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31/10/2007

Khun Sa, rei do Triângulo Dourado das drogas, morre aos 73 anos

The New York Times
Thomas Fuller
Khun Sa, o senhor das drogas do Triângulo Dourado que adorava publicidade e prosperava no caldeirão matar-ou-morrer de rivalidades étnicas e exércitos particulares financiados pela heroína da região, morreu aos 73 anos em Yangun, Mianmar, segundo um oficial da milícia que ele já liderou.

Kon Jern, um comandante do Exército do Estado de Shan, um grupo separatista, disse em uma entrevista por telefone que soube da morte por meio de parentes de Khun Sa. A causa da morte é desconhecida, mas ele supostamente sofria de pressão alta, doença cardíaca e diabete.

As agências de notícias, citando fontes anônimas em Yangun, disseram que ele morreu na sexta-feira e foi cremado na madrugada de terça-feira. O país está fechado a jornalistas estrangeiros desde que a junta militar que governa Mianmar reprimiu os recentes protestos antigoverno.

AFP - 23.jul.1990 
Nesta foto de 1990, Khun Sa é visto treinando um cavalo em uma fazenda de Mianmar

Por décadas, Khun Sa simbolizou a aparente impunidade dos traficantes de heroína no Triângulo Dourado, a área que abrange o norte de Mianmar, Laos e Tailândia.

Mas sua rendição para as autoridades birmanesas em 1996 levou a reduções dramáticas no cultivo de papoula para ópio no Triângulo Dourado e prenunciou o eclipse da região. Apesar da produção de ópio em Mianmar ter aumentado cerca de 30% neste ano em comparação ao ano passado, o Triângulo Dourado produz apenas 5% do ópio mundial, em comparação a 70% há três décadas. O Afeganistão atualmente é o maior produtor mundial.

Khun Sa foi um líder guerrilheiro no movimento separatista dos shan, o grupo étnico lingüisticamente relacionado aos tailandeses que habita o nordeste de Mianmar. Seu império das drogas trocava ópio por armas e usava as armas para consolidar seu controle sobre grandes trechos da região remota, escarpada e empobrecida de Shan.

No auge do seu poder, nos anos 80, ele controlava cerca de 70% do tráfico de heroína do país, que lhe permitia financiar um exército de dezenas de milhares de soldados e laboratórios de heroína de grande escala.

Entre seus aliados, Khun Sa ainda é admirado pelo seu apoio aos shan.

"Ele teve que vender drogas porque não teve escolha", disse Kon Jern, o comandante rebelde. "Ele teve que vender as drogas para ganhar dinheiro e usar tal dinheiro para lutar pela independência do Estado de Shan."

Os historiadores retratam Khun Sa como charmoso, maquiavélico e impiedoso.

Khun Sa nasceu em 17 de fevereiro de 1934, segundo Bertil Lintner, um dos principais especialistas em Mianmar que o entrevistou várias vezes. Seu pai era chinês e sua mãe era shan; eles viveram no Estado de Shan, no norte. Ele mudou seu nome de Chang Chi-fu (também soletrado Chufu ou Shee-fu) para seu nome de guerra, Khun Sa, nos anos 70.

Um historiador do Sudeste Asiático, o falecido Michael Leifer, o descreveu como um "jovem incapaz com tendência criminosa".

Seu pai morreu quando ele era jovem e sua mãe se tornou amante de um coletor de impostos local, segundo Lintner. Ele não recebeu educação formal mas teve treinamento militar como soldado na forças nacionalistas chinesas que fugiram para a Birmânia, que atualmente é conhecida como Mianmar, após a vitória dos comunistas de Mao em 1949.

Ele entrou no negócio de ópio em 1963, quando o governo birmanês autorizou ele e outros a formarem milícias aliadas ao governo central como forma de terceirizar o trabalho de combater os grupos rebeldes. Em menos de um ano ele rompeu seus laços com o exército birmanês e estabeleceu um feudo independente nos trechos mais ao norte da Birmânia, perto da fronteira com a China.

Seu início de carreira foi marcado pelo fracasso. Ele desafiou o domínio dos nacionalistas no narcotráfico no Triângulo Dourado, mas perdeu a batalha. Ele foi capturado pelo governo central birmanês e ficou preso de 1969 a 1974.

Logo após ser solto ele se juntou novamente a seus simpatizantes no nordeste e montou uma base em Baan Hin Taek, ao longo da fronteira montanhosa perto da cidade tailandesa de Chiang Rai. Sua rede de drogas cresceu e logo passou a dominar o tráfico de heroína na Birmânia.

Nos anos 80 e 90 grande parte das drogas que passavam por sua rede era enviada para os Estados Unidos. Em 1990, o Departamento Antidrogas dos Estados Unidos calculou que 45% de toda a heroína que chegava ao país vinha do Triângulo Dourado.

Os historiadores divergem sobre o alcance de seu poder.

Lintner disse que Khun Sa era iletrado e um testa-de-ferro de uma organização dominada por chineses da província de Yunnan que ainda atua. "Ele era basicamente uma pessoa rude do campo", disse Lintner. "Era um camponês e nunca o cérebro por trás da organização."

Mas Alfred McCoy, que narrou a ascensão do Triângulo Dourado em "The Politics of Heroin" (a política da heroína), descreveu Khun Sa como "o único senhor da guerra shan que dirigia uma organização de contrabando realmente profissional, capaz de transportar grandes quantidades de ópio" e "o primeiro dos senhores da guerra do Triângulo Dourado digno da coroa de 'chefão' atribuída pela imprensa".

Khun Sa adorava cultivar sua imagem. Em uma entrevista para o falecido jornal "Bangkok World", ele chamou a si mesmo de "Rei do Triângulo Dourado".

Embaraçadas e sob forte pressão dos Estados Unidos, as autoridades tailandesas buscaram expulsar Khun Sa da Tailândia.

Em 1980, o primeiro-ministro tailandês, Prem Tinsulanonda, ordenou que a força aérea bombardeasse sua base, mas fracassou em desalojá-lo. Em 1982, o exército tailandês, liderado pelo general Chavalit Yongchaiyut, que posteriormente se tornou primeiro-ministro, lançou um ataque em grande escala. Khun Sa perdeu 130 homens na batalha que se seguiu e recuou para Mianmar, onde prosseguiu com seu negócio de heroína.

Pouco se sabe sobre sua vida em Yangun após sua rendição para as autoridades de Mianmar. Kon Jern, o comandante shan, disse que Khun Sa foi mantido sob prisão domiciliar. Outros relatos dizem que ele vivia confortavelmente, apesar de não luxuosamente. Ele teve três filhas e cinco filhos, segundo Lintner, todos eles educados no exterior. George El Khouri Andolfato

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