não do passado, mas para o futuro", disse Sarkozy durante a cerimônia. Ele acrescentou: "Nunca fui capaz de ler a carta de Guy Moquet sem ficar profundamente comovido".

Na segunda-feira, o primeiro-ministro François Fillon recebeu um grupo de estudantes de segundo grau no seu gabinete em Paris, onde a carta foi lida, e chamou a confusão de "uma controvérsia bastante patética". "O presidente da República desejava criar um ímpeto coletivo em torno de uma carta escrita por um jovem comunista. É uma vergonha que certas pessoas não entendam isso", criticou Fillon.

O debate em torno da carta de Moquet também provocou o ressurgimento de objeções aos planos do governo no sentido de coibir a imigração e de criar um Ministério da Imigração e da Identidade Nacional.

A ministra da Justiça Rachida Dati foi vaiada durante uma visita a uma escola no subúrbio parisiense de Villejuif por manifestantes pró-imigração que gritaram, "Libertem Guy Moquet!" e "Resistência contra as leis racistas!".

Henri Guaino, redator de discursos do presidente e conselheiro de Sarkozy, em uma entrevista nesta semana ao jornal "Liberation", disse que é "completamente incompreensível" que os professores rejeitem a leitura da carta. Referindo-se ao romancista do século 19 Victor Hugo, ele questionou: "Alguém se recusaria a estudar um texto de Hugo que faz parte do currículo, dizendo, 'Não gosto de Victor Hugo'?". UOL

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