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31/10/2007

Venezuelanos resistem a cortes nos subsídios da gasolina

The New York Times
Simon Romero
Em Caracas, Venezuela
Em um país que se move para o socialismo, os beneficiários da generosidade do governo ainda são pessoas como Nicolas Taurisano, empresário que mexe com imóveis e importação de máquinas. Ele é o orgulhoso proprietário de um Hummer.

Norte-americanos preocupados com o preço crescente da gasolina observem: Taurisano paga o equivalente a US$ 1,50 (em torno de R$ 3) para encher o tanque de seu Hummer. Graças a um subsídio de décadas que se provou diabolicamente complexo de eliminar, a gasolina na Venezuela custa cerca de US$ 0,07 por galão, enquanto custa em média US$ 2,98 por galão nos EUA.

"É um benefício claro de morar em um país desafiador a sua maneira", disse Taurisano, 34, que também tem uma BMW, uma Mercedes, um Ferrari e um Porsche.

David Rochkind/The New York Times 
Passageiros aguardam para embarcar em ônibus em região da periferia de Caracas

Muitos venezuelanos consideram o subsídio um direito de nascença, apesar de não beneficiar os pobres, que dependem do transporte público relativamente caro e perigoso. Economistas estimam que esse benefício custa ao governo do presidente Hugo Chávez mais de US$ 9 bilhões (cerca de R$ 18 bilhões) ao ano.

Críticos de Chávez e o próprio presidente concordam que o subsídio é uma ameaça a seu projeto de transformar a Venezuela em uma sociedade socialista, engolindo enormes quantias de dinheiro das vendas da estatal de petróleo a cada ano que poderiam ser usadas para seus programas sociais.

O preço da gasolina foi muitas vezes um assunto tabu para os governos venezuelanos. Há lembranças de confrontos em 1989, nos quais centenas, talvez milhares de pessoas morreram após os protestos gerados por um aumento nos preços de gasolina que resultaram em custos de transportes mais altos. Essa instabilidade ajudou a lançar uma tentativa fracassada de golpe por Chávez em 1992, que chegou pela primeira vez à atenção do público.

Depois de sua reeleição para um mandato de seis anos em dezembro, quando seu capital político era abundante, Chávez chamou os preços de gasolina de "asquerosos" e disse que seu governo estava planejando aumentá-los com uma medida "financiada pelos que têm uma BMW ou um tremendo quatro por quatro". No entanto, ele voltou sua atenção para outros assuntos, evitando o tema delicado.

O elo entre a paz social e gasolina tão barata que é quase dada é evidente para muitos motoristas. "Se você aumentar a gasolina, as pessoas vão se revoltar. É a única coisa barata", disse Janeth Lara, 40, administradora na Bolsa de Valores de Caracas, enquanto esperava o atendente encher o tanque de seu Jeep Grand Cherokee recentemente.

Durante uma época de alta do petróleo que está aumentando a renda de ricos e pobres, a Venezuela está lidando com o índice de inflação mais alto da América Latina, cerca de 16%. Em um movimento raro em um mundo que está se acostumando a um dólar fraco, a moeda local, o bolívar, mergulhou quase 50% no câmbio livre neste ano, atingindo uma baixa recorde de cerca de 6.000 para o dólar em outubro (o índice oficial é de 2.150 por dólar).

A gasolina é um dos poucos produtos sujeitos a controle de preço aqui que tem relativamente amplo fornecimento. Recentemente, os jornais ficaram cheios de histórias de consumidores lutando para encontrar leite. No mês passado, os ovos eram escassos.

A incerteza econômica torna mais difícil aumentar o preço dos combustíveis, pois um pequeno aumento poderia provocar uma reação em cascata. Poderia haver um impacto sobre os pobres, com maiores custos de alimentos e de outros bens para os quais os custos de transportes são importantes, disse Francisco Rodriguez, ex-economista chefe da Assembléia Nacional.

Uma opção é manter o preço do diesel barato, já que é usado em quase todo transporte público e de carga, e aumentar o preço da gasolina para os proprietários de automóveis, relativamente prósperos. Outra idéia é dar vale transportes às pessoas em bairros pobres.

"Estamos gradualmente entrando em uma tempestade econômica por causa de nosso vício em combustível barato", disse Orlando Ochoa, economista da Universidade Andrés Bello em Caracas.

(Muitos venezuelanos alardeiam que sua gasolina é uma das mais baratas do mundo, mas terão que disputar com o Turcomenistão, na Ásia Central, por essa distinção. Os turcomenos pagam um pouco menos que os venezuelanos por seu combustível, de acordo com recente pesquisa da GTZ, firma de consultoria alemã.)

Segundo os acadêmicos, o subsídio venezuelano começou nos anos 40, quando esquerdistas impuseram limites aos preços da gasolina depois de derrubar o governo do general Isaias Medina Angarita. Como os lucros sobre a venda de gasolina iam para empresas estrangeiras na época, a medida era vista como uma forma de redistribuir a renda aos venezuelanos.

Os governantes foram forçados a aumentar os preços nos anos 80 e 90, por dificuldades financeiras. Chávez, entretanto, tem hesitado em aumentar os preços da gasolina desde o início de sua presidência, há quase nove anos.

A Venezuela não está sozinha entre os países ricos em petróleo a lutar com o subsídio à gasolina. O Irã, aliado próximo, foi abalado por inquietação em junho, quando seu governo racionou a gasolina, que custava US$ 0,34 por galão na época. No entanto, o forte hábito venezuelano de comprar carros está forçando o governo aqui a vender quantidades maiores de gasolina barata.

As vendas de veículos na Venezuela cresceram 49% nos primeiros nove meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado, em parte porque os carros são vistos como um investimento contra a incerteza econômica. Não só o bolívar caiu de valor, mas há preocupação com imóveis, pois pessoas sem-teto têm permissão de tomar o controle de propriedades vazias.

O contrabando de combustível para a vizinha Colômbia, onde os preços são muito mais altos, também é comum. O consumo interno subiu 56% nos últimos cinco anos, para 780.000 barris por dia, disse Ramon Espinasa, ex-economista da estatal Petróleos de Venezuela. Um terço da produção de petróleo atualmente vai para pagar o subsídio, disse ele.

A Petróleos de Venezuela nega essas estimativas, mas parou de dar informações sobre a venda de combustível no país. Um porta-voz da empresa disse que não havia pessoal disponível para comentar o assunto.

Apesar dos esforços do governo de abrir o mercado para fabricantes de carro do Irã e da China, veículos grandes e esportivos importados dos EUA, que bebem muita gasolina, continuam entre os mais procurados.

Talvez a SUV mais desejada de todas na Venezuela seja o Hummer, uma questão ética para Chávez.

"Que tipo de revolução é essa?" perguntou o presidente em um programa de televisão em outubro, após um relatório aqui que a General Motors estava planejando importar 3.000 Hummers para suprir a demanda crescente. "Revolta dos Hummers?"

"Não", disse ele com o tom raivoso de um professor escolar, respondendo a sua própria pergunta enquanto anunciava uma medida que tornaria mais caro importar Hummers e outros itens de luxo como uísque. "Essa é a revolução da verdade." Deborah Weinberg

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