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24/10/2007

Livros suíços baratos ameaçam mercado editorial alemão

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Frankfurt
Em um pequeno quiosque na feira de livros daqui, o editor alemão Heinrich Berenberg, um homem afável, de cabelos grisalhos e magro, conversava com Thomas Geiger, um colega de meia idade que usava jeans e suéter. A Berenberg Verlag publica cerca de sete ou oito memórias literárias e biografias por ano. A firma foi criada há quatro anos. Geiger supervisiona a programação para uma sociedade chamada Seminário Literário em Berlim. Ele estava relembrando a sua infância passada em uma cidade industrial do oeste da Alemanha.

"A cidade ficava no meio do nada. Nela moravam apenas 20 mil metalúrgicos, mas éramos capazes de encomendar qualquer livro na Alemanha e de recebê-lo em apenas um dia. A idéia pós-fascista era que precisávamos de livros, bem como de universidades e de escolas, para consertarmos a nossa sociedade".

Petra Berenberg, a mulher de Heinrich, que também estava presente, concordou. "Eu também cresci em uma aldeia remota", contou ela. "O sistema era o mesmo utilizado para a distribuição de remédios durante a noite. Os livros vinham junto com os medicamentos no mesmo caminhão".

Oliver Hartung/The New York Times 
Hugendubel é considerada uma das maiores redes de livrarias da Alemanha

Remédios para o corpo. Livros para a mente e a alma. Se você quer uma prova de que existe um fosso cultural separando a Europa dos Estados Unidos, o mercado de livros é um bom local para se começar. Nos Estados Unidos as redes de lojas acabaram tirando do ramo grande parte das livrarias de bairro. Aqui, na Alemanha, tem-se a impressão de que há livrarias grandes e pequenas em cada quarteirão. A Associação Alemã do Livro conta com 4.208 livrarias associadas. Ela calcula que haja 14 mil editoras alemãs. No ano passado, 94.716 títulos foram publicados em alemão. Nos Estados Unidos, com uma população quatro vezes maior, 172 mil títulos foram publicados em 2005.

A cultura livresca da Alemanha é sustentada por uma prática antiga que exige que todas as livrarias, incluindo as livrarias alemãs online, vendam livros a preços fixos. Com a exceção de livros velhos, usados ou danificados, os descontos nos preços dos livros na Alemanha são ilegais. Todos os livros têm que custar um preço fixo, quer sejam vendidos pela Internet ou pela Steinmetz, uma loja em Offenbach que abriu as suas portas na época de Goethe, pela Hugendubel ou pela Thalia, duas grandes redes de livrarias.

O resultado disso ajudou pequenos editores de livros de qualidade, como Berenberg. Mas o sistema também provocou a queda dos preços dos livros (os consumidores norte-americanos deviam prestar atenção nisso). No ano passado, os preços dos livros caíram em média 0,5%.

Agora este sistema está sendo ameaçado. E logo pelos suíços. Do outro lado da fronteira, os suíços recentemente decidiram permitir descontos nos preços dos livros alemães - uma medida que alguns indivíduos do mercado editorial daqui temem que acabe obrigando a própria Alemanha a seguir o exemplo, transformando uma cultura diversificada e rica em livros em uma imagem dos Estados Unidos das grandes redes de livrarias.

Se você é um cético, pode associar os preços fixos com uma tendência alemã ao conformismo e a uma aversão às culturas regateadoras tradicionais. Se alguém sugerir um sistema de descontos a um alemão, receberá como resposta um olhar inexpressivo. Em vez de elogiar a sugestão, ele enfatizará o lugar especial que os livros ocupam na sociedade.

"A Alemanha sempre se considerou uma nação tardia, significando que nos agregamos como uma nação com um atraso histórico, e aquilo que sempre nos uniu foi o conceito de educação", afirmou Thomas Sparr, dono da Suhrkamp Verlag, de Frankfurt, uma grande e prestigiada editora. "Os livros são elementos inseparáveis da nossa auto-identidade".

Andreas Remmel, que com o seu irmão gêmeo de 35 anos, Paul, preside a editora Bernstein-Verlag, em Bonn, uma firma fundada há cinco anos, e que é especializada em livros sobre Goethe, explicou a situação da seguinte forma: "Tudo remonta à época de Goethe. No nosso sistema as pequenas livrarias alemãs podem se especializar em determinados tópicos e tornarem-se fornecedoras de determinados bairros e comunidades, e elas também possuem as suas próprias opiniões a respeito de que livros desejam vender, o que nos dá uma oportunidade de encontrar um nicho. Aqui as coisas não dependem do gosto de uns poucos compradores das grandes redes de livrarias".

O sistema de preços fixos não é uma exclusividade da Alemanha. A França também adotava esse sistema, desistiu dele, e o reinstituiu após descobrir que os descontos prejudicavam as pequenas livrarias. Mas no universo livresco de língua alemã, esse sistema era há muito tempo um motivo especial de orgulho, até a Suíça pular do barco na primavera deste ano.

Apesar do lobby vigoroso feito por editoras e livrarias independentes alemãs e suíças, o governo suíço manteve uma decisão da Comissão Suíça de Concorrência no sentido de derrubar a lei dos preços fixos e permitir os descontos nos preços dos livros vendidos no país.

Ainda é prematuro para se fazer afirmações definitivas, mas desde então alguns preços de livros na Suíça subiram. Os descontos nos preços dos best-sellers estão obrigando os livreiros suíços a aumentar os preços dos outros livros.

Eu telefonei para Rafael Corazza, diretor da Comissão de Concorrência, para perguntar o que ele está achando. "É normal que um mercado conte com regulamentações especiais", explicou ele. "O que havia era um cartel. Os vendedores de livros alemães e suíços diziam que o sistema tinha um objetivo nobre - eles apresentaram um argumento cultural, mas nós somos uma comissão econômica. Eles disseram que o antigo sistema promove um mercado mais amplo e profundo para os livros, que os descontos prejudicam os pequenos vendedores que apóiam as pequenas editoras, e que com a mudança teríamos menos livros e um maior foco nos best-sellers".

E eles estão certos?, perguntei.

"Não tenho certeza absoluta de que eles estejam completamente enganados", admitiu Corazza. "Até o momento ninguém sabe ao certo. Mas ninguém é capaz de ler um milhão de títulos, de forma que a pergunta é a seguinte: é melhor que mais pessoas leiam menos livros, ou que menos pessoas leiam muitos livros diferentes?".

Ao ouvir essa argumentação, Berenberg riu. "Sem a manutenção de preços, teremos aquilo que se vê nos Estados Unidos e na Inglaterra, ou seja, o equivalente ao fim das livrarias de pequeno e médio porte. Nós, como pequenos editores, necessitamos delas, porque assim que elas se forem, nós seremos os próximos".

Foi isso o que quase todos me disseram. "Essa é uma questão fundamental para a nossa existência", afirmou Arnulf Conradi, um editor aposentado que fundou a Berlin Verlag.

Peter Molder, um agente literário de Colônia, acrescentou: "Estamos acostumados a receber apoio governamental aos programas culturais. Nos Estados Unidos, o que está em jogo é a riqueza privada. Aqui a questão é o que o setor público pode fazer pela cultura".

Heike Fischer, um editor de Colônia, disse: "Mas isso diz respeito também à idéia de proteção igualitária. Neste sistema todos têm a mesma oportunidade, seja você um editor ou um livreiro grande ou pequeno, ou um consumidor que mora em Berlim ou em uma pequena cidade".

As editoras francesas contrabalançaram os descontos suíços cobrando mais das livrarias suíças do que das francesas, uma medida que poderá ser imitada pela Alemanha.

Enquanto isso, as opiniões se dividem sobre o que a decisão suíça significará para a Alemanha.

Michael Naumann - um antigo editor, que agora disputa a prefeitura de Hamburgo - há alguns anos, quando era ministro da Cultura da Alemanha, venceu uma batalha contra a União Européia para proteger o sistema alemão de preços fixos. Ele disse que não está muito preocupado.

"Os preços fixos dos livros funcionam há mais de um século e nos proporcionaram a mais competitiva indústria nessa área, algo que os ideólogos do mercado não conseguem entender", disse ele.

Mas Elisabeth Ruge parece ter medo. Ela administra a Berlin Verlag, a editora alemã de Richard Ford e da edição em língua inglesa do mais recente "Harry Potter", que vendeu mais de um milhão de cópias aqui. Segundo ela, não é apenas o mercado suíço, mas especialmente o crescimento das redes de livrarias alemãs que a preocupa.

"As pequenas lojas literárias daqui vendem os nossos livros e outros livros literários", explicou ela. "As redes de livraria sequer recebem mais os nossos representantes de vendas". Os seus representantes visitam 2.600 livrarias independentes na Alemanha, três vezes por ano.

"Se a rede não vê os representantes, isso significa que as editoras não contarão com os meios para falar sobre os seus livros", acrescentou Ruge. "Veja o que aconteceu no Reino Unido com a Waterstone's e a W.H. Smith. Eles não são mais o que eram antes, em termos de qualidade, agora que tomaram conta do mercado inteiro. Três quartos dos livros que vendemos nunca geram lucros, mas é importante publicar esses livros porque acreditamos neles, e porque eles criam um clima de qualidade. Assim, as pessoas confiam em nós quando dizemos que um livro é bom".

Isso é o que qualquer editora norte-americana diria, mas, aqui, os alemães como uma nação acreditam que a publicação de livros de qualidade é uma obrigação cultural.

Dei uma parada na livraria Marga Schoeller's, em Berlim. Thomas Rodig, um homem informal e de voz suave, é um dos gerentes. A loja foi fundada em 1929, e mais tarde foi a primeira livraria a ser aberta em Berlim Ocidental após a guerra, no local para onde Auden, Beckett, Eliot, Mann e Hesse vinham para ler e passar o tempo. Atualmente a livraria é um labirinto de corredores apertados, que fornece os seus produtos a consumidores leais do bairro.

"Sinto-me relativamente calmo pelo simples motivo de que aqui quase todo mundo concorda com relação a uma coisa: queremos garantir que um grande número de livros seja produzido e distribuído na Alemanha", disse Rodig.

Por quê?, perguntei.

Por um segundo ele pareceu desnorteado por eu ter feito tal pergunta.

"Porque precisamos dos livros", respondeu. UOL

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