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07/11/2007

A China está alcançando os EUA na produção de bilionários

The New York Times
David Barboza

Em Xangai, China
Os Estados Unidos possuem mais bilionários do que qualquer outro país: 415 segundo a última contagem da revista "Forbes".

O segundo lugar e se aproximando rapidamente? A China.

Há um ano, havia 15 bilionários na China. Agora há mais de 100, segundo a amplamente lida "The Hurun Report" e 66 segundo a "Forbes".

Diferente dos ricos americanos, os da China raramente são famosos, mesmo aqui. Bill Gates e Warren E. Buffett são conhecidos em todo mundo. Mas Yang Huiyan e Robin Li?

Mas quem são e o que decidem fazer -ou são autorizados a fazer- com seu dinheiro, assim como sua recente influência, terão conseqüências políticas e econômicas na China e provavelmente fora dela, disseram analistas.

"Eles poderiam começar a comprar empresas nos Estados Unidos", disse Chang Chun, um economista da China Europe International Business School, em Xangai, sobre os novos ricos da China. "Eles têm muita influência."

Apropriadamente, os novos bilionários da China estão construindo sua riqueza impressionante nas costas das empresas mais ricas das quais você nunca ouviu falar.

Graças à mania capitalista de investimento em ações que varre a China, as empresas públicas e privadas chinesas que estão lançando ações estão se transformando nas mais valorizadas do mundo -às vezes da noite para o dia.

Na segunda-feira, o primeiro dia que a empresa estatal de energia PetroChina listou suas ações na Bolsa de Valores de Xangai, sua valorização de mercado ultrapassou US$ 1 trilhão, superando a de qualquer empresa na história.

Os analistas estão céticos com a forma como as ações da China se valorizam, particularmente aquelas como as da PetroChina, com quantidades imensas de ações não negociáveis que pertencem ao governo. Mas no papel, ao menos, ela destronou a Exxon Mobil como a empresa mais valiosa do mundo.

De forma semelhante, a China Mobile é a empresa de telecomunicações mais valiosa do mundo. O estatal Banco Industrial e Comercial da China, um banco comercial que era quase insolvente há uma década, está valendo mais que o Citigroup.

E quando a Country Garden, uma construtora do sul da China, abriu seu capital em abril, sua oferta pública inicial foi maior que a da Google.

Na terça-feira, outra recém-chegada, a Alibaba.com, uma das maiores empresas de Internet da China, fez outra oferta de ações arrasa-quarteirão, levantando quase tanto quanto a Google e valorizando 193% em seu primeiro dia de negociação.

Mas muitos analistas argumentam que não há nada por trás dos valores elevados ou que as finanças obscuras das empresas impossibilitam saber seu verdadeiro valor. E se o mercado de ações da China passa por uma bolha, os novos bilionários desaparecerão quase tão rapidamente quanto surgiram.

"Muitas pessoas estão surpresas em quão rápido isto aconteceu", disse Jing Ulrich, um analista do JPMorgan. "Mas este é o poder dos mercados de capital. A riqueza de muitas pessoas se baseia em empresas recém-listadas."

Após quase uma década de mercado em baixa para as ações chinesas, os investidores daqui estão em clima de festa. O mercado de ações de Xangai teve alta de 400% em dois anos. A Bolsa de Valores de Hong Kong está batendo recordes.

O surgimento dos super-ricos é uma reviravolta dramática em um país que antes rotulava os inimigos do Estado de "ratos capitalistas".

Mas nos anos 80, Deng Xiaoping rompeu com o dogma maoísta dizendo, "enriquecer é glorioso", provocando uma corrida que produziu uma geração de ávidos empreendedores. Aqueles que são os bilionários obscuros importarão porque os super-ricos tendem a ganhar nome muito além de suas fronteiras. Eles devoram ativos globais. Eles mudam paisagens culturais com sua caridade.

Muitos analistas acreditam que os chineses são tão novos com este tipo de dinheiro que eles mesmos não sabem o que farão com ele, presumindo que dure.

Assim como a chuva de bilionários é motivo de orgulho, também é uma causa de preocupação potencial em um país nominalmente comunista. A renda per capita na China é de menos de US$ 1 mil por ano.

"Uma questão é a estabilidade social", disse Emmanuel Saez, um professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Na América Latina existia tamanha concentração de renda que os revolucionários quiseram redistribuí-la."

Talvez por este motivo, muitos empreendedores ricos chineses lutam para ficar de fora das listas de ricos. Além disso, as primeiras listas de ricos freqüentemente levaram a atenção indesejada, incluindo investigações e prisão para alguns por evasão fiscal ou acusações de corrupção.

Mas os tempos mudaram.

Com o boom da economia chinesa e os empreendedores sentindo uma idade dourada de riquezas em ações, todos parecem dizer as palavras "shang shi", oferta pública inicial de ações em chinês.

Entre os mais celebrados estão os jovens magnatas de Internet. Robin Li, o fundador de 38 anos do Baidu, que é chamado de Google da China, atualmente vale cerca de US$ 2,4 bilhões, o que o torna mais rico que Jerry Yang, da Yahoo. Ma Huateng, 36 anos, da Tencent, outra gigante de Internet, vale US$ 1,9 bilhão. E Jason N. Jiang, o fundador de 34 anos da Focus Media, vale US$ 1,1 bilhão.

Jiang cresceu em Xangai e estudou literatura antes de voltar sua atenção para administração enquanto estava na faculdade. Ele disse que começou vendendo publicidade em Xangai e então, em 1997, formou o que atualmente é a Focus Media com a idéia de colocar monitores transmitindo propagandas em elevadores, condomínios, supermercados e até mesmo nas esquinas.

Com a ajuda da Goldman Sachs e Credit Suisse, a Focus Media lançou suas ações em 2005 na Nasdaq -que valorizaram cerca de 800% em dois anos.

Mas pode ser a ambição, acima do dinheiro, pelo menos até o momento, que o motiva. "Eu quero que esta empresa seja o maior grupo de mídia -a maior empresa de mídia do mundo", ele disse em uma entrevista. "Eu quero que a Focus Media esteja em todas as partes do mundo."

Ele disse que trabalha das 8 horas da manhã até as 2 horas da madrugada e não se sente cansado. Ele também disse que não tem tempo para mais nada, incluindo gastar sua enorme fortuna.

Ele se mudou para uma casa melhor nos últimos anos, mas tem pouco tempo para praticar esportes e outras atividades. Ele é solteiro e trabalha durante o almoço em sua mesa, comprando uma refeição para viagem por US$ 2,50 quase todo dia.

"Eu considero isto típico", ele disse sobre os empreendedores de sucesso da China. Os especialistas chamam empreendedores como Jiang de a melhor esperança do país para inovação.

"Estes empreendedores jovens de 30 e poucos anos se tornaram bilionários e se tornaram modelos para outros", disse Chen Zhiwu, um professor de finanças da Universidade de Yale. "Eles energizaram totalmente os empreendedores chineses."

De fato, depois que a "Forbes" e a "The Hurun Report", uma revista de bens de luxo, publicaram recentemente suas listas concorrentes de ricos, o governo da província de Hunan, local de nascimento de Mao situada na região central da China, pareceu se queixar de que a província não estava devidamente representada.

O governo provincial de Hunan postou sua própria lista de ricos em seu site local, como se dissesse: as pessoas de Hunan também são grandes empreendedoras.

Enquanto a "Forbes" estima neste ano que existam 66 bilionários na China, Rupert Hoogewerf, editor da "The Hurun Report", já encontrou mais de 100 e, segundo ele, podem existir muitos mais.

Hoogewerf também disse que seis das 10 mulheres "self-made" mais ricas do mundo são da China, incluindo Zhang Yin, fundadora da Nine Dragons Paper, que coleta papel reciclado dos Estados Unidos e o transforma em caixas na China.

A pessoa mais rica na China, desde abril passado, também é uma mulher: Yang Huiyan da Country Garden, a construtora.

Yang, 26 anos, que não concedeu entrevista, é a Nº 1 em ambas as listas de ricos e facilmente a mulher mais rica na Ásia. Formada na Universidade Estadual de Ohio, ela vale cerca de US$ 16 bilhões, o que a torna mais rica que George Soros, Rupert Murdoch e Steve Jobs.

O pai dela, um construtor no sul da China, lhe deu grande parte da fortuna da família em ações, pouco antes da oferta pública inicial arrasadora da Country Garden em Hong Kong.

Fiéis à sua reputação de discrição, dos cerca de 15 bilionários contatados recentemente, apenas um, Jiang, concordou em ser entrevistado. Eles tendem a esconder seus bilhões, dizem amigos, às vezes com compras no exterior. Alguns ainda se gabam de ainda preferirem cortes de cabelo de US$ 2.

Mas suas histórias são notáveis. Huang Guangyu, 38 anos, cresceu em uma aldeia pobre no sul da China, onde ele e seu irmão começaram vendendo garrafas de plástico e jornais. Agora ele controla a Gome, uma das lojas de eletrônicos mais populares do país.

Li Ning conquistou três medalhas de ouro na ginástica nas Olimpíadas de Los Angeles em 1984. Posteriormente, ele fundou uma empresa de material esportivo, lançou suas ações e assinou um contrato com Shaquille O'Neal para um tênis. Atualmente Li é mais rico que Tiger Woods.

A ascensão do bilionário chinês é notável não apenas pela velocidade com que aconteceu -o país apenas se abriu para o capitalismo há 25 anos- mas porque aconteceu sem a ajuda de uma única marca global, nenhuma Sony ou Toyota. (O Japão tem apenas 24 bilionários.)

De fato, os mais ricos da China, em grande parte magnatas do setor imobiliário e manufatureiro, parecem mais concentrados em fazer sucesso dentro da China, não no exterior.

Este é o próximo desafio para os bilionários. E alguns já estão começando.

Shi Zhengrong estudou física e energia solar na Austrália antes de retornar à China em 2001 para iniciar a Suntech Power. Seis anos depois, a empresa de energia solar de Shi vale US$ 9 bilhões, com o preço de suas ações valorizando mais de 300% desde sua oferta pública inicial em dezembro de 2005.

Em uma entrevista no início deste ano na sede da empresa em Xangai, Shi insistiu que a energia solar terá um papel importante no desenvolvimento da China. E no final da reunião, ele sorriu e disse: "Algum dia esta empresa será tão grande quanto a Microsoft". George El Khouri Andolfato

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