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31/10/2007

Espere! Não coma isso! Escândalo em fábrica de doces abala o Japão

The New York Times
Norimitsu Onishi
Em Ise, no Japão
Era para ser um ano de celebração para a Akafuku, fabricante de doces de geléia de feijão desde 1707. Em seu 300º aniversário, seus produtos populares ainda eram presentes indispensáveis para se levar para casa ou ao escritório depois de uma viagem ao templo de Ise, um dos lugares mais sagrados do Japão.

Em vez disso, a Akafuku tornou-se a mais recente empresa de alimentos japonesa a ser exposta por mentir sobre o conteúdo de seus produtos, alterar datas de expiração e reciclar ingredientes supostamente frescos. Pela segunda vez em sua história, a Akafuku, que foi forçada a deter a produção durante a Segunda Guerra Mundial por causa da falta de açúcar, suspendeu suas operações, desta vez por tempo indeterminado.

Enquanto os detalhes da investigação da Akafuku pelo governo eram divulgados nos últimos dias, executivos de uma empresa de empacotamento de carne chamada Meat Hope foram presos por rotular carne de porco moído, de frango e até de coelho como 100% carne de vaca.

Ko Sasaki/The New York Times 
Peko-chan, mascote da Fujiya, na entrada de uma das lojas da rede em Tóquio

Em um caso paralelo, o presidente de 76 anos da Hinaidori, que vende frangos, admitiu rotular seus produtos erroneamente após ter desaparecido por vários dias nas montanhas, em uma tentativa de suicídio fracassada.

As revelações quase diárias abalaram os consumidores japoneses, que há muito se dispunham a pagar mais por produtos alimentícios japoneses por serem, acreditavam, mais seguros do que os bens importados, especialmente da China. No entanto, os escândalos envolvendo o frescor dos produtos da Akafuku, assim como dois outros fabricantes de doces nacionalmente famosos, Shiroi Koibito e Fujiya, atingiram o público de uma forma que a carne de galinha ou de vaca não conseguiu.

Akafuku e Shiroi Koibito eram dois dos doces mais populares em uma cultura profundamente acostumada a dar presentes e que requer que o viajante traga alimentos locais para presentear parentes e colegas em casa. A prática garante que todo aeroporto e estação de trem importante do Japão tenha uma loja com doces delicadamente embrulhados e também ajuda a unir o tecido social japonês.

"Sempre recebi doces Akafuku e, desta vez, estava querendo comprar e dar aos meus amigos", disse Yuko Saito, que visitava o local pela primeira vez.

Saito e seu marido Kenjui, 56, se revezaram para tirar foto em frente à principal loja da Akafuku, agora fechada, aqui em Ise, no centro do Japão. Apesar da chuva, um fluxo de visitantes posava na frente da casa de madeira e telhas com um "pedido de desculpas" da empresa na entrada.

A Fujiya, por sua vez, foi a empresa que popularizou os doces ocidentais no Japão. Sua mascote, Peko-chan, uma menina de maria-chiquinha com a língua para fora, é tão reconhecida no Japão quanto Ronald McDonald e Colonel Sanders nos EUA. Seu bolinho de morango era lugar comum nos aniversários de muitos japoneses com 30 anos ou mais.

Na mente de muitos japoneses, os produtos estavam associados com tempos felizes, aniversários ou os dias em que os pais voltavam de uma viagem a negócios trazendo doces, disse Akira Shimizu, professor de economia e especialista em marcas da Universidade Meiji Gakuin, em Tóquio.

"Nesse sentido, há um forte sentimento que esses episódios felizes estão sendo negados", disse Shimizu sobre os escândalos. "É como se esses dias de sol fossem todos estragados no final."

Aparentemente, funcionários das empresas deram pistas às autoridades. A Fujiya, que abriu sua primeira loja em 1910 em Yokohama, teria usado leite fora da data da validade para fazer bolos de creme. A Ishiya, produtora do Shiroi Koibito, o biscoito mais famoso de Hokkaido, admitiu falsificar datas de expiração. As duas empresas agora voltaram a operar e estão lutando para recuperar sua credibilidade.

A volta pode ser mais difícil para a Akafuku, cujas transgressões foram mais sérias. Os doces quase não haviam sofrido alterações em três séculos, apesar de em 1911 a empresa ter trocado o açúcar mascavo pelo açúcar branco, mais do gosto da esposa do imperador, segundo a Akafuku. A fábrica sempre alegou que fazia seus doces de geléia de feijão -bolos de arroz envolvidos em geléia de feijão vermelho- todos os dias e descartava os que não fossem vendidos.

No entanto, de acordo com uma investigação do governo, por ao menos três décadas a Akafuku sistematicamente aproveitou até 90% de seus produtos não vendidos, usando os ingredientes para fazer novos doces ou passando-os para uma loja afiliada. E mais, a empresa estendia as datas de expiração nos rótulos e congelava e derretia os doces.

Noriyasu Hamada, 11º presidente da história da empresa familiar, primeiro negou totalmente a reutilização de produtos não vendidos, mas foi forçado a admitir a verdade dias depois. As autoridades locais ordenaram que a Akafuku, que não quis responder perguntas para este artigo, suspendesse suas operações no dia 19 de outubro. Não está claro quando ou se a Akafuku terá permissão de voltar a operar.

O escândalo da Akafuku surpreendeu muitos japoneses não só por causa de sua longa história, mas também por seus laços próximos com o templo de Ise, a Meca do xintoísmo japonês. O templo, construído há cerca de 1.700 anos, é dedicado a Amaterasu, deusa sol da mitologia japonesa e ancestral espiritual da família imperial.

"A mãe do povo japonês é adorada aqui", disse Kenichi Yano, padre aposentado.

No passado, visitar Ise ao menos uma vez na vida era considerado um dever religioso. Então, durante uma grande expansão do número de peregrinos em 1707, a Akafuku começou a vender seus doces, disse Yano, 69, que dirige uma organização privada dedicada às tradições japonesas.

No século passado, com o estabelecimento do transporte moderno, as visitas a Ise aumentaram fortemente, assim como as vendas de Akafuku. Depois de um desaquecimento no início dos anos 90, a Akafuku construiu um parque temático de US$ 120 milhões (em torno de R$ 240 milhões) que se tornou um destino turístico amplamente bem sucedido, inchando o número de visitantes de 200.000 por ano para 3,4 milhões.

"Justo quando estávamos festejando, isso tinha que acontecer", disse Yano, cuja organização recebeu quase US$ 3 milhões (R$ 6 milhões) da Akafuku para construir sua sede e outros prédios aqui. "Foi um pouco infeliz."

"Quanto mais pura a coisa é", disse ele, "mais suja vai ficar." Deborah Weinberg

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