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28/10/2007

Campanha promete mudança na Argentina, mas oferece mais do mesmo

The New York Times
Alexei Barrionuevo*


Em Buenos Aires, Argentina
Quando Cristina Fernández de Kirchner anunciou em julho que disputaria a sucessão de seu marido, Néstor Kirchner, como presidente da Argentina, o casal disse que "a mudança estava apenas começando".

Cézaro
A candidata à Presidência Cristina Kirchner seca a cabeça do marido, o presidente Néstor Kirchner, no encerramento da campanha, no Mercado Central de Buenos Aires: 'os Clintons do sul'
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Mas tal slogan inicial de campanha, um esforço para distanciá-la sutilmente de Kirchner, fracassou em ter apelo junto àqueles que apóiam o presidente, que defendem mais das mesmas políticas que tiraram a Argentina das profundezas de sua crise financeira esmagadora de 2001 e ajudaram a economia a crescer cerca de 50%.

Em uma chuvosa noite de quinta-feira aqui, no evento final da campanha de Cristina Fernández de Kirchner antes das eleições no domingo, o casal tratado por muitos como "os Clintons do Sul" deixou pouca dúvida de que sua provável vitória significará mais do mesmo.

"Nós tínhamos o sonho de recuperar a dignidade de milhões de argentinos que acordavam todo dia sem ter para onde ir", ela disse no mesmo mercado central em La Matanza, uma cidade industrial nos arredores da capital, onde seu marido compareceu nos últimos dias de sua campanha e sentou-se ao lado dela, enquanto era citado, mais de uma vez.

Cristina, uma senadora de 54 anos do partido peronista de centro-esquerda, lidera as pesquisas com mais de 40% das intenções de voto, cerca de 25 pontos percentuais à frente sua adversária mais próxima, Elisa Carrió, uma deputada de centro-esquerda. Cristina parece contar com apoio suficiente para ser eleita já no primeiro turno.

Além de torná-la a primeira mulher a ser eleita presidente na Argentina, uma vitória também a tornaria a segunda mulher em dois anos a ser eleita presidente de um país latino-americano. Michelle Bachelet foi eleita presidente do Chile no ano passado. Mas diferente de Michelle Bachelet, Cristina caminha para a presidência com notável facilidade. Cristina fez pouca campanha em seu próprio país, optando por passar grande parte dos últimos dois meses na Europa e nos Estados Unidos tentando atrair investidores internacionais e parecer presidencial ao lado dos líderes mundiais.

Para a Argentina —e para a América do Sul — a provável vitória de Cristina criaria um paradoxo. Diferente de Hugo Chávez da Venezuela, de Evo Morales na Bolívia e até mesmo de Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil, todos essencialmente líderes populistas de origem humilde, Cristina é orgulhosamente uma advogada intelectual que se sente mais à vontade se misturando com presidentes do que com pessoas comuns.

Mas grande parte do apoio herdado de seu marido vem diretamente das classes mais baixas da Argentina, embora a considerem distante e difícil de entender em discursos que freqüentemente parecem palestras universitárias. Assim, ela poderá correr o risco de perder o apoio delas caso não ajuste as políticas econômicas de seu marido para conter a inflação e impedir a ameaça de uma crise de energia.

Cristina tem tido dificuldade para gerar apelo entre as classes média e alta, dizem os pesquisadores argentinos.

"Com o aumento da inflação, as classes mais baixas sofrerão e ela correrá o risco de acabar sem apoio nenhum", disse Daniel Kerner, um analista do Eurasia Group, em Nova York.

Ainda assim, Cristina já é a mulher argentina mais poderosa desde que Eva Perón ajudou seu marido, o general Juan Domingo Perón, a governar o país de 1946 até a morte dela em 1952. (A terceira esposa de Perón, María Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita, que era a vice-presidente quando ele morreu em 1974, comandou o país por dois tumultuosos anos antes de ser deposta por um golpe militar.)

Cristina se diz parte de uma "nova geração" de líderes argentinos. E poucos aqui, incluindo ela, vêem muita semelhança entre ela e Eva Perón, que exibia um toque lendário com o público. Cristina, por exemplo, se recusou a participar de debates com outros candidatos e deu poucas entrevistas durante a campanha, preferindo ambientes controlados em vez de fóruns abertos.

"Ela parece uma pessoa fria", disse Sandra Mansilla, 42 anos, uma eleitora indecisa do município pobre de Lomas de Zamora, tentando explicar por que estava inclinada a votar contra Cristina. "Eu ainda não sinto que a conheço. Ela me deixa nervosa."

Mas para os simpatizantes que participaram de seu comício aqui na quinta-feira, muitos trazidos de ônibus por funcionários do partido peronista, o casal Kirchner é uma melhoria em comparação a líderes anteriores.

"O que queremos é mais estabilidade e Cristina é a melhor candidata para nos dar isto, a melhor pessoa para assegurar que não retornemos à miséria econômica em que nos encontrávamos antes", disse Eduardo Diaz, 60 anos, um operário de fábrica aposentado em La Matanza.

Os Kirchners, que se conheceram na faculdade de Direito como estudantes ativistas, expressaram apoio um ao outro durante os últimos dias de campanha. "O que virá é muito melhor do que nós", disse Néstor Kirchner no evento de quinta-feira. Sua esposa prometeu que ele continuará envolvido na política, mesmo que não tenha papel formal no governo. "Ele é um animal político no verdadeiro sentido da palavra", ela disse.

A decisão de Néstor Kirchner de não concorrer foi uma manobra calculada pelo casal para tentar manter a presidência pelos próximos 12 anos, argumentam muitos analistas. Eles disseram que Néstor Kirchner temia um segundo mandato sem força. E a lei argentina permite que um ex-presidente concorra novamente após esperar quatro anos.

Por sua vez, Cristina Fernández de Kirchner enfrentará algumas decisões políticas difíceis caso seja eleita.

Em entrevistas de rádio e televisão nesta semana, ela defendeu os números oficiais de inflação de 8% a 10% —menos da metade do que vários economistas de fora dizem ser o patamar real. Alguns preços estão claramente em alta; grupos de consumidores boicotaram neste mês o tomate após o produto ter mais que dobrado de preço, ficando mais caro do que alguns cortes de carne bovina.

O próximo governo também enfrentará a possibilidade real de falta de energia. Os subsídios que visam manter os preços baixos para os consumidores contribuíram para uma escassez de gás natural e eletricidade que poderão levar a racionamento ou apagões já no início do próximo ano, disseram analistas. Cristina, como seu marido, insiste que não há crise e manifestou confiança de que o investimento necessário virá a tempo para evitar cortes de fornecimento politicamente onerosos.

Ela prometeu laços mais estreitos com a Europa e com os Estados Unidos, que seu marido praticamente esnobou nos últimos anos enquanto se concentrava em seus esforços para recuperar a economia do país.

Investidores estrangeiros ficarão atentos para ver se Cristina tentará resolver as questões pendentes da Argentina com o Fundo Monetário Internacional. O país deu calote em uma dívida de cerca de US$ 80 bilhões antes de oferecer um plano de reestruturação em 2005. Alguns detentores de títulos rejeitaram a oferta, deixando a Argentina com um calote de US$ 26 bilhões e incapaz de emitir títulos da dívida no exterior.

Enquanto outros líderes latino-americanos trabalham para reforçar sua imagem de populistas, Cristina se concentrou em polir sua imagem como estadista. Sua maquiagem e guarda-roupa mudaram muito desde os dias em que vivia com seu marido na província de Santa Cruz, na Patagônia. Ela também tentou se tornar uma entendida em políticas, organizando reuniões com grupos de intelectuais durante visitas recentes ao México e Espanha, disse Riordan Roett, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados.

Juntos são formidáveis; individualmente são opostos
Apesar do casal Kirchner ser uma dupla política formidável, eles são de algumas formas opostos. Néstor Kirchner é obcecado por dados econômicos toda manhã, enquanto sua esposa passa pelo menos uma hora lendo reportagens locais e internacionais, prestando atenção em particular aos artigos sobre política e tendências sociais nos Estados Unidos, disseram duas pessoas de dentro do governo.

Com a expectativa de que Néstor Kirchner terá um grande papel nos bastidores na administração do país, alguns se perguntam quem realmente estará no comando. "Como o casal lidará com desacordos em torno de políticas importantes?" perguntou Kerner. "Na Argentina, onde todo o poder de tomada de decisão fica concentrado nas mãos de uma ou duas pessoas, isto poderá se tornar um problema."

*Colaborou Vinod Sreeharsha George El Khouri Andolfato

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