UOL Notícias Internacional
 

31/10/2007

Ausência de unidade e baixa presença dos rebeldes marcam conversações sobre Darfur

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Sirte, na Líbia
Mohamed Ibrahim Asirek, um comandante rebelde de Darfur, deslocou-se vagarosamente durante três dias do oeste do Sudão pelo Saara, e a seguir pegou carona na carroceria de um caminhão para participar das conversações de paz que são mantidas aqui. Assim que chegou, ele foi alvo de perguntas a respeito de todos os líderes rebeldes que não apareceram.

"Eu não sei", disse ele. "Estamos aqui. Somos de Darfur. E temos armas também".

Não é fácil ser um rebelde darfuriano, especialmente se você é parte da "equipe B". Em vez de serem elogiados por virem até aqui em nome da paz, conforme o mundo suplicou que fizessem, esses combatentes têm sido olhados com tédio e criticados por serem ineficientes, além de serem alvos constantes de perguntas a respeito do paradeiro dos "peixes grandes", como Abdel Wahid el-Nur, um dos fundadores da rebelião de Darfur, e de Khalil Ibrahim, o comandante de um dos mais fortes exércitos rebeldes. Ambos estão boicotando as negociações. Mas a realidade que os negociadores internacionais estão começando a aceitar rancorosamente é que os rebeldes presentes aqui, em Sirte, o centro de governo da Líbia, representam os fatos no campo de batalha. A verdade é que após anos de fragmentação e isolamento, os movimentos de resistência de Darfur se pulverizaram em grupos fracionados, muitos dos quais nunca se encontraram antes, que vêm de diferentes partes do país, pertencem a tribos diferentes e comandam os seus diferentes pequenos exércitos.

Jehad Nga/The New York Times 
Issmaeel Doud Deefala, um rebelde do Exército de Libertação do Sudão, em hotel em Sirte

"É esse o problema com Darfur", afirma Umberto Tavolato, assessor da União Européia nas negociações. "Não há um líder emergente".

Os rebeldes de Darfur lutam há quatro anos contra o governo sudanês, que, segundo eles, negligenciou os darfurianos. A insurgência e a brutal contra-insurgência provocaram a morte de mais de 200 mil pessoas, e as Nações Unidas e as potências mundiais organizaram esta conferência a fim de colocar todas as partes juntas - os rebeldes, o governo, os anciões tribais e os especialistas em manutenção da paz -, na esperança de que se chegue a um acordo.

Mas as negociações empacaram desde o início devido às suspeitas e ao não comparecimento de figuras-chave, e parece que se nenhuma negociação for feita agora, não haverá negociação nenhuma durante semanas. Segundo o que foi anunciado por funcionários da ONU na terça-feira (30/10), o plano agora é enviar diplomatas de volta a Darfur para trazer mais rebeldes. Mas não se sabe ao certo que diferença fará a participação de rebeldes mais conhecidos.

Basta ver o caso de el-Nur, que disse que não vem porque não confia no governo sudanês. El-Nur está em Paris há um ano. Ele ainda pode ser popular nos campos de refugiados esquálidos espalhados por Darfur, mas não comanda mais grande número de soldados.

Na verdade, devido a toda a fragmentação, ninguém comanda mais grandes contingentes.

"Não existem mais grandes líderes", afirma Ibrahim Y.M. Abdalla, o vice-diretor de uma facção dissidente do Movimento Pela Igualdade e Justiça, uma das unidades rebeldes maiores e mais divididas. "Talvez haja algumas pessoas que parecem grandes porque nós costumávamos nos unir, e eles eram os nossos líderes. Mas nós os abandonamos. Eles não são mais importantes".

Quando a rebelião teve início em 2003, havia apenas dois grupos principais, o Movimento Pela Igualdade e Justiça, que era apoiado pelos islamitas sudaneses amigos de Osama Bin Laden, e o Exército de Libertação do Sudão. Mas, desde então, disputas tribais, realidades geográficas - Darfur é tão grande quanto a França - e a sede de poder provocaram uma proliferação de exércitos rebeldes. Segundo a última avaliação das Nações Unidas, há cerca de 28 desses exércitos.

Sete deles estão representados aqui. Até mesmo fazer com que eles compartilhem as mesmas propostas tem sido uma dificuldade do tamanho de Darfur.

No primeiro dia da conferência, Hashim Hamad, um assessor político culto de uma facção do Exército de Libertação do Sudão, convocou uma reunião no seu hotel para que os rebeldes redigissem uma declaração conjunta. Eles se debruçaram durante horas sobre um laptop, murmurando palavras. Mas quando chegou o momento de apresentar a declaração em frente a centenas de dignatários e da mídia mundial, o rebelde designado para redigir o documento jogou-o fora no palanque e fez as suas próprias observações improvisadas.

No segundo dia, os delegados rebeldes enviaram novamente sinais confusos. Alguns enfatizaram a unidade com o resto do Sudão, e outros ameaçaram romper com o país e criar a República de Darfur. Nos terceiro e quarto dias, eles divergiram quanto ao tempo que passariam em Sirte.

"Obviamente, não há nenhum John Garang em Darfur", disse Andrew Natsios, o enviado especial do governo Bush ao Sudão, referindo-se ao líder de uma rebelião separatista no sul do Sudão que uniu as várias facções de lá e obrigou o governo a assinar um tratado de paz em 2005. "Não existe ninguém capaz de falar por todos os movimentos, e isso significa que as negociações serão mais complicadas".

Um motivo pelo qual tem sido tão difícil para os rebeldes concordar quanto a qualquer coisa é o fato de muitos dos movimentos terem se cindido segundo linhas étnicas. Ibrahim disse que alguns líderes rebeldes administram as suas organizações como "negócios de família", concedendo cargos cobiçados a membros das suas tribos ou clãs.

Em sua maioria, os cerca de 20 rebeldes presentes aqui estão se mantendo juntos, podendo ser vistos nos saguões dos hotéis assistindo a televisão e almoçando em grupo, enchendo os pratos com galinha, espaguete e biscoitos. Dois rebeldes que chegaram usando uniformes e turbantes camuflados acabaram comprando uniformes esportivos da Nike.

Alguns deles dizem se sentir culpados por estarem vivendo tão bem.

"Os meus pais não têm comida", disse Hashim, que vem de uma pequena vila de uma área do sul de Darfur devastada pela violência. "Isto não tem sentido".

De acordo com vários rebeldes, ainda mais frustrante é o fato de nada do que eles falaram ou fizeram ter merecido o aplauso ou as manchetes obtidos pelo governo sudanês quando esta anunciou no último sábado um cessar-fogo unilateral em Darfur. Segundo funcionários da ONU, o governo sudanês tem um histórico terrível quando se trata de anúncios de cessar-fogo.

E, mesmo agora, enquanto a delegação sudanesa trabalha nos salões de conferência, bebendo chá com diplomatas ocidentais e falando a linguagem da paz, as tropas sudanesas estão expulsando as pessoas dos campos de refugiados em Darfur e, segundo vários moradores, espancando todos os que resistem.

Os rebeldes afirmam que estão lutando contra uma longa história de marginalização de Darfur. Mas, mesmo aqui, no seu próprio show, eles sentem-se marginalizados.

"Muitos de nós querem voltar para casa", afirma Hashim.

O problema, segundo Hashim, é que ele está fora de casa há anos. UOL

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