UOL Notícias Internacional
 

27/10/2007

Silêncio! Meu filho está dormindo (na minha cama, hã, comigo)

The New York Times
Tara Parker-Pope
Alguns anos atrás, a minha filha me falou sobre um sonho envolvendo um pacote gigante de Doritos. As dobras do pacote haviam formado uma espécie de escada, e ela subiu para alcançar os chips gigantes que estavam lá dentro. "Foi um sonho tão bom, mamãe", ela me disse.

O sonho do Doritos é apenas uma das incontáveis memórias de fatos relativos a mãe e filha pelos quais passei no meio da noite. Desde que era bebê, a minha filha, agora na terceira série, dorme comigo na minha cama. Eu certamente nunca esperei que seria uma mãe "compartilhadora do sono", mas dividir uma cama era simplesmente mais fácil quando ela era uma neném ainda na fase de amamentação. Tirá-la da cama, agora que ela ficou mais velha, tem sido praticamente impossível.

Na maior parte do mundo, dormir perto do seu filho é uma necessidade: famílias de recursos limitados precisam viver em habitações apertadas. Mas no mundo ocidental afluente, esta prática é geralmente vista com estranheza, não apenas por avós e amigos, mas pela maioria da comunidade médica.

Porém, a prática é bem mais comum do que muita gente pensa. Quase 13% dos pais nos Estados Unidos dormiram com os seus filhos pequenos em 2000, contra 5,5% em 1993, segundo um relatório publicado no mês passado no periódico "Infant and Child Development". Incontáveis crianças começam a noite nas suas próprias camas, apenas para acordarem algumas horas mais tarde e entrarem nos quartos dos pais, arrastando-se para a cama destes ou deitando-se ao lado, no chão.

Pergunte aos pais se eles dormem com os filhos, e a maioria dirá que não. Mas existem evidências de que o hábito de dividir a cama é mais comum do que o anunciado. Muitos pais são "compartilhadores de cama enrustidos", que temem a desaprovação caso alguém descubra, observa James J. McKenna, professor de antropologia e diretor do Laboratório do Comportamento do Sono da Mãe e do Bebê da Universidade de Notre Dame.
MUNDO DO SONO
Reuters - 30.ago.2002
 
PESQUISAS SOBRE SONHO


"Eles estão cansados de ser censurados ou criticados", diz McKenna. "Não é apenas o fato de os seus bebês serem julgados negativamente por não serem bons nenéns comparados àqueles que dormem sozinhos. Há também a questão de os pais serem julgados por terem tais bebês e serem carentes".

De fato, a pesquisa demonstra que os pais falam com freqüência sobre os hábitos de sono dos filhos em termos de onde a criança iniciará a noite ou onde ela deveria dormir - e não necessariamente de onde esta geralmente acaba de fato dormindo.

Em uma série de estudos na Grã-Bretanha, cientistas entrevistaram pais sobre os hábitos de sono dos filhos, mas também usaram câmeras infravermelhas para monitorar o quarto dos pais. As crianças muitas vezes passaram parte da noite na cama dos adultos, mas em cerca de metade desses casos, os pais não revelaram tal fato, a menos que fossem perguntados especificamente sobre isso. Como resultado, muitos especialistas dizem que a maioria dos dados nos Estados Unidos subestimam bastante a maneira como esta prática é comum.

Uma razão para isso pode ser o fato de os adultos sentirem-se culpados porque os pediatras não aconselham o compartilhamento da cama com os filhos. A Academia Americana de Pediatria afirma que os bebês devem dormir próximos aos pais, mas não na mesma cama. Isso devido ao temor de que um pai adormecido possa sufocar o neném sob as cobertas ou no espaço entre a cama e a parede.

Embora alguns estudos sugiram que o compartilhamento de cama faz com que as crianças corram mais risco de serem vítimas da síndrome da morte súbita de bebês, os dados não são conclusivos. E alguns pesquisadores afirmam que o risco só é maior caso os pais fumem, consumam muita bebida alcoólica e não tomem as precauções apropriadas para garantir que a cama esteja segura.

Uma preocupação comum diz respeito à possibilidade de a prática interferir no desenvolvimento de hábitos saudáveis de sono. Por exemplo, estudos na Itália, na China, nos Estados Unidos e em outros países registraram consistentemente vínculos entre o compartilhamento da cama e o despertar freqüente à noite.

Mas os estudos geralmente se baseiam nos depoimentos dos próprios pais, e alguns pesquisadores questionam a significância de tais dados. Kathleen Dyer, professora de ciências da criança, da família e do consumidor na Universidade do Estado da Califórnia, em Fresno, afirma que essa tendenciosidade na avaliação pode levar os cientistas a superestimar os problemas associados ao compartilhamento da cama.

Em um estudo, por exemplo, 139 pais foram perguntados a respeito dos seus hábitos de sono e os dos seus filhos pequenos. Os pais que dormiam com os filhos relataram uma freqüência bem maior de despertares noturnos do que os pais que não adotavam essa prática.

"É claro", diz Dyer. "Quando você está dormindo com o seu filho e ele acorda uma vez durante a noite, você sabe que isso ocorreu porque estava lá. Se ele estiver no quarto ao lado, ele ainda estará acordando à noite, mas você simplesmente não vê". Segundo ela, a questão mais importante é determinar se os pais vêem os despertares noturnos como um problema. "Aquilo que o pesquisador acha ser um problema, muitas vezes não é visto com naturalidade pela família".

Um outro temor é quanto à possibilidade de o compartilhamento da cama com os filhos prejudicar o casamento. Isso é bem provável caso os pais discordem a respeito de onde a criança deva dormir. Mas nos casos em que os dois pais concordam, aqueles que dormem com os filhos são tipicamente tão felizes quanto os pais que dormem sozinhos.

Em um trabalho publicado no mês passado no periódico "Infant and Child Development", Dyer propôs que as famílias que adotam o compartilhamento de cama se dividem em três categorias distintas. Existem os compartilhadores intencionais - por exemplo, as mães que dormem com os filhos porque desejam amamentá-los por um longo período e acreditam que o compartilhamento da cama seja positivo para o bem estar e o desenvolvimento emocional da criança. Um outro grupo é o dos compartilhadores reativos, aqueles que não desejam realmente dormir com os filhos, mas o fazem porque não conseguem fazer com que os filhos durmam de outra maneira, ou porque problemas financeiros exigem que compartilhem um quarto com a criança.

E existe ainda um terceiro grupo que é chamado de forma meio vaga de compartilhadores circunstanciais - os pais que dormem com os filhos ocasionalmente devido a circunstâncias como o compartilhamento da cama durante as férias da família, durante uma tempestade ou porque a criança fica doente.

O compartilhamento é provavelmente um motivo de maior preocupação para os compartilhadores reativos, afirma Dyer, porque a prática é basicamente imposta aos pais. Nesses casos, é provável que a situação seja estressante tanto para os pais quanto para os filhos.

"Acredito ser possível dormir ao lado de um bebê e não responder às necessidades dele", opina Dyer. Ela lembra-se da história de uma mãe que estava morando temporariamente na casa de parentes e dividindo um quarto com o filho. "Creio que ela estava ressentida com o fato de eles estarem espremidos no quarto. Mas o local onde uma pessoa dorme não é o fator preponderante. A questão diz respeito à qualidade do relacionamento emocional".

Quando a minha filha nasceu, eu certamente não a queria na minha cama (eu estava me recuperando de uma cesariana). Mas as enfermeiras insistiram que eu a mantivesse no meu leito no hospital, porque ela chorava e incomodava os outros bebês. Eu não agüentei vê-la chorar até cansar, de forma que, encorajada pelo pediatra, fiz as pazes com a situação.

"O que acontece é simplesmente que você tem um desses bebês que precisam ser segurados no colo", disse ele.

Nem sempre foi fácil. Uma amiga minha observou corretamente que dormir com uma criança é meio como que dormir dentro de uma máquina de lavar roupa. Mas, atualmente, a minha filha é bem mais independente em relação ao seu sono, chegando a dormir na casa de amigas, passando a noite em acampamentos e dormindo algumas noites na sua própria cama.

E embora ainda haja várias noites nas quais ela se aconchega junto a mim, na minha cama, o meu pediatra garante que não há nada com o que me preocupar.

"Posso lhe dizer com toda a certeza que um dia você acordará e ela não estará lá", disse o médico. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host