UOL Notícias Internacional
 

02/11/2007

Militantes islâmicos traçam nova linha de frente no Paquistão

The New York Times
Jane Perlez*

Em Peshawar, Paquistão
Por grande parte do último século, a região montanhosa de Swat foi governada como um reino onde um autocrata benigno, o wali, concedia escolas para as meninas, atendimento de saúde para todos e a chance de obtenção de diploma no exterior para os talentosos.

Agora, a região é a mais nova linha de frente na batalha entre os militantes islâmicos, que simpatizam com o Taleban e a Al Qaeda, e as nervosas forças de segurança do Paquistão. Pela primeira vez, combates pesados se deslocaram para além da orla tribal do Paquistão e ingressaram em áreas mais habitadas do país.

Na quinta-feira, as forças do governo, apoiadas por helicópteros, atacaram cerca de 500 militantes na área, matando cerca de 60 homens, disse Badshah Gul Wazir, o secretário interno para a província da Fronteira Noroeste. Os militantes disseram que capturaram 44 membros da Corpo de Fronteira e os mantinham como reféns.

Ali Imam/Reuters 
Moradores tentam deixar Mingora, principal cidade do vale de Swat, Paquistão

As batalhas fazem parte do que se tornou uma crescente insurreição dentro do Paquistão, visando diretamente o governo do general Pervez Musharraf em vez das forças da Otan e americanas do outro lado da fronteira afegã, que foram alvo por muitos anos.

Muitos aqui dizem que a militância é alimentada pela raiva contra a aliança do governo paquistanês com o governo Bush e contra o que é considerada uma agenda pró-americana, que ganhou proeminência com o retorno da líder de oposição, Benazir Bhutto. Ela acusou os militantes de tentarem tomar o país.

O conflito em Swat reflete muitos dos motivos para o Paquistão ter se tornado um local tão perigoso nos últimos anos: a agressividade dos militantes; a passividade do governo e de suas forças de segurança; o carente aparato civil, incluindo escolas e hospitais, que fracassou em fornecer a base para uma estratégia de contra-insurreição. Tão grave é a ameaça que mais de 2 mil soldados paquistaneses foram enviados para subjugar os militantes na área de Swat, em julho. Mas por três meses, eles foram intimidados e se mostraram inativos. Reforços enviados na semana passada foram atingidos por um homem-bomba que matou 17 soldados paramilitares. Isto provocou a ação do governo na quinta-feira.

A crescente intimidação por parte dos militantes assume muitas formas. Dois dias depois do ataque suicida, as cabeças de dois membros da polícia da fronteira foram desfiladas pelas ruas empoeiradas de Matta, uma aldeia a cerca de 30 quilômetros ao norte de Saidu Sharif, a capital de Swat.

Mensagens acompanhavam as cabeças. Eles chamaram os policiais de aliados dos Estados Unidos e ameaçaram decapitar qualquer um que se aliasse aos americanos, segundo moradores de Peshawar que receberam notícias de parentes da área da fronteira, que é perigosa demais para ser visitada por jornalistas estrangeiros.

Desde o início dos confrontos na semana passada, as escolas foram fechadas, uma campanha vital de vacinação contra pólio para crianças foi abandonada e os postos policiais foram esvaziados, disseram os moradores. A falta de lei impera, segundo os relatos deles.

"Os militantes controlam cerca de 10% do território" da província da Fronteira Noroeste, onde fica Swat, disse Sher Muhammad, um advogado que vive tanto perto de Swat quanto em Peshawar, onde foi entrevistado. "Mas psicologicamente eles aterrorizam toda a área. Ninguém se sente seguro."

O clima de medo e incerteza domina não apenas a província da Fronteira Noroeste, mas também as grandes cidades do Paquistão, incluindo a capital, Islamabad, e a cidade militar vizinha, Rawalpindi, onde ataques suicidas agora são comuns, diferente de um ano atrás.

Tais ataques são cada vez mais mortais. O caminhão que transportava Benazir Bhutto, a líder da oposição, foi atingido por pelo menos um homem-bomba durante sua carreata de chegada em Karachi, há duas semanas, matando 140 de seus simpatizantes.

Benazir Bhutto partiu do Paquistão na tarde de quinta-feira, rumo a seu lar em Dubai, após se manter escondida durante grande parte da semana atrás de uma cortina de segurança fornecida por seu partido político na propriedade de sua família, em Karachi. Sua porta-voz disse que ela estava visitando seus filhos e mãe doente.

"O Paquistão está sitiado", disse Farouk Adam Khan, um advogado proeminente que estudou em Sandhurst, a academia militar britânica, e um ex-promotor anticorrupção nomeado por Musharraf. "É a revolta contra as políticas pró-americanas, particularmente o eixo Musharraf-Bush", ele disse.

Um briefing de março sobre lei e ordem emitido pelo Departamento do Interior da província da Fronteira Noroeste, que é governada por aliados políticos de Musharraf, mostrou que o governo está ciente da crescente militância.

O relatório aponta que "o movimento livre de militantes, seu apoio financeiro, físico e moral estão crescendo".

Outra parte do relatório declara sem rodeios: "A moral dos agentes da lei e das pessoas que apóiam o governo está em declínio. A talebanização, a falta de lei e o terrorismo estão em ascensão". O briefing sugere que o governo deve apoiar os imãs moderados que pregam tolerância, mas que isto ainda não aconteceu, disse um alto funcionário de segurança em Peshawar.

Outra recomendação foi o envio de mais soldados, o que foi feito em julho sem muito efeito.

Muitos dos militantes na região de Swat são membros do Tehreek Nifaz-e-Shariat Mohammadi -o Movimento pela Aplicação das Leis Islâmicas- um dos vários grupos extremistas aliados ao Taleban na área.

O movimento, liderado pelo inflamado clérigo islâmico maulana Fazlullah, foi proibido pelo governo Musharraf em 2002, mas está ganhando força, particularmente no último ano.

Fazlullah, que dirige uma estação de rádio FM conhecida como Rádio Maulana, é genro de Sufi Muhammad, o fundador pró-Taleban do movimento, que foi preso pelas autoridades paquistanesas no final de 2001.

Apesar de permanecer atrás das grades, o grupo vem ganhando adeptos, incluindo ex-oficiais do exército, segundo Zia ur Rehman, um analista do Instituto para Desenvolvimento de Políticas Sustentáveis em Islamabad.

Outros simpatizantes incluem comerciantes irados com a política do governo local de aumento dos impostos e agricultores irritados com as altas taxas de juros para os empréstimos para compra de terras.

Os moradores disseram que Fazlullah montou a estação de rádio no ano passado e deu início aos sermões radicais pedindo pela restauração do califado, a organização do poder muçulmano que dominou por séculos após a morte do profeta Maomé.

Ele se voltou para as mulheres sem instrução. Elas prontamente atenderam aos seus apelos de doações. Elas e outros também responderam aos seus apelos para desligar os televisores -até mesmo queimá-los- e fechar as lojas de música e vídeo.

Então as exigências de Fazlullah foram se tornando mais duras, incluindo a proibição das vacinações contra pólio para as crianças, disseram as autoridades de saúde locais. Ele alegou que as vacinações deixavam os homens impotentes.

Nesta semana, enquanto a campanha do governo de vacinação contra pólio tinha início em grande parte do Paquistão, apoiada pelo Unicef, ela foi cancelada em Swat porque a situação da segurança era considerada arriscada demais pelas autoridades de saúde.

Para as mulheres, o impacto dos militantes em Swat é particularmente devastador, disse Rukhshanda Naz, a diretora da Fundação Aurat, que trabalha pelos direitos das mulheres.

Fazlullah exigiu o fechamento das escolas para garotas e quase uma dúzia delas foi atacada com bombas no ano passado, disse Naz.

Funcionários públicos capazes de dialogar com os militantes foram posicionados em Swat, disse um alto funcionário do governo. Eles tentaram chegar a um acordo: as escolas seriam mantidas abertas, mas em uma carta do governo, as meninas com mais de 8 anos foram instruídas a vestir burcas, disse Naz.

Finalmente, em setembro, todas as escolas para meninas foram fechadas, ela disse.

As mulheres que foram eleitas para os conselhos locais também foram alertadas a não comparecerem, ela disse.

"As mulheres estão esperando pelo apoio de instituições públicas, mas o Estado fracassa em dá-lo", disse Naz.

Longe de Swat, em uma casa bem mobiliada em Islamabad, decorada com fotos de Jacqueline Kennedy Onassis, da rainha da Inglaterra e de Charles de Gaulle, o filho do último wali de Swat, Miangul Aurangzeb, 79 anos, lamenta a queda de seu amado reino.

"Um Estado autocrático pode ser muito bom", disse Aurangzeb em uma entrevista em sua sala de estar. "Meu avô, meu pai e eu estávamos no lado bom."

Quando o governo paquistanês engoliu Swat em 1969, o pai de Aurangzeb renunciou. Apesar de ser seu herdeiro, Miangul Aurangzeb nunca governou.

Ele tem sua própria explicação para o motivo da ascensão dos militantes, uma variação daquela dada por outros na região.

"Musharraf quer o apoio dos americanos, então ele assusta os americanos e permite o surgimento destas pessoas, para que Bush lhe dê mais dinheiro e armas", ele disse. "Isto poderia ter sido coibido há um ano."

*Ismail Khan contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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