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04/11/2007

"Os mais velhos sempre dormem pior que os mais novos" e outros mitos do envelhecimento

The New York Times
Gina Kolata
Como qualquer pesquisador do sono sabe, perguntar aos mais velhos é a maneira mais eficaz de se ouvir queixas sobre a hora de dormir.
"As pessoas mais velhas são, sem dúvida, as que reclamam mais sobre o sono", diz Michael Vitiello, pesquisador dos distúrbios do sono que também é professor de psiquiatria e de ciências do comportamento na Universidade de Washington.

E por muitos anos, os cientistas que estudam o sono acreditavam que era simples assim - o sono começa a se deteriorar ao final da meia idade e a partir daí vai ficando cada vez mais conturbado. Parecia ser fato tão óbvio que poucos se atreveram a questionar esse saber predominante.
Mas agora uma nova pesquisa está levando muitos especialistas a uma revisão de seus pensamentos. Para grande surpresa dos pesquisadores, agora parece que o sono não muda tanto assim depois dos sessenta anos. E constata-se que noites de sono ruim não acontecem por causa do envelhecimento, mas principalmente por causa de doenças ou dos remédios usados nos tratamentos.

"Quanto mais distúrbios os adultos tiverem, pior será o sono deles", segundo Sonia Ancoli-Israel, professora de psiquiatria e pesquisadora dos distúrbios do sono na Universidade da California, em San Diego. "Quando examinamos adultos mais velhos que têm muito boa saúde, verificamos que eles raramente têm problemas com o sono."

E novos estudos indicam que o mau sono pode resultar numa saúde ruim. Pelo menos no que diz respeito a dor, causa freqüente do sono interrompido, uma noite intranqüila pode piorar a sensação no dia seguinte. E como a dor aumenta, o sono pode ficar ainda mais difícil - um ciclo vicioso comum em pessoas com problemas que tendem a afligir os mais velhos, como dores nas costas e artrite..

Essa nova visão do sono surgiu a partir de duas linhas paralelas de pesquisa. Na primeira, perguntava-se sobre os hábitos do sono quando pessoas saudáveis envelheciam. E na segunda linha de pesquisa buscava-se descobrir a relação entre o sono e a dor.

Para descobrir o que acontece no envelhecimento, alguns pesquisadores, incluindo Vitiello, observaram pessoas mais velhas que não apresentavam problemas de sono. Na verdade era um grupo bem amplo - quase metade das pessoas com mais de 65 anos. Será que essas pessoas de alguma forma percebiam mudanças no sono relacionadas ao avançar da idade?

Não percebiam nada de significativo. Mas o sono delas parecia ser diferente do que ocorria no descanso entre os jovens - era um sono mais leve, mais freqüentemente interrompido por rápidos despertares, e mais curto, num tempo entre meia hora e uma hora. Vitiello considerou que as mudanças no padrão do sono relativas ao avançar da idade poderiam não ser propriamente um problema em si. Algum outro fator fazia as pessoas reclamarem de seu próprio sono.

Vitiello e seus colegas cientistas também fizeram perguntas sobre o que havia ocorrido no sono dessas pessoas ao longo do seu ciclo de vida. Há muito tempo se sabia que o sono vai mudando com o tempo, mas até então ninguém havia estudado de maneira sistemática quando exatamente essas mudanças ocorriam e como ocorriam entre pessoas saudáveis.

Analisando 65 estudos sobre o sono, incluindo o que ocorria com 3.577 indivíduos saudáveis com idade entre 5 a 102 anos, os pesquisadores tiveram mais uma surpresa. A maior parte das mudanças nos padrões de sono ocorreram quando as pessoas tinham entre 20 a 60 anos. Quando comparados a adolescentes e jovens adultos, indivíduos saudáveis de meia idade e pessoas mais velhas dormiam de meia hora a uma hora a menos por noite, acordavam durante a noite com uma freqüência um pouco maior e o sono delas era mais leve. Mas após os 60 anos, registrava-se pouca mudança no padrão de sono, pelo menos entre as pessoas que eram consideradas saudáveis.

E mesmo com a mudança do sono durante a vida adulta, muitas das mudanças foram sutis.

Pessoas de meia idade e os mais velhos, por exemplo, não apresentavam uma dificuldade maior em pegar no sono. A única mudança no que diz respeito à chamada latência do sono surgiu quando foi comparada em dois extremos, aos 20 e aos 80 anos. As pessoas da faixa dos 80 anos levavam em média 10 minutos a mais para pegar no sono.

Ao contrário do que esperavam, os pesquisadores não encontraram aumento na sonolência diurna entre pessoas saudáveis de idade mais avançada. E o envelhecimento também não afetou o tempo que as pessoas levam para começar a sonhar depois que adormecem. Em vez disso, a maior mudança foi no número de vezes que as pessoas acordavam depois de terem adormecido.

Jovens adultos saudáveis dormem durante 95% da noite, segundo Donald Bliwise, pesquisador do sono na Emory University: "Eles adormecem e só acordam quando o alarme dispara."

Quando chegam aos 60 anos, pessoas saudáveis dormem durante 85% da noite. O sono deles é interrompido apenas por rápidos momentos de vigília, que tipicamente duram de três a 10 segundos. "Há um certo aspecto do sono que não será tão bom como o dos tempos em que a pessoa tinha 20 anos", segundo Bliwis, que acrescenta: "Quando isso ultrapassa a barreira do conforto e se transforma numa queixa significativa é que é difícil de dizer."

Segundo Bliwis e outros especialistas, os verdadeiros problemas de sono ocorrem mesmo quando as pessoas apresentam uma das condições que as levam a acordar durante a noite, como a apnéia do sono, dores crônicas, síndrome de pernas inquietas ou problemas urinários. Isso, é claro, se encaixa na descrição de muitas pessoas de idade.

"A questão de se obter um sono consistente na velhice é bem ampla", segundo Bliwise. "Acaba-se perguntando - Afinal de contas, o que é normal? O que eu devo esperar?"

A nova fronteira no campo das expectativas, e sobre o que fazer com elas, envolve estudos sobre a relação do sono com a dor. Não é novidade que a dor pode interromper o sono. Mas o fato novo é que a falta de sono pode aparentemente aumentar a sensação da dor.

Michael T. Smith, diretor de treinamento e pesquisa do programa de medicina comportamental do sono na Johns Hopkins School of Medicine, chegou a essa conclusão analisando o sono de jovens saudáveis. Um grupo dormia normalmente durante oito horas no hospital. Outro grupo era acordado a cada hora por uma enfermeira, mantido em alerta durante 20 minutos. O padrão de sono deles foi estabelecido para reproduzir as condições fragmentadas do sono de pessoas mais velhas. A um terceiro grupo era permitido apenas quatro horas de sono ininterrupto.

Comparando o segundo e o terceiro grupos, foi possível a Smith discernir as causas dos problemas que surgem a partir da fragmentação do sono - mas ocorriam por causa do pequeno total de horas dormidas ou por conta da natureza interrompida do sono?

O cientista descobriu que o sono fragmentado levava a sérios agravamentos da dor no dia seguinte. Os indivíduos sentiam dor com mais facilidade, se tornavam menos capazes de disfarçá-la e até mesmo passaram espontaneamente a ter leves dores de cabeça e nas costas.

Timothy Roehrs, diretor do centro de pesquisas sobre os distúrbios do sono no Hospital Henry Ford em Detroit, também descobriu que jovens saudáveis tornaram-se intensamente sensíveis a dor após uma noite de sono fragmentado.

Passar a dormir mais, conforme Roehrs descobriu, apresentava o efeito oposto. Suas cobaias eram jovens saudáveis que diziam ter sonolência crônica durante o dia, por não conseguir ter horas de sono suficiente à noite. Roehrs fez com que eles ficassem na cama 10 horas por noite. O sono extra, constatou o cientista, reduziu a sensibilidade deles a dor da mesma forma que ocorreria se houvesse ingestão de um comprimido de codeína.

Agora, segundo Michael T. Smith, ele e outros cientistas mudaram significativamente de idéia a respeito da relação entre distúrbios do sono e envelhecimento.

É claro, o cientista reconhece, que o sono é diferente entre pessoas de 20 anos e pessoas de 70 anos. Mas, constata que "não é exatamente normal passar a ter distúrbio clinico de sono quando se envelhece." Marcelo Godoy

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