UOL Notícias Internacional
 

24/10/2007

Tradições abaladas: a repressão aos monges de Mianmar

The New York Times
Cho Sang-Hun
Em Mandalay, Mianmar
Enquanto soava o gongo da hora do almoço pelo mosteiro localizado sob sombra de árvores, várias centenas de monges em mantos vermelhos faziam fila em um dia de meados de outubro, todos segurando tigelas.

É uma cena comum em Mianmar, a antiga Birmânia, onde uma em cada 100 pessoas, muitas delas ainda crianças, são monges. Mas a fila do almoço no mosteiro Mahagandhayon, o maior do país, costumava ser maior.

"Nós costumávamos ter 1.400 monges aqui", disse um monge. "Devido à situação, os pais levaram 1.000 deles para casa."

The New York Times 
Poucos monges permaneceram no templo Chaukhtatgyi após a revolta em Mianmar

Por décadas, duas instituições poderosas moldaram a vida birmanesa: os 500 mil membros do clero budista, que possuem autoridade moral sobre a população, e a junta do general Than Shwe, cuja força de 450 mil soldados mantém o controle sobre a população por meio da intimidação.

A coexistência incômoda entre eles ruiu. Após manifestações dispersas contra os aumentos nos preços dos combustíveis em agosto, milhares de monges foram às ruas para protestar contra a má administração econômica da junta e sua repressão política. Os militares responderam com cassetetes e balas.

As armas prevaleceram sobre os mantras, pelo menos por ora.

Até 6 de outubro, o governo disse ter detido 533 monges, dos quais 398 foram soltos após a separação dos "verdadeiros monges" dos "falsos". Monges e dissidentes dizem que muitos mais foram detidos.

"Eles levaram caminhões lotados de monges e leigos", disse o vice-líder de um mosteiro em Yangun, a cidade mais populosa do país. "Eles fizeram os monges se ajoelharem, com suas mãos atrás da cabeça. Qualquer um que levantasse sua cabeça era espancado."

Ele disse que no Ngwe Kyayan, o maior mosteiro em Yangun, os soldados tomaram caixas de alimentos e doações, bateram no abade e vandalizaram imagens do Buda, enquanto alguns dos seus 300 monges reagiam.

Os monges, ele disse, começaram a manifestar sua oposição às privações econômicas do povo birmanês. "É uma situação terrível", ele disse, falando sob a condição de anonimato, assim como outros entrevistados, por temer represália do governo. "Os monges foram às ruas e chamaram atenção para o problema, implorando por benevolência. Mas nosso governo é pior do que os nazistas de Hitler. Ele não tem respeito pela religião. Eu me pergunto quanto tempo levará para cicatrizar esta ferida."

Quando acabou, o "The New Light of Myanmar", um jornal estatal de língua inglesa, disse: "Monges tiveram sua ordenação cancelada durante o interrogatório" para que pudessem ser tratados como leigos, então ordenados e enviados "de volta ao seu mosteiro". Nas entrevistas, os monges condenaram o processo, dizendo que os militares não tinham autoridade para ordenar ou remover a ordenação de monges.

A junta também empregou táticas de dividir e enfraquecer, persuadindo o Comitê Sangha Maha Nayaka sancionado pelo Estado, que supervisiona o clero budista, a aceitar suas doações e ordenar aos monges para que interrompessem os protestos sob risco de punição.

"Alguns destes monges superiores são subornados pelo regime", disse um editor de uma revista de Yangun. "Eles aceitaram tantas boas coisas na vida -carros, televisores, grandes casas, telefones e celulares- que simplesmente têm que atender ao regime."

No mosteiro Mahagandhayon aqui em Mandalay, soldados recuaram em meados de outubro após manterem o templo isolado por semanas. Mas seus caminhões permanecem escondidos em becos próximos do mosteiro, com rumores dizendo que, se os monges se revoltassem de novo, provavelmente seria nesta cidade, a segunda maior do país.

Jovens de todo o país vêm para cá para ingressar na vida religiosa e estão cada vez mais passionais em relação à pobreza e injustiça sofrida pelo país sob o governo militar.

O medo ainda era palpável em Mahagandhayon, onde os monges cantavam mantras durante sua última refeição do dia, um almoço em meados da manhã de sopa de legumes, berinjela, arroz e uma iguaria doada -macarrão instantâneo. Mas os monges claramente ainda relutavam em comentar a repressão dos militares às manifestações do final de setembro.

"Eles têm medo de armas!" disse um monge superior antes de desaparecer no salão de refeição.

Muito antes da ocorrência dos protestos, os monges estavam cientes do sofrimento das pessoas. Quando saíam para coleta de donativos, disse o monge superior em Yangun, eles não encontravam "felicidade no rosto das pessoas, pessoas cujas mentes estavam preocupadas em encontrar comida e sobreviver um dia de cada vez".

Mas o uso de força pelos militares contra os monges abalou valores fundamentais birmaneses.

"Para os birmaneses, os monges são como filhos do Buda", disse Maung Aye, um taxista, enquanto contornava o pagode Sule de 2 mil anos, em Yangun, que supostamente guarda um fio de cabelo do Buda e foi o ponto central dos protestos e de sua posterior repressão.

Um dono de loja de 37 anos em Yangun disse que seu filho de 5 anos, que como a maioria das crianças birmanesas foi criado com a crença budista em carma, gritou: "Eu não quero virar soldado. Se tiver que matar um monge, vai acontecer o pior comigo na minha próxima vida".

Em um templo em Yangun, sentados diante de uma imagem dourada do Buda envolta por lâmpadas elétricas que piscavam, dois monges de meia-idade falavam com resignação e raiva.

"Nós aprendemos uma lição de 1988", disse um monge, se referindo ao grande levante pró-democracia que os militares suprimiram, deixando centenas, talvez milhares de mortos. "Se não muda nada e apenas piora, por que arriscar nossas vidas? Por que tentar, se nada acontece?"

O outro monge disse: "Nós gostaríamos de amar nosso governo. Nós tentamos mas não conseguimos. Nosso desejo é sair e protestar de novo, mas sabemos que eles estão lá fora com suas armas".

Durante a quaresma budista, que dura três meses, até o final de outubro, os monges se concentram no estudo das Escrituras e evitam deixar seus mosteiros, exceto pelas saídas matinais para coleta de doações. O fato dos monges terem saído em protesto durante este período foi amplamente visto como um sinal de quão furiosos estavam. Mas em meados de outubro, muitos mosteiros em Yangun estavam desertos, após batidas militares terem feito milhares de monges fugirem.

Em cidades por toda Mianmar, os monges tradicionalmente percorrem as ruas ao amanhecer em busca de doações e os leigos ganham mérito doando arroz e outros alimentos. As famílias se orgulham do que é visto como adoção de monges, lhes fornecendo alimentos, roupas, livros e outros bens por alguns meses ou anos, dependendo de suas condições financeiras.

Mas com o agravamento da pobreza em Mianmar, as procissões por doações cada vez mais se transformam em uma troca triste de pedidos de desculpas pela necessidade de esmolar e pela incapacidade de doar. Agora, com a dispersão dos monges, as filas de doação encolheram em grandes cidades como Yangun e Mandalay.

Por séculos, quem quer que tomava o poder neste país buscava legitimidade despejando dinheiro em pagodes e mosteiros. Quando a líder democrática Daw Aung San Suu Kyi convocou uma "segunda luta pela independência nacional" em 1988, ela escolheu o pagode Shwedagon de espirais douradas como local para fazer seu discurso divisor de águas.

Assim, quando os monges marcharam em setembro até o lar em que ela é mantida em prisão domiciliar, o ato foi uma reprovação moral ao governo.

Mas os próprios monges não são imunes a críticas. Apesar de clérigos superiores serem eleitos por monges e reverenciados por leigos, "eles formam uma pequena sociedade fechada que não sabe nada sobre a comunidade em geral", disse o editor da revista. "Alguns deles não sabem como os pobres vivem em uma pequena aldeia."

Um dos vários títulos que o governo outorga aos monges superiores é bhaddanta. Alguns leigos chamam estes monges privilegiados de "bhaddanta Toyota" ou "bhaddanta Toshiba".

Alguns leigos defendem os velhos clérigos que aceitam presentes do governo. Estes monges, eles disseram, têm a obrigação moral de aceitar doações e temem que um confronto possa custar mais vidas.

Ainda assim, testemunhas relataram pilhas de arroz doadas pelo governo que não foram recolhidas nos portões de alguns mosteiros, uma rejeição ao esforço do governo de aplacar o clero.

Em meados de outubro em Mahagandhayon, os monges prosseguiam em suas rotinas diárias. O zumbido da recitação das escrituras preenchia o mosteiro. Cães de rua, que vieram dividir os restos das doações com crianças mendicantes, dormiam no chão.

O monge superior disse esperar o retorno dos demais estudantes daqui aproximadamente um mês. Um jovem monge que permaneceu disse: "Por favor, vá e diga ao mundo exatamente o que aconteceu neste país".

Ele acrescentou: "Eu estou apavorado apenas por ter conversado com você a respeito". George El Khouri Andolfato

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