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28/10/2007

Amor moderno: por que precisávamos de um acordo pré-nupcial com nosso empreiteiro

The New York Times
De Deborah Derrickson Kossmann*
"Agora você sabe como é a experiência de ter um namorado ruim", eu disse ao meu marido.

Nossa conversa não era sobre namorados ruins; era sobre empreiteiros. Há quinze anos, no auge da minha época de encontros, namorado ruim era minha especialidade. Mas depois que Marc e eu nos casamos, eu achei que a turbulência emocional tinha ficado para sempre para trás. Então compramos nossa casa dos sonhos com uma ampla varanda na frente, uma casa vitoriana de 1903 com necessidade de reforma.

David Chelsea/The New York Times 


Isso foi em junho, quando os pardais se fartavam das amoras de uma árvore em frente à janela da cozinha. Nosso plano era simples: nós pagaríamos duas hipotecas por dois meses durante a reforma da casa e nos mudaríamos assim que estivesse concluída.

Nosso primeiro empreiteiro, Jim, se encaixava perfeitamente no molde de namorado ruim: ele queria nos amar, mas não sabia como. Ele disse todas as coisas certas, mas não conseguia nos priorizar. E depois de três meses ele nos abandonou em conseqüência de infortúnios numerosos demais para catalogar: ele lesionou seus testículos, quebrou o pé, foi vítima de um desfalque de seu sócio e teve suas contas congeladas pela receita federal. As tragédias combinadas o deixaram impossibilitado de devolver nosso depósito original.

Ainda assim, eu argumentei, nós devíamos ser gentis com ele, mesmo não tendo nos tratado bem. Nós precisávamos assumir uma posição superior.

Marc olhava para mim como se eu fosse insana.

"Tenho certeza que ele nos pagará", eu disse.

Após aqueles meses insanos com Jim, meu marido e eu nos convencemos de que pelo menos a situação dele era tão insana que nada igual poderia acontecer de novo. Não mesmo?

Eu devia saber que pessoas que atraem namorados ruins tendem a continuar os atraindo.

Nosso novo empreiteiro, Mike, parecia prestativo e sensível. Ele nos deu rapidamente uma estimativa e retornava prontamente nossas ligações. Ele era, ao menos na aparência, o oposto de nosso último relacionamento fracassado, o que o tornava incrivelmente sedutor.

Enquanto estávamos na cozinha em meio a gabinetes semipendurados e bancadas ausentes, Mike disse: "Eu não acredito que o outro sujeito fez isto com vocês. Eu não sei como algumas pessoas se safam desta forma". Ele disse que iniciaria as obras no início de outubro e terminaria até o Dia de Ação de Graças. Apertando firmemente minha mão, ele disse: "Não se preocupe, garota. Vai terminar tudo bem".

Na segunda-feira, véspera do início da obra, Mike chegou com seu capataz. Eles circularam pela casa analisando tudo. Eles se espremeram em lugares apertados enquanto eu ficava para trás, escutando eles conversarem sobre vigas e metragem. "Amanhã estaremos aqui, garota", ele disse.

Meu marido e eu entramos em êxtase.

A terça-feira chegou e nada do Mike. Quarta, quinta e sexta também passaram. Marc começou a telefonar. Na quarta-feira seguinte, Mike atendeu, fungando. Sua irmã tinha morrido repentinamente na terça-feira anterior e o funeral tinha ocorrido ontem. Ele viria na semana seguinte e lamentava muito.

Atônitos, nós lhe dissemos para que se cuidasse e não se preocupasse.

Poucas semanas depois, ele telefonou para dizer que outra tragédia familiar tinha ocorrido e agora ele e sua esposa estavam com a custódia dos quatro filhos pequenos da irmã.

Nós ficamos novamente horrorizados. Mas desta vez nós timidamente perguntamos: "E?"

"Na próxima semana", ele disse.

Alguns namorados ruins adoram dar desculpas. Estas histórias são reais ou ficção? Era difícil saber. Freqüentemente as desculpas para um namorado ruim não poder estar com você soam bastante razoáveis: "Eu tenho que trabalhar até mais tarde". "Eu machuquei o joelho jogando futebol." Minha favorita foi a de um que cancelou o encontro dizendo: "Eu mencionei que vou me casar no mês que vem?"

Ele não mencionou. Nem que estava morando com sua noiva.

Quando Mike voltou, pálido e com olhos lacrimosos, ele nos disse que os avós paternos dos filhos de sua irmã queriam a custódia e que precisaria se ausentar por alguns dias para as audiências judiciais.

Sem querer soar insensível, mas eu não queria mais saber de audiências judiciais e custódias. Eu só queria ouvir seu caminhão estacionando em frente à nossa garagem. Eu só queria ouvir seu martelo batendo enquanto construía a escadaria para o sótão. Eu até mesmo queria ouvir o barulho de entulho sendo despejado do sótão sobre minhas azaléias.

Mas eu não ouviria nenhum destes sons nos dias seguintes. Quando Mike finalmente reapareceu, ele balançou a cabeça e disse: "Coisas de tribunal". Intoxicação alimentar foi a desculpa seguinte. Depois seu assistente perdeu todos os dentes da frente em um acidente de carro.

"Você acha que conseguirá terminar até o início de dezembro?" eu perguntei ansiosamente.

Mike riu.

Logo ele nem mais me chamava de "garota". A flor tinha oficialmente começado a murchar. Quando perguntei sobre progresso, ele respondeu de forma desanimada: "Está avançando".

Eu inspecionei a estrutura nua de madeira, o isolamento caindo como neve tóxica do teto aberto, a despensa sem prateleiras. Nada tinha progredido. Ações devem combinar com as palavras em um relacionamento de confiança. Namorados ruins nunca entendem isto.

Nós continuávamos ouvindo sobre sua equipe, mas nunca a encontrávamos. Então ele nos disse que demitiu seus operários por terem cometido abusos em outro trabalho. "Mas quero fazer o trabalho de vocês direito, então estou cuidando dele pessoalmente."

Apesar do crescente ceticismo, nós nos agarramos a tais promessas. Como poderíamos pressioná-lo quando nos respeitava desta forma? Nós queríamos muito acreditar.

Finalmente chegou 1º de dezembro, nosso dia de mudança. Mas nada estava terminado. Mike prometeu continuar trabalhando até o Natal. Eu estava despejando freneticamente nossas vidas em caixas na antiga casa para levar para a nova. Entre as viagens de carro, eu chiei: "É possível ao menos colocar algumas prateleiras na despensa?"

Estavam prontas no dia seguinte.

"Viu, reclamar ajuda", eu disse ao Marc.

Ele virou os olhos. "Eu aposto que ele vai sumir pelas próximas três semanas."

Na verdade ele sumiu pelas seis semanas seguintes. Na sala de estar nós montamos a árvore de Natal artificial sobre as caixas das tábuas do piso. Então colocamos as caixas não desempacotadas da mudança ao redor da árvore como presentes. (Mike explicou posteriormente sua ausência proclamando com grande sensibilidade: "Eu imaginei que vocês precisavam de tempo para se mudarem e se instalarem".)

Com nossa inocência destruída, nós suspeitamos do pior: ele estava saindo com outra pessoa. Mas desde que ele voltasse para nós, não era isto que importava? Ele telefonou após uma semana de férias nas Cataratas do Niágara dizendo: "Minha esposa e eu realmente precisávamos de uma escapulida. Tem sido estressante demais".

Então ele apareceu com toda a mão enfaixada —ele tinha quebrado o polegar. O evento até mesmo incluiu uma tarde no pronto-socorro, radiografia e consulta com cirurgião. O pós-operatório exigiria mais seis semanas.

Ele apresentou este prognóstico na porta do meu quarto enquanto eu terminava minha maquiagem para sair para o trabalho. Ele olhou pesarosamente para sua mão enfaixada. "Sabe Deb, eu nunca percebi o quanto a uso no meu trabalho."

De repente eu passei a odiá-lo da mesma forma que odiei todos aqueles namorados ruins pouco antes da separação. Eu estava cheia de olhar para seu jeans sujo e ouvir suas desculpas. "E como você planeja concluir nossa obra?" eu disse.

"Não se preocupe", ele disse. "Eu virei amanhã com mais pessoas. Nós terminaremos isto e depois eu faço a cirurgia."

Na manhã seguinte ele telefonou para o Marc: "Eu estou a caminho. Eu só tenho que pegar alguns materiais".

Mas ele nunca apareceu. Nossos telefonemas não eram respondidos. Semanas depois, ele ligou para dizer que a caminho do trabalho naquele dia, ele sentiu como se estivesse tendo um ataque cardíaco; ele agora estava em recuperação cardiológica. "Eu vou encontrar alguém para terminar seu trabalho. Eu sou um sujeito honrado", ele disse.

Nós telefonamos. Nós enviamos cartas. Nós nos odiamos por correr atrás dele quando ele claramente não nos amava, mas não podíamos evitar. Precisávamos saber onde ele estava, o que estava fazendo, por que não podia estar conosco.

Marc fantasiou em pichar "Não confiável" em sua reluzente picape preta.

Eu fantasiei em mostrar ao Mike o quanto estava errado, em fazê-lo se envergonhar e buscar ser uma pessoa melhor —o impulso que sempre senti com namorados ruins.

Nós o seguimos como noivos abandonados no altar, indo até a casa dele onde encontramos sua picape estacionada na frente. Depois de Marc bater à porta, um Mike surpreso atendeu, parecendo bronzeado e descansado. "Eu ia telefonar assim que voltei da Disney World", ele disse, com a voz se extinguindo.

"Quando você vai retomar o trabalho?" meu marido exigiu.

"Logo. Logo. Minha esposa pegou uma infecção após uma pequena cirurgia e está sofrendo dores terríveis. Este é o motivo."

Marc o encarou.

"Eu só preciso reunir minha equipe, sabe como é", disse Mike, fechando a porta.

É junho de novo. A amoreira está carregada. Nossas coisas ainda estão em caixas, nossos tapetes estão enrolados. Nós vivemos em meio a mantas plásticas.

Enquanto isso, nós entramos na Justiça contra nosso primeiro amor, Jim. Ele telefonou outro dia para marcar uma reunião para acertar as coisas. Esperando sozinho no restaurante chinês onde marcaram se encontrar, Marc finalmente telefonou para Jim. Sem resposta. A ligação não foi retornada. Namorados ruins raramente mudam, mas de alguma forma você sempre lhes dá mais uma chance de redenção.

Algum dia, eu estou certa, nós também encontraremos Mike no tribunal —isto é, se conseguirmos fazer com que apareça. Nós brincamos que nenhum júri composto de nossos pares (pessoas que tiveram relacionamentos ruins com empreiteiros) nos condenaria por homicídio ou qualquer outro crime passional. Como dizem, o oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. Mas não é possível ser indiferente a um namorado ruim que lhe deve dinheiro e fica no caminho da casa dos seus sonhos.

Como todos os relacionamentos ruins, a dor passará com o tempo e a promessa de um novo amor. Nós recentemente nos encontramos com um novo empreiteiro para tratar da conclusão da obra. Ele veio imediatamente para fazer o orçamento e estimar o prazo e foi simpático.

É claro, após sermos enganados duas vezes, nós não mais confiávamos em nosso julgamento. Este novo empreiteiro (será que também tinha saído de um relacionamento difícil?) também parecia um pouco desconfiado de nós. Quem sabe, ao recontarmos nossos relacionamentos fracassados anteriores, a gente tenha parecido muito carente? Já tinha se passado um mês e ele não retornou com o orçamento. Eu estava novamente na defensiva, cheia de inseguranças (não sou atraente o bastante? Não sou inteligente o bastante?) e pronta para desistir.

Mas encontrar o Príncipe Encantado é um sonho difícil de morrer. Ao observar nosso novo empreiteiro partir naquela tarde, eu senti meu coração flutuar de forma semelhante. "Ele parece ser legal", eu disse ao meu marido, sorrindo, quase inebriada de paixão. "O que você acha?"

*Deborah Derrickson Kossmann é uma psicóloga de Havertown, Pensilvânia George El Khouri Andolfato

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