UOL Notícias Internacional
 

25/10/2007

Nada de rock and roll para o Estado chinês

The New York Times
Howard W. French
Em Xangai, China
Uma canção muito ouvida no rádio atualmente começa com uma melodia leve e animada e letras ainda mais para cima.

"Não ligue para a solidão", diz o cantor. "Eu não acho que isto importe."

Outra canção muito tocada se esforça ainda mais para consolar. "Ah, homenzinho, ah, seja bem-sucedido rapidamente", ela aconselha. "Desfrute diariamente ser pobre mas feliz."

Os marxistas antes se referiam à religião como o ópio do povo, mas na China atual é a música promovida pela rádio estatal que cada vez mais ocupa tal lugar. Desde que assumiu o poder há cinco anos, o líder da China, Hu Jintao, fala sobre "construir uma sociedade harmoniosa", uma frase ambígua, sujeita a inúmeras interpretações.

Mas os músicos, críticos culturais e fãs chineses dizem que no entretenimento, o esforço do governo parece claro: harmonioso significa suavemente homogêneo, com virtualmente toda a música contemporânea no rádio consistindo de canções românticas gentis e baladas para levantar o espírito.

Nas últimas semanas, as emissoras de televisão sofreram intensa pressão de Pequim para purgarem de sua programação as notícias de crime e mesmo referências levemente sugestivas de sexo. Produtores de programas de variedade estão sujeitos a novas regras que visam reforçar as noções oficiais de dignidade. Enquanto isso, galerias de arte e produções teatrais sempre estiveram sujeitas a análise dos censores.

Mesmo sem recorrer a censura direta, o Estado conta com poderes formidáveis para controlar a música popular e moldar os gostos. Entre eles está a propriedade de todos os meios de radiodifusão, a seleção de letras de toda a música comercial e controle rígido dos locais de apresentação.

Muitos dizem que o resultado é a perda da sensibilidade e a estupidificação da música popular. Fu Guoyong, um crítico de cultura independente em Hangzhou, comparou a música popular atual ao conformismo politicamente forçado da Revolução Cultural, quando apenas oito "óperas-modelo" socialistas, altamente idealizadas, podiam ser apresentadas na China.

"Atualmente os cantores podem cantar muitas canções, mas no final, todos cantam a mesma canção, cuja essência é: 'Divirta-se'", disse Fu. "A cultura se transformou em um vaso vazio."

Em nenhum outro lugar a conformidade é exercida mais vigorosamente do que no rádio, onde os programas de música popular estão saturados do equivalente chinês do tipo de música freqüentemente associada em outros países a elevadores e consultórios de dentista.

O rock and roll é em grande parte limitado a programas especiais que são permitidos em breves janelas de programação nas madrugadas, e mesmo aí há poucos indícios de revolta, alienação ou qualquer mínima manifestação de rebelião adolescente.

O rock desfrutou de popularidade na China no início dos anos 90, mas as composições do artista mais famoso do país, Cui Jian, desapareceram do rádio naquela época porque, como acreditam muitos fãs, suas letras começaram a flertar com temas políticos.

A esta altura, os grupos de rock se sentem tão indesejados que quando o Comitê Olímpico Chinês convocou músicos para apresentarem canções para os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, virtualmente nenhum se ofereceu, segundo Shen Lihui, um executivo de gravadora que foi consultado pelo comitê.

Liu Sijia, o baixista e vocalista de uma banda underground de Xangai chamada Three Yellow Chicken, disse que a música alternativa atualmente tocada na China é parecida com o rock ocidental nos anos 60, com freqüentes referências a questões sociais como guerra, pobreza, direitos civis e conflito de gerações. Mas o rock alternativo raramente é ouvido no rádio.

"O que predomina aqui é pior que lixo", ele disse. "Porque a China enfatiza a estabilidade e a harmonia, a maior utilidade destas canções populares é não serem perigosas para o sistema. Se as pessoas pudessem ouvir a música underground, isto as faria sentir os problemas de suas vidas e as estimularia a querer mudar as coisas."

As autoridades culturais e os DJs de rádio chineses insistem que a predominância de música pop suave apenas reflete o gosto popular. Muitos apontam para uma mudança de geração na China, com os atuais jovens do país concentrados demais no boom econômico do país para se preocuparem com problemas sociais ou meditarem sobre as grandes questões da vida.

"O que importa é se você está feliz ou não, não o conteúdo", disse Zheng Yang, um DJ veterano da Music Radio em Pequim. "A vida está tranqüila, de forma que a música trata de coisas tranqüilas. Qualquer um pode criticar ou censurar. O que precisamos no momento é de orientação."

Os críticos das políticas culturais do país reconhecem que em comparação com práticas do passado, a censura direta de música popular é relativamente incomum. Mas em comentários que indicavam a agenda política por trás da gestão da música popular pelo Estado, Zhang Zhuyi, uma autoridade da Administração de Rádio, Cinema e Televisão do Estado, disse duvidar que uma emissora de rádio dedicada ao rock and roll seria autorizada na China.

"Novas emissoras de rádio precisam de aprovação e os reguladores considerariam se o conteúdo se enquadra com as tendências sociais e políticas nacionais", disse Zhang.

Ao ser perguntado quais eram elas, ele disse: "Se trata de orientar o público, lhes fornecer uma espécie de alimento espiritual".

Em um pequeno local de apresentação em Xangai, um dos poucos onde artistas alternativos podem tocar, um grupo de estudantes universitários desdenhou a atual música popular chinesa.

"O que toca no rádio é baboseira acéfala que todos copiam uns dos outros", disse Xu Jinlu, uma caloura de 20 anos. "O que é produzido aqui fala apenas de 'Você não me ama' ou 'Eu não amo você'. É ruim e pobre em conteúdo."

Sobre isto, sua amiga Yu Yun comentou: "Assim que você ouve o primeiro verso, você já sabe o resto". George El Khouri Andolfato

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