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06/11/2007

No tango político, são as mulheres que conduzem

The New York Times
Alexei Barrionuevo

Em Buenos Aires, Argentina
O termo espanhol "equidad género", ou "igualdade de gênero", ganhou novo significado na semana passada, quando Cristina Fernández de Kirchner passou voando pelo teto de vidro na Argentina e se tornou a primeira mulher a ser eleita democraticamente presidente na história do país.

Mesmo com o empurrão que obteve da presidência bem-sucedida de seu marido, Néstor Kirchner, a ascensão de Cristina Kirchner de senadora e primeira-dama a líder deste país de 40 milhões de habitantes não deveria causar surpresa. Ao longo da última década a Argentina esteve à frente de uma onda de mulheres latino-americanas conquistando posições poderosas em seus governos.

No ano passado, os chilenos elegeram Michelle Bachelet, enquanto Portia Simpson-Miller era eleita a primeira mulher premiê da Jamaica. Lourdes Flores ficou no ano passado a um ponto percentual de romper a barreira de gênero no Peru, quando perdeu para Alan García no primeiro turno eleitoral de lá.

Andres Stapff/Reuters - 28.out.2007 
Cristina e Néstor Kirchner durante campanha presidencial na Argentina

As mulheres estão ascendendo aos cargos mais altos na América Latina em um momento em que os eleitores da região estão à procura de rostos novos para traçar novos modelos políticos e econômicos. Para uma região que ainda tenta estabelecer democracias estáveis após décadas de ditaduras e crises financeiras, mais mulheres estão despontando como opções para os eleitores ávidos para substituir os políticos tradicionais que fracassaram com eles repetidas vezes.

"As mulheres estão sendo eleitas como resultado da busca desesperada por renovação da elite política", disse Marta Lagos, diretora executiva da Barometro Latino, uma empresa de pesquisa com sede em Santiago, Chile. "Elas não são conhecidas como grandes líderes e, infelizmente, não estão ascendendo ao poder por mérito próprio, mas por romperem com o esquema tradicional dos líderes políticos."

Isto não vale muito para Cristina Kirchner, que foi escolhida em grande parte para assegurar a continuidade das políticas de seu marido. Mas certamente foi o caso de Bachelet, uma ex-exilada chilena e prisioneira política que prometeu mudanças que incluíam mais participação dos cidadãos.

Ainda assim, a ascensão delas ao poder ressaltou o fato de que ser uma mulher na América Latina está se tornando cada vez menos um obstáculo para se chegar a um posto superior. Alguns analistas vêem o recente sucesso das mulheres como parte de uma abertura mais ampla no cenário político para grupos não-tradicionais, que até recentemente seriam inelegíveis. Evo Morales na Bolívia, Alejandro Toledo no Peru e até mesmo Hugo Chávez na Venezuela prevaleceram na última década apesar de serem figuras de pele mais escura e carecerem da mesma formação educacional de seus tradicionais adversários brancos. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico com estudos apenas até a sexta série, também mostrou quão aberta a política se tornou nesta região.

"A ascensão daqueles que antes eram estranhos sinaliza uma ruptura das estruturas políticas tradicionais" na região, disse Michael Shifter, vice-presidente para política da Diálogo Interamericano, uma consultoria política em Washington.

Com a queda dos muros políticos, as mulheres estão preenchendo mais posições, se beneficiando de cotas agressivas de gênero e da percepção de que são menos suscetíveis à corrupção. A candidatura presidencial da senadora Hillary Rodham Clinton também aumentou as esperanças das mulheres na região, disseram analistas, ao reforçar a tendência.

Na Argentina, Cristina Kirchner, que descreve Hillary como seu ídolo, foi comparada a ela. Mas mesmo enquanto Cristina olhava para o norte em busca de inspiração, há partes da América Latina que foram mais bem-sucedidas do que os Estados Unidos na busca pela igualdade de gênero. As mulheres ocupavam 39% dos legislativos tanto na Argentina quanto na Costa Rica no ano passado, enquanto ocupavam apenas 16% das cadeiras do Congresso nos Estados Unidos, segundo a Diálogo Interamericano. E apesar da atual candidatura de Hillary Clinton, os Estados Unidos ainda não elegeram uma mulher presidente.

Cotas de gênero claramente fizeram uma diferença. Em 1991, apenas oito anos após sair de uma ditadura militar, a Argentina era o primeiro país latino-americano a instituir uma lei de cota de gênero na Câmara. Um entre três candidatos de cada partido deve ser uma mulher. Em 2001, uma lei semelhante foi imposta ao Senado.

Uma dúzia de países na região seguiu o exemplo da Argentina e aprovou leis semelhantes. No Equador, o percentual de mulheres no Legislativo cresceu de 15% para 25% com as eleições de 2006; em Honduras, o número aumentou de 5,5% para 23% após as eleições de 2005.

A experiência em outras partes do governo também abriu o caminho para as mulheres. Nove dos 22 ministros do Chile são mulheres, graças a Bachelet, que anteriormente serviu como ministra da Defesa e ministra da Saúde.

Mas a questão do gênero mal esteve presente na disputa eleitoral argentina, na qual os dois candidatos mais votados eram mulheres. Cristina mal citou o assunto até a noite da eleição, quando disse que sentia "uma enorme responsabilidade para com seu gênero".

Muitas eleitoras reagiram com olhares curiosos quando perguntadas se o gênero foi um fator em sua decisão. "É menos importante para mim o fato dela ser mulher do que ela sair da sombra de seu marido", disse Nora Robles, uma dona de casa de 58 anos de Lugano, uma cidade operária vizinha de Buenos Aires.

Algumas pesquisas sugerem que as eleitoras vêem as mulheres como menos corruptas porque freqüentemente são novatas políticas -uma reação, quase certamente, à corrupção desenfreada que marcou os regimes autoritários do passado dominados por homens. Mas recentemente alguns dos escândalos políticos mais sensacionais envolveram mulheres. Em junho, por exemplo, inspetores anti-explosivos argentinos descobriram US$ 64 mil em dinheiro escondidos em um banheiro do gabinete de Felisa Miceli, a ministra da economia na época.

Apesar de todos os ganhos, as líderes do sexo feminino são suscetíveis aos mesmos riscos políticos de qualquer líder -recriminação e duras reações a políticas fracassadas. Bachelet enfrentou dificuldades em seu primeiro ano, com um índice de popularidade entre os mais baixos dentre os líderes latino-americanos. Há poucas semanas ela atacou os críticos, os acusando de tentarem cometer "femicídio político".

Mas após a eleição de Cristina Kirchner na semana passada, Bachelet parecia destemida diante dos recentes desafios. "A integração das mulheres nos papéis de liderança veio para ficar."

* Pascale Bonnefoy, em Santiago, Chile, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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