UOL Notícias Internacional
 

05/11/2007

A vida no espaço de um mochileiro orbital: muito trabalho, alguma brincadeira e muitos e-mails

The New York Times
John Schwartz
Clayton Anderson é uma espécie de mochileiro orbital. Quando terminar a missão do ônibus espacial Discovery, Anderson - que desde o mês de junho vive na Estação Espacial Internacional - finalmente vai pegar uma carona para casa. Já Daniel Tani, que viajou com o restante da tripulação da Discovery na semana passada, vai ficar por lá em rotação na estação.

Na órbita terrestre, Anderson trabalhou na estação e caminhou pelo espaço, chegando a empurrar para fora da estação um container de amônia do tamanho de uma geladeira, com quase 700 quilos, destinada a queimar na atmosfera. Ele também trouxe sua amigável sensibilidade cômica para animar o laboratório orbital, promovendo concursos diários de cultura inútil que muitas vezes incluíam perguntas sobre o Nebraska, seu Estado natal, desafiando os colegas a terminar as piadas. (Exemplo: Qual é a diferença entre rosbife e sopa de ervilhas? A resposta em inglês é "Anyone can roast beef", algo como "Qualquer um pode assar o bife".

Perto do fim de sua jornada no espaço, ele concordou em responder a algumas perguntas, via e-mail:

NASA/The New York Times -17.jun.2007 
Clayton Anderson trabalha no módulo Destiny na Estação Espacial Internacional

NYT - Como foi a experiência de passar tanto tempo confinado num espaço relativamente tão pequeno?
Clayton Anderson -
Surpreendentemente não tenho reações de claustrofobia. O tamanho da cabine equivale ao de uma casa de três dormitórios, e contando com a típica tripulação de três membros chega a ser um espaço amplo onde se pode encontrar uma certa privacidade, se for necessário!

NYT - Alguns críticos da agência especial dizem que o programa só está promovendo órbitas circulares a pequena distância da Terra. Afinal, o que se pode dizer para os contribuintes que financiam o programa sobre a importância da estação?
CA -
Nossa tripulação tem feito pesquisas científicas de valor a bordo da estação; nada que se possa aplicar imediatamente mas ainda assim são experiências relevantes. Estamos testando mecanismos de combustão para podermos criar melhores detectores de fumaça na estação espacial, e o que resultar desses avanços um dia estará em nossos lares. Estamos trabalhando em novas tecnologias de monitoramento da atmosfera, que um dia poderão ajudar os mineradores a avaliar de maneira rápida e precisa a composição da atmosfera lá na profundeza das minas. Só leva um certo tempo para se poder aproveitar concretamente esses avanços.

NYT - Como conseguiu manter sua relação com a mulher e os filhos durante essa longa ausência?
CA -
A vida hoje em dia na Estação Internacional é consideravelmente melhor do que era no começo das jornadas tripuladas. Hoje em dia temos e-mails, vídeoconferências semanais com nossas famílias e a oportunidade de fazer ligações telefônicas para qualquer lugar do mundo através de um telefone via Internet! Acho que eu falo com minha mulher todos os dias e com meus dois filhos pelo menos duas vezes por semana. Isso faz uma grande diferença para mim, já que sou capaz de "acompanhar" suas atividades, problemas e evoluções. Também posso receber arquivos eletrônicos de casa com fotos, vídeos e música.

NYT - O que há de melhor em caminhar no espaço?
CA -
Ser uma pequena parte da ampla linha de montagem que ergueu a Estação Espacial Internacional é uma grande emoção para mim. E as vistas que pude vislumbrar quando estive fora da estação foram absolutamente espetaculares. Lembrarei para sempre da minha primeira atividade extraveicular e de nossa rota do noroeste ao sudoeste sobre os Estados Unidos. Sobrevoar Seattle, no Estado de Washington, e aí atravessar as Montanhas Rochosas e o Grande Lago Salgado no Utah montando no chamado braço robótico canadense enquanto empurrava quase 700 quilos de equipamento prestes a virar lixo espacial...é a vida que eu pedi!

NYT - Você tem exibido um teclado musical aí em cima. O que tem tocado e cantado por aí?
CA -
Eu tiro onda de compositor e venho tentando escrever uma nova canção. Só que meu tempo tem sido limitado, e não ando progredindo muito nesse campo.

NYT - Você teve náuseas como as que os astronautas enfrentam em seus primeiros vôos orbitais?
CA -
Tive sorte por não ter qualquer indício da tal "síndrome de adaptação no espaço". Quando atingimos a órbita terrestre e a gravidade zero na estação STS-117, já estava pronto para trabalhar, sempre perguntando quando era a hora de comer!

NYT - Que aspectos lhe surpreenderam na vida orbital?
CA -
Fiquei realmente surpreso em ver como tarefas simples podem se complicar sem a gravidade. Tentar escrever alguma coisa a mão, por exemplo, torna-se uma provação até seu cérebro finalmente "mapear" a situação. E trabalhar com instrumentos que eu sempre utilizei em terra firme também trouxe desafios na gravidade zero. Ser capaz de me "ancorar" foi um desafio e tanto, e é divertido dar várias voltas no ar enquanto tento usar uma chave mecânica!

NYT - Do que sentiu mais falta?
CA -
Bem, era certo que sentiria falta de minha mulher e dos meus filhos, assim como dos amigos mais próximos. Mas também sinto falta do "ar livre". Dos cheiros, de sentir a brisa, das mudanças de temperatura com o vento. São coisas que a gente simplesmente não consegue experimentar por aqui.

NYT - E como se sente sem tomar uma chuveirada por tanto tempo?
CA -
Nós nos mantemos bem limpos fazendo "banhos de espuma". Temos sabonete líquido e xampus que nos deixam bem limpinhos. Não cheguei a pensar numa chuveirada, mas agora que você mencionou...pensando bem, um longo banho quente cairia muito bem! Marcelo Godoy

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