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29/10/2007

A violência doméstica também é uma questão para o local de trabalho

The New York Times
De Kelley Holland

Quando uma sócia do escritório de advocacia Greenberg Traurig disse pela primeira vez a Cesar Alvarez, o diretor-executivo, que a violência doméstica era uma questão referente ao local de trabalho que a firma precisava enfrentar, Alvarez mostrou-se cético.

"Eu simplesmente não enxergava tal coisa", recorda o diretor. "Você avalia a importância das coisas com base no número de problemas que vê, e eu não via muitos problemas nessa área".

Ele conta que houve um incidente vários anos antes, quando o parceiro de uma funcionária foi até o escritório. "Nada de horrível aconteceu, mas foi por pouco", diz ele. E isso era tudo o que ele sabia sobre tal tipo de problema.

Mas Stacey P. Dougan, a advogada que trouxe a questão à tona, persistiu, citando estatísticas e observando que era improvável que as vítimas procurassem ajuda diretamente junto ao chefe da firma. Alvarez conta que finalmente ficou convencido.

Agora o Greenberg Traurig treina os seus funcionários para que estes identifiquem as vítimas de violência doméstica, e oferece benefícios para os empregados que são vítimas, incluindo licenças e cartas de recomendação para outras agências. A firma também forneceu conselhos a outras companhias sobre como proteger os seus funcionários.

Alvarez, cuja firma fica em Miami, diz que ainda não enxerga necessariamente as evidências de violência doméstica. "Mas, agora, muita gente que enfrenta problemas deste tipo pode vir e discutir a questão com pessoas que treinamos no escritório. Queremos encorajar esses indivíduos a buscar ajuda", afirma Alvarez.

Ao que parece, violência doméstica é um termo meio inapropriado. Todos sabemos que a violência contra os parceiros é um flagelo em muitas casas. Mas isso pode também ser um problema no local de trabalho.

Um quinto de todos os adultos empregados em regime de tempo integral nos Estados Unidos é ou já foi vítima da violência doméstica, segundo uma pesquisa realizada pela Aliança Corporativa pelo Fim da Violência Contra o Parceiro. E um estudo feito pelo Centro para Prevenção e Controle de Doenças revelou que as mulheres, as vítimas mais comuns, perdem cerca de oito milhões de dias de trabalho anualmente devido ao fato de serem ameaçadas, vigiadas ou fisicamente atacadas por parceiros ou maridos atuais ou antigos.

Menos de um quarto das empresas do setor privado, incluindo as maiores, fornece treinamento para que se lide com a violência doméstica, segundo uma pesquisa divulgada em 2006 pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional. Somente 4% de todos os patrões oferecem tal treinamento.

"Os patrões esclarecidos sabem que ninguém deixa os problemas na porta quando vêm para o trabalho", diz Kimberly Wells, diretora-executiva da aliança corporativa. Mas, ela acrescenta: "Há uma falta de consciência. Existe a idéia generalizada de que tal tipo de coisa não acontece nas firmas".

Vários executivos do universo empresarial norte-americano não querem ouvir falar sobre nenhum problema desse tipo. Eles em sua maioria trabalham com outros gerentes graduados, e essas pessoas —particularmente as mulheres, que podem ter lutado muito para ter sucesso na firma— freqüentemente não estão dispostas a revelar qualquer coisa que possa ser interpretada como um fracasso, explica Wells.

"Se você for um funcionário graduado do setor de gerenciamento, não importa quais são as leis do seu Estado", diz ela. "Se a expectativa na empresa é de que essa pessoa 'saiba mais', você vai evitar tomar qualquer iniciativa para que os outros saibam pelo que você está passando".

Em determinado nível, é difícil imaginar por que uma vítima da violência doméstica não busque auxílio. Mas coloque-se no lugar de uma mulher que trabalhou duro a vida toda —freqüentou as escolas certas, encaixou-se em uma carreira promissora, construiu um currículo admirável— e que ao mesmo tempo está em um relacionamento descontrolado, no qual ela é uma vítima. Se o trabalho é o refúgio dessa profissional, e ela acredita que o fato de revelar os seus problemas pessoais possa prejudicar o seu cargo, então ela pode muito bem acabar não revelando nada.

Mas um número maior de vítimas está denunciando o que ocorre. E os gerentes de recursos humanos estão se tornando bem mais ativos na hora de lidar com o problema, afirma Garry Mathiason, sócio do escritório de advocacia Littler Mendelson, em São Francisco, cuja especialidade é a questão da violência no local de trabalho.

Felizmente, não é necessário um grande investimento para lidar com a questão da violência doméstica no local de trabalho.

Uma coisa importante é treinar os gerentes para que estes identifiquem os sinais que indiquem potenciais abusos. Muitas vezes tais sinais podem ser sutis: os funcionários podem simplesmente parecer distraídos, menos pontuais ou menos capazes de terminar as tarefas nos prazos estabelecidos. Os gerentes mais sagazes também desenvolvem uma resposta flexível e interdepartamental para a questão da violência doméstica.

Liz Claiborne lida com o problema há mais de uma década, mas inicialmente poucos funcionários da companhia expunham as suas dificuldades nesta área. Há muitos anos, a companhia montou uma equipe de resposta envolvendo os departamentos jurídico, de recursos humanos e de segurança, e desde então mais de cem funcionários buscaram ajuda, afirma Jane Randel, porta-voz de Liz Claiborne e diretora do programa "Love is Not Abuse" ("Amor Não é Abuso") da companhia, que é responsável por lidar com a questão da violência doméstica.

Como parte dos seus esforços, Liz Claiborne adotou medidas como a transferência de funcionários e a prestação de ajuda a policiais para que estes localizem funcionários que não compareçam ao trabalho.

O mais importante é que as companhias precisam anunciar que os funcionários podem ser ajudados, e indicar a eles as organizações apropriadas na comunidade.

"O patrão não é capaz de resolver o problema", diz Dougan, o ex-advogado do Greenberg Traurig que atualmente é gerente de desenvolvimento profissional da Powell Goldstein, uma empresa de advocacia de Atlanta. "Mas ele pode se constituir em um elo de ligação com os recursos disponíveis, além de ser uma fonte incrível de apoio". UOL

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