UOL Notícias Internacional
 

07/11/2007

Mortes em incêndios revelam a infra-estrutura precária da Rússia

The New York Times
C.J. Chivers*

Em Moscou
Sergey Babayan estava preso. Minutos antes, fumaça tinha começado a sair pelas frestas da porta de sua sala de aula no Instituto de Governo e Administração Corporativa de Moscou.

Não houve nenhum outro alerta, nem mesmo um alarme, ele lembrou. Agora a fumaça enchia a sala e as chamas tomavam o corredor, onde a porta de aço para a única saída de incêndio estava trancada. A única saída era pelas janelas, quatro andares acima da rua.

Os estudantes se acotovelavam nos peitoris e gritavam. Uma jovem subiu na beirada e caiu, batendo contra um teto dois andares abaixo. Respirando com dificuldade, Babayan, 17 anos, rastejou para fora e se agarrou a um aparelho de ar condicionado.

James Hill/The New York Times 
O que restou da sala de computadores de instituto após incêndio de outubro

Lá, ele disse, ele viu sua chance: um cabo da espessura de um cigarro pendurado nas proximidades que descia do teto. Ele o agarrou e desceu -uma sensação, a julgar pelos seus ferimentos, como descer escorregando por uma faca. Outros estudantes e professores começaram a pular, se espatifando contra o solo. Até o momento 11 pessoas morreram em conseqüência do incêndio, incluindo cinco cujos corpos carbonizados foram encontrados na sala de aula depois que os bombeiros arrombaram a porta de incêndio trancada.

Em oito anos de governo do presidente Vladimir V. Putin, o governo russo encheu seus cofres de dinheiro e seus ministros de bravata, permitindo ao Kremlin reclamar um lugar no cenário mundial. O incêndio de 2 de outubro, e o grotesco quadro de desespero, ferimento e morte que o acompanhou, ressaltou a desordem persistente sob a ressurreição parcial da Rússia.

O respeito pela lei, a segurança e a saúde pública, assim como a capacidade de governar das autoridades russas, ainda estão muito aquém do ego restaurado do Kremlin, como evidenciado pela escala com que a população russa sofre com incêndios.

Mais de 17 mil pessoas morreram em incêndios em 2006 na Rússia, quase 13 para cada 100 mil pessoas. Isto representa mais de 10 vezes as taxas típicas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, segundo estatísticas do governo russo, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Geneva Association, uma organização suíça que analisa estatísticas internacionais de incêndios.

Nos primeiros oito meses deste ano, a taxa de mortes por incêndio na Rússia caiu em cerca de 10%, segundo o governo, mas permanece assustadoramente alta. Recentes processos judiciais, assim como entrevistas com sobreviventes de incêndios e autoridades de segurança pública, ilustram muitos dos motivos.

O número de mortes -pairando neste ano em cerca de 40 pessoas por dia- é resultado de muitos fatores. Entre eles estão os envelhecidos sistemas de aquecimento e elétrico dos prédios públicos e lares rurais; equipamento de combate a incêndio dilapidado; e amplas violações dos códigos de segurança.

Os altos índices de alcoolismo e fumo também são fatores, disseram oficiais do corpo de bombeiros, porque pessoas intoxicadas freqüentemente são incapazes de escapar de incêndios, ou os provocam inadvertidamente.

"Há o problema e comportamento dos bêbados", disse o general Alexander P. Chupriyan, vice-ministro dos serviços de emergência da Rússia, em uma entrevista no início deste ano. "Eles não apenas morrem, mas várias pessoas inocentes morrem com eles."

Nas principais cidades da Rússia, as ruas congestionadas -por causa do crescente número de automóveis em circulação e planejamento urbano desigual- reduziram o tempo de resposta dos bombeiros. Nas áreas rurais, as grandes distâncias entres os postos dos bombeiros causam um efeito semelhante, freqüentemente os impedindo de chegarem ao local antes de ser tarde demais, disseram oficiais dos bombeiros.

As camadas de materiais de repetidas reformas interiores nos prédios freqüentemente servem como combustível assim que um incêndio começa, disse um chefe dos bombeiros. Mesmo prédios novos com equipamento de segurança moderno às vezes se revelam armadilhas mortais.

"Nós podemos usar e instalar sistemas de monitoramento e combate a incêndio de topo de linha, mas ao mesmo tempo violar as regras e bloquear as rotas de fuga", disse Chupriyan. "Há exemplos demais."

Sergei V. Anikeev, o inspetor chefe dos bombeiros em Moscou, disse em uma recente coletiva de imprensa que furtos e negligência ampliam os riscos. Mesmo quando novos prédios têm equipamento de segurança instalado, ele disse, antes de um ano o equipamento costuma ser roubado ou é danificado.

A prevenção e combate a incêndios são problemas na Rússia desde o colapso da União Soviética. Uma dacha de propriedade de Putin foi destruída por um incêndio em 1996; ele posteriormente sugeriu que bombeiros mal preparados contribuíram para o prejuízo.

"Os bombeiros chegaram, mas logo ficaram sem água", ele disse em uma série de entrevistas publicadas em forma de livro em 2000. "O que você quer dizer com estar sem água? Há um lago inteiro aqui!' eu disse. 'Há um lago', eles concordaram, 'mas não há mangueira'."

De 1996 para cá houve melhora na capacidade de combate a incêndios, e o ligeiro declínio no número de mortes parece resultar em parte das mudanças promovidas pelo Ministério das Situações de Emergência russo, que é o responsável pelo combate aos incêndios no segundo mandato de Putin e é considerado um dos ministérios mais eficazes do governo.

O ministério conta com a colaboração de organizações ocidentais de combate a incêndio e tentou adotar normas que foram bem-sucedidas em outros lugares. Nos tempos soviéticos, por exemplo, unidades médicas faziam parte do Ministério das Situações de Emergência e não trabalhavam de forma estreita com as unidades dos bombeiros, que faziam parte do Ministério do Interior.

Após estudar os corpos de bombeiros nos Estados Unidos, a Rússia combinou ambos os serviços sob o comando do ministério de emergências há cinco anos, e o número de vítimas fatais de incêndios começou a cair.

Sistemas de comunicação, assim como equipamento protetor para os bombeiros, também foram modernizados. Mas as autoridades do corpo de bombeiros disseram que o estado do equipamento varia muito. Muitas unidades em Moscou contam com novos carros fabricados no Ocidente. Mas nas regiões, e até mesmo em São Petersburgo, o equipamento costuma ser velho e em más condições.

Os oficiais dos bombeiros também disseram que os baixos salários -um bombeiro iniciante recebe cerca de US$ 400 por mês- atraem poucos candidatos, especialmente diante do aumento acentuado do custo de vida na Rússia no segundo mandato de Putin.

"Eu realmente invejo a Europa e os Estados Unidos, onde centenas de pessoas disputam uma vaga nos corpos de bombeiros", disse Chupriyan. "Isso não ocorre aqui."

Mas a eficácia dos esforços de reforma é limitada pelos problemas nacionais intratáveis que persistem ao longo do governo de Putin, incluindo a pandemia de corrupção e incompetência oficial, assim como um fraco judiciário.

Por exemplo, os inspetores de incêndio possuem bastante liberdade para lidar com as violações do código de incêndio, e esta autoridade freqüentemente é abusada, disse Elena Panfilova, diretora do escritório russo da Transparência Internacional, uma organização privada anticorrupção. "Praticamente ninguém segue as normas de segurança de incêndio na Rússia, mas os proprietários de imóveis e inquilinos negociam os subornos com os inspetores de incêndio", ela disse. "É comum aqui. Todo mundo sabe."

Exemplos nos últimos anos mostraram como os muitos fatores podem se somar.

Durante o cerco aos terroristas em uma escola pública em Beslan, em 2004, que terminou com um incêndio se espalhando pelo teto de um ginásio lotado de reféns, os primeiros caminhões dos bombeiros que chegaram quase não tinham água. Os moradores chamaram um caminhão de bombeiros privado de uma fábrica de vodca e no final combateram o fogo eles mesmos. O telhado ruiu; mais de 120 vítimas queimadas foram encontradas sob ele.

Um incêndio no ano passado em um banco em Vladivostok matou nove mulheres e queimou gravemente outras 20 pessoas; os investigadores disseram posteriormente que o banco tinha bloqueado suas saídas de emergência e não tinha extintores e nem alarmes. As equipes de resgate tiveram dificuldade para chegar até as vítimas aprisionadas porque o acesso estava bloqueado por carros estacionados ilegalmente. (Em setembro, a Justiça condenou cinco pessoas por negligência e violações do código de incêndio.)

No último fim de semana, um incêndio em um asilo em Tula matou 32 pessoas. Os bombeiros disseram que o asilo tinha sido reprovado em duas inspeções de incêndio neste ano, mas conseguiu permanecer aberto, além de não contar com alarme de incêndio. Quando os bombeiros foram avisados do fogo, eles disseram, as chamas já queimavam fora de controle há 30 minutos e muitos moradores estavam presos.

Um incêndio relativamente pequeno em dezembro passado, em um centro de tratamento de drogados em Moscou, matou 46 pessoas, muitas delas pela inalação de fumaça porque a saída estava trancada e as janelas contavam com barras para impedir os viciados de partirem sem permissão.

O coronel Ranat Yunisov, comandante da Unidade de Incêndio & Resgate Nº 55, que combateu o incêndio na clínica, descreveu as dificuldades extraordinárias enfrentadas pelos bombeiros, em parte por incompetência dos funcionários da clínica.

"Aqueles que deviam estar acordados estavam dormindo e alguns pacientes estavam drogados e não tinham condições de escapar", ele disse em uma entrevista. "E parte disto se deve à nossa mentalidade russa. Os funcionários não queriam demonstrar que havia um problema, então tentaram combater o fogo sozinhos, mas quando perceberam que era tarde demais, realmente já era tarde demais."

A unidade de Yunisov também combateu o incêndio no instituto. O prédio era uma armadilha, ele e outros dois oficiais dos bombeiros disseram. O quarto andar, onde estavam localizadas as salas de aula, não contava com sistema de alarme. Ele tinha duas escadas, mas o fogo irrompeu perto de uma. A outra estava inacessível devido à porta de aço trancada.

Houve uma inspeção em agosto, mas o inspetor determinou que estas violações não representavam uma ameaça à vida e o reitor do instituto não as sanou. Quando o incêndio teve início, o instituto não ordenou a evacuação e nem chamou os bombeiros, que disseram que souberam do incêndio por um telefonema de um transeunte.

As pessoas já estavam saltando das janelas antes dos carros dos bombeiros chegarem. Muitas confiaram seu destino a operários de construção que estavam nas proximidades, que tentaram pegá-los em lonas esticadas às pressas. O caminho dos bombeiros até o prédio foi atrapalhado por carros estacionados ilegalmente.

"Nós estávamos indignados e furiosos porque os bombeiros não erguiam suas escadas", disse Vladislav V. Yermikhin, que saltou, como uma bala de canhão, na lona aberta como uma rede. Ele fraturou o quadril e sofreu uma concussão. "Se não fossem os operários, teria sido muito pior."

Pelo menos 30 pessoas permanecem em hospitais com queimaduras e lesões nos membros por causa do incêndio. Três vítimas se queixaram em entrevistas de que seu sofrimento foi agravado, e o tratamento adiado, porque os veículos médicos eram poucos e demoraram a chegar. Quando chegaram, segundo elas, dezenas de pessoas que saltaram estavam se contorcendo ou inconscientes no chão.

Babayan, que escapou mas feriu gravemente suas mãos ao escorregar pelo cabo, disse que soube depois que a jovem que saiu primeiro pela janela não sobreviveu. "Ela provavelmente teria sobrevivido caso mais pessoas não tivessem pulado sobre ela."

* Michael Schwirtz contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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