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04/11/2007

Cinema: fiz por causa do homenzinho dourado

The New York Times
De David Carr
Fãs de cinema sérios tendem a considerar o Oscar como um show secundário —de classe inferior e com pouca relação com cinema de qualidade. Os filmes importantes, segundo a convenção, não vestem roupa reveladora nem desfilam por tapete vermelho, correndo o risco de um afago de Isaac Mizrahi.

Phil McCarten - 10.10.2007/Reuters 
'E o Oscar vai para...?' É grande a chance de ser para um filme feito para ganhá-lo

Mas a crescente tendência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de indicar e votar em filmes ambiciosos e arriscados —filmes que residem fora da floresta dos grandes sucessos dos estúdios— sugere que o bacanal anual na verdade estimula trabalhos importantes.

Em um negócio que visa quase sempre o dinheiro, o apelo à vaidade —a chance de obter o prêmio mais cobiçado em quase qualquer setor— gerou o chamado filme de Oscar, um filme voltado para adultos e que estréia no final do ano, visando ter uma chance de obter o prêmio. A atual temporada está cheia de tais lançamentos: "Desejo e Reparação", "Jogos do Poder", "The Diving Bell and the Butterfly", "Into the Wild", "Lars and the Real Girl", "Michael Clayton", "Onde os Fracos Não Têm Vez", "There Will Be Blood" e muitos outros.

A esperança de conquistar o Oscar sem dúvida influenciou a decisão dos executivos de aprovar estes filmes, que não exatamente atrairão hordas de adolescentes para as salas de cinema.

Isto não quer dizer que, não fosse o sonho de estatuetas douradas, alguns destes filmes não teriam sido feitos. Apenas significa que mais deles chegam a um número significativo de salas e o fazem com orçamentos e astros que podem resultar em grandes filmes. Se o conceito for verdadeiro —pessoas de dentro da indústria dizem que a palavra "Oscar" aparece nas propostas de filmes sérios tanto quanto conjunção "e" e o artigo "a"—pessoas que se importam com filmes sérios poderão deixar de ir à maratona de documentários iranianos em 24 de fevereiro e reunir alguns amigos e guloseimas para assistir à festa do Oscar do ano que vem, com Jon Stewart como apresentador.

Seria bom encontrar um pote de estatuetas douradas no final desta temporada em particular, porque após as saudáveis bilheterias de verão a situação anda brutal. Filmes sérios de todo o tipo colidiram e ruiram na disputa pelo público. A presença de tantos filmes é ótima para o público, mas os péssimos números financeiros serão melhor digeridos se as produções estiverem na disputa pelo Oscar, o tipo de reconhecimento que pode dar uma força aos filmes para ainda terem chance de recuperar seus custos.

Conceito + astros + marketing brutal = esperança de retorno
O sistema dos estúdios, com uma necessidade de apelo para uma grande quantidade de pessoas com grande resultado de bilheteria no fim de semana de estréia, geralmente não leva a grande cinema. Mas quando a hidráulica do prestígio é introduzida na equação, coisas estranhas e maravilhosas podem acontecer. Atores abrem mão de grandes salários, diretores trabalham por menos e com menos dinheiro e os estúdios empregam dinheiro e promoção em filmes com perspectivas financeiras limitadas. Atores, produtores e diretores sabem que no final, seus obituários não mencionarão sua arrecadação de bilheteria. Os Oscars, ao reconhecerem à força a excelência artística, ajudam as pessoas a acessarem sua melhor natureza.

"Os filmes do Oscar podem ser o tipo de contramedida que pode produzir inovação, filmes que abrem novos rumos e apontam o caminho para o futuro", disse David Poland, do site Movie City News (moviecitynews.com).

Fazer um filme é um empreendimento coletivo complicado e tentar fazer um que contenha um assunto difícil —os indicados para melhor filme de 2005 tratavam de jornalismo, homofobia, racismo e terrorismo— pode ser árduo. Ninguém foi expulso de um estúdio por fracassar em apoiar, digamos, um tríptico multilíngüe sobre os caprichos da comunicação humana, como "Babel", um filme que a Paramount Vantage apoiou no ano passado para uma indicação de melhor filme. John Lesher, presidente da empresa, a divisão especializada da Paramount, disse que o filme foi feito porque era uma boa idéia, não porque poderia receber prêmios.

Mas assim que "Babel" entrou na disputa, "ajudou a rotular o filme", ele disse. "Se trata menos de produzir um filme de prestígio e mais dos atores quererem fazer um bom trabalho, além dos grandes sucessos de bilheteria. As melhores carreiras e mais interessantes conseguem fazer ambos."

E se a geração de grandes retornos de bilheteria fosse a única consideração, quantos trabalhos veríamos de Philip Seymour Hoffman, o antiastro de cinema que dificilmente se enquadra no padrão dos estúdios de ator com o qual o público se relaciona, mas é um dos melhores atores do planeta e conquistou o Oscar de melhor ator por "Capote", de 2005? Nesta temporada ele está presente em "Before the Devil Knows You're Dead" e "The Savages".

"Pense em quantos projetos são feitos porque as pessoas que os apóiam pensam, esperam ou sonham que serão filmes premiados com Oscar", disse Sasha Stone, uma blogueira de longa data que é responsável pelo Awards Daily (awardsdaily.com).

"A resposta neste ano, e na maioria, é muitos." Grande parte do apetite por Oscars vem dos próprios atores. Depois que Halle Berry revelou muito de si mesma em "A Última Ceia" para conquistar o Oscar de melhor atriz em 2001, e Charlize Theron desapareceu sob a maquiagem em "Monster —Desejo Assassino" com resultado semelhante na premiação de 2003, os atores perceberam que mais do que nunca, abrir mão de um grande cheque a curto prazo para uma participação em um filme de qualidade pode levar a credibilidade a longo prazo e talvez papéis maiores no futuro.

"Atores e diretores dizem a palavra para seus agentes, e seus agentes dizem a palavra para convencê-los a fazer um filme", disse Mark Gill, executivo-chefe da Film Department, uma nova produtora independente. "Pode não ser o sol, mas certamente é a lua, com uma influência gravitacional significativa."

Executivos da indústria cinematográfica dizem que o Oscar se tornou parte do vocabulário dos acordos, com contratos que oferecem bônus por indicações e prêmios, chegando até mesmo a detalhes específicos sobre a campanha para a premiação em apoio ao filme. E outro tipo de cálculo financeiro entre em cena juntamente com alguns dos novos membros da indústria.

"Há muito dinheiro novo entrando em nossa indústria", disse David T. Friendly, que recebeu uma indicação no ano passado como produtor de "Pequena Miss Sunshine". "Grande parte destes investidores já fizeram suas fortunas. Então do que estão atrás? Muitos deles estão tentando fazer filmes que façam a diferença e filmes que lhes concedam aquele grande prêmio."

E digam o que quiserem sobre os Oscars, não há forma garantida de apostar no processo da Academia fora encontrar grandes diretores e lhes conceder os recursos para fazerem filmes ambiciosos. Os cínicos e pessoas de fora gostam de sugerir que os membros da Academia são distantes demais do mainstream cultural para refletir sobre o melhor do cinema contemporâneo. Mas a análise das escolhas para melhor filme nos últimos anos sugere que nem sempre jogam de forma segura. Em 2005, "Menina de Ouro" saiu do nada para vencer, e "Crash —No Limite" tomou o mesmo caminho em 2006. Goste deles ou os odeie, eles ainda assim representam visões plenamente realizadas que não tinham nada a ver com venda de brinquedos.

O atrativo do Oscar é precioso precisamente por haver poucos deles —um melhor filme, um melhor ator, um melhor atriz— e porque o prêmio mantém uma integridade fundamental. O processo da Academia, apesar de todos seus excessos, ainda tem grande peso na indústria, em grande parte por representar a vontade dos 5.800 membros de todas as suas áreas, tanto ativos quanto aposentados.

"Muitos de nós na Academia encaramos nossa filiação como uma espécie de responsabilidade fiduciária", disse Robert Shaye, co-executivo-chefe da New Line Cinema. "Nos é perguntado o que queremos que o mundo veja de nossa indústria, e isto inspira respeito e até mesmo certa admiração por parte daqueles que aceitam a responsabilidade."

Certamente, há ultrajes ocasionais —poucos argumentariam olhando para trás que "Dança com Lobos" é um filme melhor do que "Os Bons Companheiros", como fez a Academia em 1990 —mas as coisas começaram a mudar em meados dos anos 90, mais especialmente em 1996. Foi quando quatro filmes pequenos —"O Paciente Inglês", que venceu, "Fargo —Uma Comédia de Erros", "Segredos e Mentiras" e "Shine —Brilhante"— foram finalistas da categoria melhor filme, juntamente com o único filme de grande estúdio, "Jerry Maguire —A Grande Virada". E sob Harvey Weinstein, a Miramax provou que uma divisão especializada, apesar de que com o apoio da Disney, poderia correr por fora e vencer todas, como fez com "Shakespeare Apaixonado" na premiação de 1998.

James Schamus, executivo-chefe da Focus Features, a divisão especializada da Universal, apontou que muitos dos atuais membros da Academia amadureceram profissionalmente nos anos 60 e 70, durante uma explosão de cinema ambicioso. Segundo ele, a tendência deles é de assumir riscos artísticos.

"A Academia se retirou do popular em muitas de suas escolhas nos últimos anos porque muitas das pessoas que estão votando possuem o espírito rebelde daqueles tempos", disse Schamus, cujas ofertas para esta temporada do Oscar incluem "Desejo e Reparação" e "Lust, Caution" de Ang Lee.

"Mas não há forma certa de fazer com que isto aconteça. Não é possível colocar o carro à frente dos bois. Todos nós temos sonhos de segurar a estatueta e agradecer todas as pessoas, mas é preciso realizar o trabalho em um grande filme que tenha sucesso de uma forma certa. E isto não é simples."

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