UOL Notícias Internacional
 

03/11/2007

Enquanto melhora a situação dos curdos, cai apoio aos militantes na Turquia

The New York Times
Sabrina Tavernise*

Em Kiziltepe, Turquia
Há dez anos, a Turquia administrava esta região curda no seu sudeste como um Estado policial. Todos os sinais de identidade curda -língua, música, traje nacional- eram proibidos e sujeitos a punição. Havia checkpoints por toda parte. Sair após o anoitecer era proibido.

Hoje, o curdo é ouvido nas ruas e nas lojas, a TV curda por satélite é transmitida legalmente aos lares e os feriados curdos são comemorados publicamente. As melhorias ocorreram após 25 anos de guerra pelos direitos curdos e em grande parte foram um resultado das mudanças legais promovidas pela Turquia para poder se qualificar à União Européia.

Mas os militantes defensores de tal identidade curda -um grupo rebelde sediado em parte no norte do Iraque- ameaçam complicar um maior progresso dos mesmos direitos pelos quais alegavam lutar, dizem muitos aqui.

"Eles prejudicam mais o povo curdo do que qualquer outro com esta violência", disse Mehmet Kaya, chefe da câmara de comércio da capital da região, Diyarbakir, se referindo aos militantes. "As pessoas desta região estão começando a dizer em voz alta que não querem mais violência."

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, chega à Turquia na sexta-feira para tentar desarmar uma crise entre o país, um membro da Otan, e o Iraque em torno dos ataques do grupo rebelde, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, conhecido como PKK, que se esconde nas montanhas no Iraque.

A crise dividiu a Turquia entre poderosos nacionalistas linhas-duras, que querem uma invasão, e turcos moderados, que não querem. Os moderados temem que um conflito maior possa provocar nova violência étnica e esperam que o apoio dos Estados Unidos ajudará a inclinar a balança contra ele.

"Este é um teste de até onde os Estados Unidos podem influenciar a Turquia", disse Soli Ozel, um professor de relações internacionais da Universidade Bilgi, em Istambul. "Se ela sair de mãos vazias, será difícil para o governo represar as águas."

Por décadas, a Turquia reprimiu sua minoria curda, cerca de um quinto da população do país, temendo secessão. A opressão, somada com pobreza aguda -60% dos moradores daqui estão abaixo da linha de pobreza- alimentou a militância.

Como muitos outros movimentos políticos esquerdistas da época, o PKK, fundado no final dos anos 70, foi proibido após um golpe militar turco em 1980. Ele permaneceu altamente popular como um movimento de libertação nacional curdo, mesmo enquanto seus combatentes se mudavam para a Europa e para as montanhas escarpadas do leste da Turquia e norte do Iraque.

"Havia esta empolgação da juventude no ar por todo o país", disse Ramazan Deger, um político curdo do partido do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, de Mardin, uma cidade próxima de Kiziltepe. "No leste, era representada pelo PKK."

Mas o apoio local se transformou em medo quando o PKK se tornou brutal nas aldeias curdas, tentando bloquear qualquer cooperação local com o Estado. Hasan Ozgun, 30 anos, um dono de loja de celular em Kiziltepe, lembra de seu pai tentando avaliar toda manhã se abriria sua loja de tecidos, depois de encontrarem outros lojistas mortos com suas mãos ainda nas fechaduras. Ele disse que o grupo matou mais de 30 pessoas em sua aldeia.

"Nós começamos a duvidar da sinceridade deles", disse Serif Gokce, 33 anos, dono de uma loja de computadores em Kiziltepe. "Em 25 anos de luta, tão pouco foi conseguido. As pessoas chegaram à conclusão de que eles causaram mais mal do que bem."

O Estado turco não era menos brutal. Gokce lembra de soldados isolando sua aldeia, conduzindo os aldeões juntos e os espancando e interrogando por horas. Seu pai ainda tem uma cicatriz da bota de um soldado turco acima de sua orelha.

As restrições começaram a diminuir depois que o líder do PKK, Abdullah Ocalan, foi capturado em 1999, e ainda mais quando o novo governo de Erdogan começou a reformar o Estado turco para ingresso na União Européia. Halime, 32 anos e mãe de oito, lembra de ter celebrado o festival da primavera curdo de Nawruz pela primeira vez há vários anos. As crianças podiam ter nomes curdos. Foi permitida uma radiodifusão curda limitada. O PKK mudou algumas de suas exigências para a libertação e tratamento dado a Ocalan, gerando mais dúvidas entre o público curdo mais instruído sobre suas motivações.

"Quais são seus objetivos -uma vida melhor para os curdos na Turquia ou a melhoria das condições para o líder deles na prisão?" disse um funcionário público em Mardin, que pediu que seu nome não fosse mencionado por temer retaliação.

Erdogan deu início a um esforço orquestrado para conquistar a população curda. Ele prometeu estradas e eletricidade em todas as aldeias. Em 2005, foram fornecidos atendimento básico de saúde para os pobres e ajuda para crianças em idade escolar. Talvez mais importante, ele declarou publicamente em um importante discurso naquele ano que a Turquia tinha um "problema curdo", um comentário quase sem precedente para líderes turcos e que causou profunda impressão na região.

"Seu pedido por fraternidade foi o que me conquistou", disse Gokce na loja de Ozgun, enquanto clientes faziam perguntas em curdo.

"Nós sabemos que ele estava tentando romper uma mentalidade."

Os curdos responderam e nas eleições de julho passado, eles votaram em grande número no partido de Erdogan, o único partido não-curdo que fez campanha no sudeste, reduzindo o número de vitórias do partido curdo para 6 províncias, em comparação a 13 em 2002.

Os candidatos independentes do partido curdo ainda conseguiram a maioria dos votos na região, conquistando 20 cadeiras no Parlamento, a primeira representação curda em mais de uma década.

A nova escolha reflete um deslocamento mais amplo entre os curdos para o centro da sociedade turca. Um grande número de curdos da Turquia se mudaram para o oeste durante a guerra no sudeste, e apesar de permanecerem mais pobres e menos privilegiados do que o restante da sociedade turca, eles aprenderam com a exposição.

"O povo curdo está muito mais consciente do que costumava ser", disse Gokce.

O sucesso do partido "indicou o início de uma mudança e transformação na mentalidade e expectativa das pessoas", disse Sezgin Tanrikulu, presidente da Ordem dos Advogados de Diyarbakir.

"A violência que antes era vista como uma forma legítima de buscar igualdade, não é mais", ele disse, adicionando que nesta semana 91 grupos regionais de negócios, organizações não-governamentais e intelectuais da região assinaram uma declaração pedindo ao grupo para baixar suas armas.

A única forma de acabar com o conflito é o governo dar "um passo corajoso e destemido" e expandir os direitos dos curdos, disse Tanrikulu. Abdurrahman Kurt, um advogado de Diyarbakir e membro do partido de Erdogan, disse que o PKK aumentou recentemente os ataques por causa do sucesso do governo em conceder mais direitos aos curdos. Tanto o PKK quanto os linhas-duras nas forças armadas turcas têm forte interesse em manter o conflito, disse Kaya.

"Eles sempre agem nos momentos em que o país chega a encruzilhadas na democracia", disse Kurt.

A crise também trouxe à tona profunda raiva nacionalista, e Tanrikulu expressou preocupação de que além de retardar a transição turca para a democracia, também possa provocar conflito étnico.

Gokce explicou que há vários anos tinha perdido a esperança e que estava considerando se mudar para a Europa, mas decidiu permanecer depois da nova política de inclusão do governo. As antigas aspirações por um Estado independente desapareceram.

"Nós costumávamos pensar que os curdos deveriam ter sua própria terra", ele disse em meio aos clientes de sua loja. "Mas à medida que nos tornamos mais conscientes, nós percebemos que era uma ambição falsa."

*Sebnem Arsu, em Mardin e Ancara, Turquia, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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