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01/11/2007

Os estranhos companheiros políticos, mas familiares, da Argentina

The New York Times
Alexei Barrionuevo

Em Buenos Aires
A vitória fácil de Cristina Fernández de Kirchner, a esposa de Néstor Kirchner, o atual presidente da Argentina, pareceu sinalizar uma volta do partido peronista mais forte do que nunca. Mas a forma como ela venceu a eleição e os desafios econômicos que enfrentará poderão ser um duro teste de sua capacidade de manter o casal no poder.

Cristina, 54 anos, venceu no domingo com 45% dos votos, se tornando a primeira mulher a ser eleita presidente na Argentina e consolidando os Kirchners como uma dinastia política.

Sua concorrente mais próxima, a deputada de centro-esquerda Elisa Carrió, ficou com 23% dos votos. Mas uma análise dos votos mostra que a presidente eleita venceu em apenas dois grandes centros urbanos -Mendoza e San Miguel de Tucumán- obtendo grande parte de seu apoio das províncias onde as classes mais baixas votaram com fervor nacionalista pela continuidade das políticas econômicas de Kirchner, que conseguiram tirar a Argentina de sua crise econômica de 2001, considerada por muitos economistas como a pior já sofrida pelo país.

Christophe C. Zaro de Luca/EFE 
Néstor e Cristina Kirchner durante cerimônia na Casa Rosada, em Buenos Aires

O antigo partido peronista que a conduziu para a vitória passou por muitas mudanças na última década, a ponto de estar "precisando urgentemente de algumas vitaminas", disse Graciela Römer, uma analista política daqui.

Cristina herda uma inflação de dois dígitos e uma séria ameaça de crise de energia, duas questões que serão difíceis de ser tratadas sem a alienação das classes mais pobres que são mais vulneráveis a choques econômicos.

Mas seu sucesso final na construção da base de seu partido e manutenção dos peronistas no poder poderá depender de sua capacidade de responder às exigências da classe média, que critica as tendências autoritárias do governo Kirchner. Cristina não conseguiu vencer em Buenos Aires, Córdoba e Rosario -três cidades com grandes populações de classe média.

"Ela terá que continuar com as políticas econômicas de Kirchner mas colocar um fim na concentração de poder", disse Römer, "e buscar um maior diálogo e consenso".

O peronismo, um movimento populista e nacionalista que nasceu do governo do ex-presidente Juan Domingo Perón, nos últimos anos se tornou três partidos em um, com Kirchner liderando a ala de centro-esquerda com tendências mais pragmáticas. Mas seu desempenho eleitoral foi fraco em 2003, quando obteve apenas 22% dos votos no primeiro turno. O ex-presidente Carlos Menem, outro peronista que defendia um modelo neoliberal, desistiu da disputa, tornando o segundo turno desnecessário.

Apesar da vitória por grande margem de Cristina, a capacidade de manobra do governo poderá ser mais limitada do que antes, disseram os analistas nesta semana. A nova presidente provavelmente herdará o índice de aprovação em queda de seu marido, já que os eleitores fazem pouca distinção entre ela e Kirchner, disse Daniel Kerner, um analista do Eurasia Group, nesta semana.

E o governo estará bastante ocupado domando o aumento dos preços ao consumidor. Cristina insiste que os números oficiais do governo que mostram a inflação entre 8% e 10% não foram manipulados, mas economistas tanto daqui quanto do exterior dizem o contrário há meses, colocando a inflação mais próxima de 20%.

O governo pretende baixar a inflação por meio de um "pacto social" entre o setor privado e os sindicatos, que manteriam um freio nos preços e nas exigências de aumento salarial, e por meio de um ajuste fiscal gradual. Mas medidas que poderiam reduzir o crescimento ou conter o consumo seriam politicamente inviáveis, disse Kerner, já que minariam a base de apoio do governo.

Uma vantagem de Cristina é o estado dividido da oposição na Argentina. Julio Burdman, um analista político daqui, considera a organização da oposição a mais fraca na história argentina. Os partidos de oposição se uniram brevemente em protesto contra as cédulas perdidas na noite da eleição, uma acusação que Cristina disse que deve ser investigada.

Cristina deverá contar com um forte aliado para ajudar a tapar os buracos no aparato do partido peronista -seu marido. Kirchner disse em entrevistas na semana passada que se dedicará após a eleição a "construir organizações sociais", o que para alguns analistas significa que ele planeja escorar o partido.

Se for bem-sucedido, isto poderia dar frutos a tempo dele concorrer para substituir sua esposa na presidência, em vez dela correr o risco de um segundo mandato mais fraco. Alguns analistas acreditam que Kirchner já tinha tal plano em mente quando decidiu em julho não concorrer à reeleição, apesar de sua popularidade na época, preferindo promover a candidatura de sua esposa em uma espécie de rodízio na presidência.

Os Kirchners têm sido esquivos sobre sua estratégia política. Kirchner disse publicamente na terça-feira que sairia "para um café literário". Em uma entrevista para a CNN em Espanhol na terça-feira, Cristina pareceu ridicularizar a idéia de se alternarem no poder.

"Kirchner 2011 parece '2001: Uma Odisséia no Espaço'", ela disse. "É um filme de ficção." George El Khouri Andolfato

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