UOL Notícias Internacional
 

27/10/2007

Incêndios expõem tamanho do problema da imigração

The New York Times
Randal C. Archibold e Will Carless*

Em San Diego
Saídos da mata em chamas, de trás dos rochedos do desfiladeiro, vários migrantes corriam na direção de um grupo de bombeiros, perseguidos não pela polícia de fronteira, mas pelo avanço do fogo de um dos maiores incêndios florestais nesta semana.

O surgimento deles surpreendeu os bombeiros, que permitiram que entrassem em seus veículos. Mas com a descoberta de quatro corpos carbonizados em uma área de grande imigração ilegal, cresce a preocupação de que outros possam não ter sobrevivido.

"As mãos deles estavam queimadas e estavam claramente cansados e gratos", disse o capitão Mike Parkes do Departamento Estadual Florestal e Proteção Contra Incêndios sobre o que sua equipe de bombeiros viu.

Monica Almeida/The New York Times 
Residentes de Rancho Penasquitos, Califórnia, região atingida por incêndios

Imigrantes do sul da fronteira, muitos ilegais, são a base do trabalho de baixa remuneração em San Diego, colhendo frutas, limpando quartos de hotel, varrendo calçadas e cortando grama.

Os incêndios florestais, um dos maiores desastres naturais a atingirem o condado, expuseram sua existência freqüentemente invisível de formas trágicas e às vezes mortais.

Os quatro corpos foram encontrados em uma área queimada no sudeste do condado de San Diego, uma região conhecida por intensa imigração ilegal. Ela fica perto de Tecate, onde uma corrente que protegia uma passagem de fronteira evacuada foi cortada e pela qual foram vistas pessoas entrando nos Estados Unidos.

Enquanto o combate aos incêndios prosseguia na sexta-feira, campos improvisados para imigrantes no norte do condado permaneciam praticamente abandonados. Alguns imigrantes estariam escondidos em locais ainda mais remotos. Outros buscaram ajuda nas igrejas.

"Eu fiquei bastante assustado, nós tivemos que partir no meio da noite e fomos para a igreja", disse Juan Santiago, um trabalhador imigrante em Rancho Penasquitos, ao sul da duramente atingida Rancho Bernardo.

Terri Trujillo, de Rancho Penasquitos, que ajuda os imigrantes, procurou por aqueles que estavam nos desfiladeiros, pedindo para que partissem, quando deixou sua casa.

Trujillo e outros que ajudam os imigrantes disseram que viram vários nos campos enquanto as chamas se aproximavam e cinzas caíam sobre eles. Ela disse que muitos temiam perder seus empregos.

"Havia Mercedes e Jaguares partindo, pessoas estavam sendo evacuadas, mas os imigrantes permaneciam trabalhando", disse Enrique Morones, que leva alimento e cobertores aos campos. "É ultrajante."

Alguns dos trabalhadores ilegais que procuraram a ajuda das autoridades foram presos e deportados. Oponentes da imigração ilegal, incluindo grupos civis que vigiam a fronteira, aproveitaram as notícias de que imigrantes foram detidos no centro de desabrigados no Qualcomm Stadium como evidência dos problemas causados pela imigração ilegal.

A Patrulha de Fronteira também prendeu vários imigrantes ilegais que foram expulsos de seus esconderijos pelos incêndios. Fisher, da Patrulha de Fronteira, disse que 100 foram presos desde o início do incêndio no domingo.

Ele disse que a agência nunca abandonou a patrulha da fronteira e que os agentes ajudaram as remoções e resgates. O fogo bloqueou alguns pontos de acesso às áreas de fronteira, mas segundo Fisher, "nós estávamos conscientes da necessidade de assegurar que nossa missão de segurança da fronteira fosse cumprida".

Algumas pessoas especularam, inclusive na Internet, que os imigrantes poderiam ter iniciado os incêndios, como já ocorreu com fogueiras de acampamentos acesas em campos.

As autoridades não deram nenhuma causa associada à imigração.

Dois homens, um no condado de San Diego e outro no condado de Los Angeles, que foram presos sob acusação de incêndio criminoso nesta semana por terem acendido pequenas fogueiras, provavelmente seriam deportados, disse uma autoridade federal de imigração.

A polícia de San Diego deteve pessoas suspeitas de furto no Qualcomm Stadium. Seis foram entregues para as autoridades de imigração quando ficou aparente que poderiam estar ilegalmente nos Estados Unidos.
CALIFÓRNIA EM CHAMAS
Robyn Beck/ AFP - 24.out.2007
Bombeiros tentam conter incêndio em Jamul, Califórnia
VOLTA PARA CASA


A Patrulha de Fronteira disse que os seis, assim como um jovem americano que estava com eles, foram devolvidos ao México a pedido do grupo.

A União Americana de Liberdades Civis disse ter recebido relatos de ajuda negada a pessoas em abrigos por carecerem de identificação apropriada. As autoridades estão checando a identificação para impedir que pessoas não afetadas pelos incêndios tirem proveito da comida, roupas e outros serviços gratuitos.

As preocupações do grupo de direitos provocou uma censura do deputado Brian P. Bilbray, um republicano que representa as áreas ao longo da fronteira.

"Pessoas estão morrendo porque não conseguimos controlar nossa fronteira", disse Bilbray. "É sobre isto que deviam estar reclamando. Qualquer um que conhece a região e a atividade ilegal naquele terreno acidentado sabe que não há como evitar mortes em um caso destes."

Wayne A. Cornelius, um cientista político da Universidade da Califórnia, em San Diego, que estuda as questões de fronteira, disse que se o passado servir como guia, haverá mais atrito sobre os incêndios e seus efeitos sobre os imigrantes ilegais.

"San Diego gosta de que seus imigrantes ilegais permaneçam o mais invisíveis que for possível", disse Cornelius. "Assim, sempre que acontece algo que chama a atenção para a presença deles, isto alimenta as forças locais antiimigração."

Em um exemplo de boa vizinhança, uma equipe de combate a incêndios da Baixa Califórnia ajudou os bombeiros americanos em um grande incêndio ao longo da fronteira no início da semana.

Para os imigrantes, os incêndios podem ter eliminado parte do seu trabalho. Mas alguns especulavam sobre fortes perspectivas de trabalho em limpeza e recuperação. No início da tarde, perto de um bairro altamente atingido na área de Rancho Bernardo, quatro homens aguardavam em uma esquina por ofertas de trabalho.

"É uma pena o que aconteceu", disse um homem que disse apenas seu primeiro nome, Miguelito. "Mas achamos que haverá empregos em limpeza ou construção."

* Dan Frosch, em Denver, e Carolyn Marshall, em San Francisco, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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