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02/11/2007

Ultra-ortodoxos de Israel criam o exclusivo mercado paralelo kosher

The New York Times
Steven Erlanger

Em Ramat Beit Shemesh, Israel
Quando Larry Pinczower liga seu telefone celular, aparece o selo do conselho do rabinato. Incapaz de enviar mensagens de texto, tirar fotos ou de conectar a Internet, seu celular é uma adaptação à modernidade aprovada pela religião pelo setor ultra-ortodoxo da vida israelense.

Mais de 10 mil números de telefones de sexo, serviços de encontros e semelhantes estão bloqueados, e os rabinos supervisores asseguram que a lista seja sempre atualizada. Telefonemas para outros telefones kosher custam menos de 2 centavos de dólar por minuto, em comparação a 9,5 centavos para telefones normais. Mas no sabá qualquer ligação custa US$ 2,44 o minuto, uma dura pena religiosa.

"Você paga menos e segue as regras", disse Pinczower, 39 anos. "Você usa a tecnologia mas de uma forma que mantém a integridade religiosa."

Rina Castelnuovo/The New York Times 
Judeu ultra-ortodoxo faz compras em uma padaria kosher em Mea Shearim, Israel

Uma comunidade de pelo menos 800 mil pessoas -entre 5,4 milhões de judeus que vivem em Israel, um país de 7,1 milhões de habitantes- os ultra-ortodoxos, apesar de comparativamente pobres, formam um mercado distinto, crescente e importante e as empresas israelenses estão prestando atenção. Apesar das regras rabínicas que proíbem assistir televisão, usar computadores para o lazer, vestuário imodesto e a mistura não supervisionada de homens e mulheres, a economia de mercado israelense se ajustou de formas criativas e surpreendentes.

Cerca de 60% dos homens ultra-ortodoxos não possuem empregos regulares, preferindo o estudo religioso. Mais de 50% vivem abaixo da linha de pobreza e recebem ajuda do Estado, em comparação a 15% do restante da população, e a maioria das famílias tem seis a sete filhos, disse Momi Dahan, um economista da Escola de Política Pública da Universidade Hebraica.

Mas por viverem em comunidades fechadas como esta e obedecerem seus rabinos, eles têm poder significativo no mercado, assim como nas urnas, disse Refi Melnick, reitor da Escola Lauder de Governo do Centro Interdisciplinar, em Herzliya.

"Você o vê em setores como alimentos, produtos de consumo e empresas de transporte", ele disse. A companhia aérea israelense El Al agora é privatizada. "Mas ele continua não voando aos sábados", disse Melnick, para manter os clientes ultra-ortodoxos.

Tamar El-Or, uma antropóloga da Universidade Hebraica, estudou os hábitos de compras dos ultra-ortodoxos. "Há linhas de celulares, cartões de crédito, provedores de Internet, software, DVDs, roupas e tantas coisas produzidas, alteradas ou transformadas em kosher para eles, porque possuem um certo poder organizado para fazer os produtores fazerem o que desejam", ela disse.

Beit Shemesh é um bom exemplo, uma cidade moderna, atrativa, de 73 mil habitantes. Há uma área mais secular, com um grande shopping, e um distrito ultra-ortodoxo, Ramat Beit Shemesh, que é dividido em dois. Bet, ou B, é muito rígido, com 15.700 habitantes. Aleph, ou A, subindo a colina, é um pouco mais flexível e contém 17.100 pessoas, incluindo um crescente número de judeus norte-americanos e europeus que quiseram ingressar na comunidade ultra-ortodoxa de Israel.

Apesar dos setores parecerem semelhantes, há mais cartazes nas paredes e pichações iradas em B, e as ruas são mais quietas, com menos mulheres visíveis. Um alerta pintado com spray dizia: "Para vir aqui é preciso estar vestido apropriadamente. Apenas trajes modestos".

A companhia de ônibus Egged tem rotas especiais para os ultra-ortodoxos, para que os homens e mulheres sejam segregados, às vezes em ônibus separados. Mas ocorreram tumultos em Ramat Beit Shemesh B em torno de certas rotas de ônibus, com pichações iradas comparando a empresa e a polícia a nazistas e chamando Israel de "regime de apóstatas", rejeitando o governo como sendo não-religioso.

Em 21 de outubro, cinco judeus ultra-ortodoxos atacaram uma mulher e um soldado israelense em um ônibus com destino a Beit Shemesh. Os homens exigiram que a mulher se sentasse no fundo do ônibus; quando ela se recusou e pediu ao soldado que sentasse ao lado dela, eles bateram nos dois. Quando a polícia chegou, dezenas de homens ultra-ortodoxos a atacaram enquanto os agressores fugiam.

Algumas comunidades ultra-ortodoxas criaram empresas de ônibus privadas, que separam os gêneros.

Os supermercados também são diferentes, apenas com produtos kosher e pacotes econômicos de itens básicos, de flocos de milho a xampu, de papel higiênico a fraudas, para grandes famílias ultra-ortodoxas.

Aqui em Ramat Beit Shemesh A, o espaçoso "Shefa Shouk" é uma loja para o segmento ultra-ortodoxo de uma grande rede de mercados, a Blue Square-Israel Ltd. Shefa Shouk conta com marcas próprias contendo o rígido certificado kosher "Badatz". Há roupas especiais -roupas íntimas com franjas, por exemplo- e uma grande seção para bebês.

Shlomit Feder, 45 anos, nascida na Suíça, fazia compras para seu marido e seis filhos, com idades entre 18 meses e 14 anos. Seu marido trabalha muito por um salário mínimo, "e é difícil chegar ao final da semana". Mas a família recebe ajuda das caridades locais e dos fundos rabínicos, ela disse, pegando um pacote com 56 rolos de papel higiênico. A comunidade cuida dos mais necessitados; o supermercado também conta com um fundo de caridade.

A Strauss Israel, uma das maiores empresas de alimentos do país, com milhares de funcionários em todo o mundo, possui marcas próprias para os ultra-ortodoxos, disse Giora Bar-Dea, vice-presidente executivo e executivo-chefe.

Produzir sua marca Megadim de doce ultrakosher ou seus produtos derivados de leite Strauss Mehadrin exige instalações especiais, porque apenas leite de fontes judaicas pode ser usado.

Mas é lucrativo. O mercado ultra-ortodoxo representa entre 8% e 10% das vendas domésticas da Strauss, ele disse, movimentando cerca de US$ 73 milhões por ano.

Para atingir estes consumidores, a Strauss usa uma agência de publicidade diferente e estratégia de relações públicas, incluindo contribuições para as atividades comunitárias para crianças e pobres.

"Estas pessoas não assistem televisão", disse Bar-Dea. "Elas lêem jornais diferentes. Elas vivem em comunidades fechadas. É um mercado singular, quase de A a Z."

Há pelo menos 400 ou 450 lojas em Israel voltadas aos ultra-ortodoxos, ele disse, e aproximadamente outros 100 mercados mistos em cidades menores.

O impacto desta comunidade também é visível em outras lojas. Na mais liberal Ramat Beit Shemesh A, Itzik Paloch, 25 anos, ele próprio um ultra-ortodoxo, dirige uma loja de vídeo e música, uma proposta delicada em uma comunidade onde cinema e televisão são proibidos por muitos rabinos -mas não para crianças, caso a intenção seja educativa.

"Tudo aqui é para os haredim", disse Paloch, usando a palavra hebraica para ultra-ortodoxos. Ele conta com um grande estoque de documentários sobre a natureza -os vídeos da National Geographic são aceitos desde que, como ele disse com cuidado, não haja nudez humana ou sexo, mesmo que entre animais.

Tio Moishe, um apresentador infantil que ensina a Torá, é particularmente popular. Mas também há filmes de suspense e guerra para os jovens, aprovados pelos rabinos. "The Aryan Brigade" é sobre um imigrante perseguido por neonazistas. "Escape" é sobre um padre cristão em fuga, com um irmão judeu.

Paloch vende um boneco ultra-ortodoxo, com cachos de cabelo laterais, que recita orações. O mesmo boneco, com textos diferentes e sem os cachos de cabelo laterais, é vendido no que ele chamou de "comunidade secular". Aqui, o boneco é chamado "Shimeleh"; no mundo externo, "Chico".

Ora Yazdi, 36 anos, chegou com um de seus seis filhos para procurar um vídeo sobre a natureza. "É para meus filhos", ela disse. "Se é bom para eles, é bom para mim."

Ela disse que se mudou de Tel Aviv e adora aqui. "Em Tel Aviv, não era haredi. Aqui, tudo é haredim e é melhor para as crianças."

Mas as tensões entre as duas comunidades ultra-ortodoxas são reais. Ilan Shmueli, 35 anos, dirige a "American Pizza" em Beit Shemesh A. Ele abriu uma na mais rígida B, em agosto de 2005, com base em seu trabalho em uma pizzaria de Deal, Nova Jersey.

Após seis meses, ele disse, "os problemas começaram: eles passaram a jogar coisas em nós, como tomates do mercado, óleo quente, gasolina". Alguns ultra-ortodoxos de B eram clientes, mas os "chasidim, que eram um tanto malucos", começaram as manifestações, que se tornaram violentas. Seu pecado foi colocar homens e mulheres sentados no mesmo restaurante. "Eu procurei o rabino deles e disse: 'Olha, está parecendo a guerra de Gog e Magog'", disse Shmueli. "E ele disse: 'Você pode acabar morto'."

Ele fechou com grande prejuízo, então reabriu em A há 10 meses com a ajuda de seu pai. "Muitos ultra-ortodoxos simpáticos o freqüentam", ele disse, especialmente os novos imigrantes americanos.

A placa da American Pizza mostra as torres gêmeas do World Trade Center. Ao ser perguntado o motivo, Shmueli disse que consultou seu rabino. "O rabino me disse que a Estátua da Liberdade é um problema, espiritualmente falando", disse. Liberdade é "chofesh", que implica em liberdade pura. "Os haredis não têm chofesh", ele disse. "Nós somos servos de Deus."

Seu rabino disse que as torres gêmeas eram muito melhor. "As pessoas inicialmente se queixaram porque lhes causava um aperto no coração", disse Shmueli. "Eu também ia colocar uma bandeira americana, mas decidi deixar simplesmente assim. Afinal, estamos em Israel." George El Khouri Andolfato

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