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04/11/2007

Amor moderno: o homem que eu gostaria que fosse seu pai

The New York Times
De Virginia A. Smith
"Quem é esse?", perguntou Katie, minha filha de 13 anos. Ela apontava para uma fotografia que eu tinha encontrado recentemente e colocara no mural em casa. Um homem e eu estamos de pé, enlaçados pela cintura, numa praia em Cape Cod. Katie não o conhecia, o que é raro, porque, como mãe lésbica, eu faço questão de que meus amigos homens estejam sempre perto dos meus filhos.

David Chelsea/The New York Times 


Eu me recompus. "Ele se chama Andrew." Comecei a fazer uma versão muito resumida, mas as memórias vieram numa enxurrada.

Eu o conheci na igreja de St. Luke in the Fields em Greenwich Village, em um domingo quente de verão, 15 anos atrás. Ele era alto, bonito, tinha um rosto aberto e simpático. Mas em vez de usar a moda gay da época —camiseta justa, calças Levi's 501 pretas apertadas— ele vestia calças cáqui frouxas e uma camisa de mangas curtas. E parecia saudável, diferentemente de muitos de meus amigos.

Eu tinha começado a freqüentar St. Luke dois anos antes, em busca de conforto, rezando pelos amigos que estavam morrendo de Aids e pelos filhos que eu tanto desejava e temia que nunca tivesse. Há dez anos eu queria formar uma família, mas com um homem real, e não com um vidro de sêmen. Pela intimidade biológica e emocional que isso poderia dar a meus filhos e devido ao amor que eu sentia por meu pai, eu queria que meus filhos tivessem um pai que fizesse parte de suas vidas.

Eu já tinha perguntado aos meus amigos gays mais próximos, mas um declinou por motivos que não quis revelar, o namorado de outro tinha acabado de receber o diagnóstico de HIV e um terceiro estava assustado demais para fazer o teste.

Em Manhattan, o HIV e a Aids estavam em todo lugar: nos rostos magros dos homens do Village, nas placas de "Vende-se" na Christopher Street, no rosto de meu amigo Jim na noite anterior à sua morte, seus olhos brilhando amarelos, seu corpo uma mancha nos lençóis. Estavam em meus amigos Raul e Darrell, que tinham morrido, e em Bart, Jeff, Bob e Phil, que estavam doentes. Com 11 anos de epidemia, parecia que ninguém sobreviveria à Aids.

Eu tinha tentado engravidar de um amigo hétero, mas isso terminou quando ele conheceu uma mulher e ficou noivo dela. Vários anos antes, meu amigo gay Paul realmente havia me perguntado se eu queria ter um filho com ele, mas ele morava e trabalhava no Japão e as viagens que fazia eram para o Rio de Janeiro, para visitar um novo namorado. Com tantos amigos doentes, mortos, indisponíveis ou no exterior, eu não tinha mais a quem pedir. Estava juntando forças para a única opção que me restava: um doador anônimo em um banco de sêmen.

Quando me aproximei de Andrew, ele me cumprimentou com um sorriso caloroso. Tinha chegado a Manhattan na noite anterior, depois de dirigir desde San Francisco para começar a trabalhar como professor em uma escola particular em Manhattan. Depois do café na igreja, eu o levei até um lava-jato para limpar seu carro e então ele me levou para casa. Quando desci na minha esquina, tinha sentimentos tão confiantes e calorosos sobre ele que a pergunta brotou numa explosão: "Você pensaria em ter um filho comigo?"

Foi uma coisa louca e impulsiva, e considerei um sinal de nossa ligação imediata o fato de que Andrew não riu nem pareceu assustado, mas simplesmente olhou fixo para mim e disse "Sim".

Eu senti uma onda de felicidade. Então começamos nossa estranha sedução, uma corte que não tinha a ver com sexualidade ou casamento, mas de todo modo envolvia muitas das mesmas preocupações: compatibilidade, atração, confiança, dedicação.

Em nossa primeira saída fizemos o que as pessoas fazem normalmente: trocamos histórias de vida. Eu lhe contei que apesar de estar há muitos anos nos EUA e de ter sotaque americano era inglesa, e que meus pais cresceram na mesma cidadezinha no norte da Inglaterra. Então ele começou a falar com sotaque inglês. Está zombando de mim?, pensei. Ou é maluco?

Mas não: Andrew também era inglês. Como eu, ele amava os dois países, ia com freqüência à Inglaterra e sentia-se dividido sobre qual era seu lar.

Um inglês! Antes de perceber que eu era gay, sempre havia pensado que me casaria com um conterrâneo. Então, com uma expressão séria, ele disse que queria fazer um pedido. Rezei para que não fosse algo que eu não pudesse fazer, como lhe dar a custódia conjunta.

"Eu não queria ter só um filho", Andrew disse. "Gostaria de ter pelo menos dois, para que façam companhia um ao outro."

Abrindo um grande sorriso, eu lhe disse que queria três, e contei os nomes que tinha escolhido dez anos antes.

"James, Christopher, Kate", Andrew repetiu. "Lindos nomes."

Eu lhe disse que não pediria nada dele, nem dinheiro, nem grandes compromissos a não ser participar da vida de nossos filhos da maneira que ele quisesse.

"Mas eu gostaria de ajudar nas despesas", ele disse. "E preciso de alguém a quem transmitir a prata da família."

Eu tinha encontrado o pai de meus filhos.

Quanto mais tempo eu passava com Andrew, mais gostava dele. Ele tinha um amplo conhecimento de teatro, música e arte, grande curiosidade e um alto nível de energia. Era gentil, com um dom para a amizade. Eu gostei dos amigos dele e meus amigos gostaram dele. Se ele fosse mulher, eu teria me apaixonado. E na verdade estava me apaixonando como pai dos meus filhos.

Andrew não era perfeito. Uma borboleta social, estava sempre atrasado, e quando dirigia tirava os olhos da rua durante longos intervalos. Mas eu imaginei que poderia lidar com sua sociabilidade e seus atrasos e esperei que a paternidade melhorasse seu modo de dirigir.

Minha maior preocupação, no entanto, era que Andrew era novo em Nova York, um romântico e um homem livre. Sempre que íamos jantar ou ao cinema eu via homens que o olhavam, e ele devolvia os olhares. Eu sabia que ele se expunha a ameaças sexuais e sentia vontade de gritar: "Não ponha em risco nossa oportunidade de ter filhos e a sua vida em troca de sexo casual!" Mas eu não era seu namorado, nem mulher, nem mesmo uma velha amiga. E temia que se interferisse em sua vida amorosa ou o forçasse a ser seguro ele poderia se sentir pressionado demais e eu saísse perdendo.

Meus temores me levaram a reconsiderar Paul, meu amigo que morava no Japão. Até onde eu sabia, ele não era promíscuo. De todos os meus amigos, eu podia contar que ele sobreviveria a essa epidemia. Eu me perguntava se de alguma forma ele e eu conseguiríamos superar a distância e as viagens. Mas afinal meu coração não estava em Paul. Eu queria Andrew. Eu era louca por Andrew.

Na noite de Halloween, Andrew e eu assistimos ao desfile no Village e então jantamos em um restaurante mexicano. Ele tinha convidado um homem chamado Miguel, um brasileiro com quem tinha feito sexo alguns meses antes. Miguel era encantador e falava um inglês excelente. E, segundo Andrew, tinha um namorado que me conhecia.

Afinal esse namorado era Paul. Eu fiquei atônita.

A coincidência ao mesmo tempo me surpreendeu e pareceu banal. Um dos meus amigos disse que só há 300 gays no mundo; os outros são feitos com espelhos. E foi assim com Andrew e eu, eu e Paul, Paul e Miguel, Miguel e Andrew, em um círculo contínuo internacional.

Perguntei a ele como estava Paul, mas Miguel pareceu distante e agitado. Quando Miguel foi ao banheiro, perguntei a Andrew o que havia de errado.

Ele desviou o olhar. "Paul está com Aids."

"O quê?", eu disse, sentindo o medo me invadir.

"Miguel não sabia. Ele encontrou o remédio para Aids na mala de Paul."

Paul havia mentido para Miguel. E havia mentido para mim por omissão. Ele tinha dormido com Miguel e Miguel tinha dormido com Andrew...

Senti como se eu fosse desmaiar. Miguel voltou do banheiro e ele e Andrew começaram a conversar, mas foi como se uma bolha de vidro tivesse caído sobre mim. Olhei para Andrew e só consegui ver o vírus mortal. Tive uma visão de seu rosto saudável secando diante dos meus olhos até que o último pedaço de carne tivesse se transformado em osso.

Não consegui mais suportar o temor de que a Aids pudesse devastar nossas vidas e a vida dos filhos que poderíamos ter juntos. Até continuar nossa amizade era doloroso demais. Então, depois desse jantar, me afastei de Andrew. Não tive coragem de lhe dizer por quê; apenas parei de retornar seus telefonemas.

Alguns meses depois ele me surpreendeu, aparecendo no meu apartamento para me apresentar um homem pelo qual estava apaixonado. Por um breve momento esperei que ele e eu ainda pudéssemos ter nossa família. Em seis meses, se os testes mostrassem que ele era soronegativo, seu sêmen em quarentena seria seguro e talvez ele se tornasse monogâmico com seu novo namorado.

Mas eu só conseguia pensar que três anos antes Paul havia se sentado naquele mesmo sofá e perguntado se eu consideraria ter filhos com ele. Eu tinha pensado que ele fosse seguro, mas agora sabia que nada era seguro.

Conforme os anos passaram, eu não me permiti pensar em Andrew. Mas quando encontrei aquela foto nossa em Cape Cod todos os meus sentimentos reprimidos de amor, medo e tristeza afloraram. Eu tinha de saber o que havia acontecido com ele. Digitei seu nome no Google, rezando para que não encontrasse um obituário.

Juntando as informações que surgiram, eu soube que ele tinha voltado para a costa oeste e era um profissional importante em sua área. Além disso, continua com o homem que me apresentou naquela tarde há muito tempo em meu apartamento.

Eu tenho três filhos que foram criados com sêmen do mesmo doador anônimo. Em cinco anos, quando Katie fizer 18, ela poderá contatá-lo, se quiser. Conhecer seu doador talvez seja melhor do que não conhecê-lo, mas não será a mesma coisa que ter um pai verdadeiro e presente durante a infância.

Eu amo meus filhos como eles são, e não mudaria nada. A julgar por partes deles que só podem ter vindo do doador, estou certa de que ele é um homem incrível. Mas quando me lembro daquela época em Nova York —as amizades intensas, a morte, a perda, a possibilidade de vida— penso como gostaria que Andrew fizesse parte de nossas vidas e que nós fizéssemos parte da dele. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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