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07/11/2007

O imitador de Chávez: um reacionário vestido de revolucionário?

The New York Times
Simon Romero
Em Valencia, na Venezuela
O presidente Hugo Chávez tem o seu próprio programa semanal de televisão no qual expõe as virtudes socialistas. A mesma coisa é feita por Luis Felipe Acosta Carlez, o governador de Carabobo, um Estado no norte da Venezuela que abriga um grande complexo de refinação de petróleo.

O presidente corteja os seus simpatizantes com gravações de boleros e outras músicas românticas. Acosta Carlez faz o mesmo.

A lista de similaridades é extensa, conforme admite Acosta Carlez com orgulho: as camisas vermelhas, o passado militar e assim por diante.

David Rochkind/The New York Times 
Governador Acosta Carlez visita projeto de habitação em construção em Valencia

"Chávez é o nosso líder máximo", disse Acosta Carlez, 50, em uma entrevista no seu gabinete no palácio do governo daqui, sentado sob um retrato do presidente, que é três anos mais velho que ele. "Eu o considero o meu pai", afirma. "O meu pai político".

Em meio a um crescente culto de personalidade que fez com que governadores e prefeitos de todo o país instalassem outdoors com fotos exibindo a reação calorosa entre eles e Chávez, o empenho excepcional com que Acosta Carlez adula o presidente representa um dilema para o governo da Venezuela: seria possível imitar excessivamente Chávez?

Isso pode depender de quem está imitando, mas alguns ativistas resolutos pró-Chávez daqui acham que sim. Eles se desentenderam diversas vezes com Acosta Carlez, alegando que este está subvertendo o estilo político do presidente ao reduzí-lo a políticas reacionárias associada à antiga elite rica.

Por exemplo, Acosta Carlez atraiu atenção nacional no último verão ao instalar aqui um outdoor com fotos de mulheres de biquíni acompanhadas da frase: "O incitamento do sexo leva ao estupro". Grupos de mulheres reclamaram de que ele estaria sugerindo que as mulheres estão pedindo para ser estupradas devido à maneira como se vestem.

Acosta Carlez retrucou que o seu objetivo com o outdoor foi reduzir o elevado número de crimes sexuais em Carabobo. Depois disso ele substituiu o outdoor por um outro que criticava a mídia. Abaixo de uma imagem composta por uma colagem de primeiras páginas de jornais do Estado, ele colocou a frase: "Escândalos causam terrorismo".

Esses incidentes ocorreram após um episódio de "Alo, mi Pueblo", o seu programa de televisão, no qual defendeu o direito dos revolucionários de possuir automóveis Hummer, que tornaram-se ícones da classe empresarial local. "Se ganhamos dinheiro, podemos fazer isso", justificou Acosta Carlez.

A reação a tais posições, tanto dos simpatizantes quanto dos críticos de Chávez, não tem sido boa. "O general Acosta Carlez é um bufão, e não um revolucionário", dispara Argenis Loreto, o prefeito chavista de um distrito de Valencia, a capital de Carabobo. ""Ele é um integrante da velha guarda que está se disfarçando de chavista".

Inabalável, Acosta Carlez tem implementado iniciativas que segundo ele são inspiradas em Chávez. No entanto, ele sente tanto prazer em demonstrar lealdade, que o próprio presidente parece pronto a repreendê-lo por exagerar na dose.

Depois que Chávez anunciou em janeiro que estava nacionalizando companhias telefônicas, petrolíferas e elétricas, Acosta Carlez divulgou a idéia de um decreto do seu governo no sentido de nacionalizar o Los Navegantes de Magallanes, um time de beisebol local.

"Não mexa no meu time", disse Chávez, um fã dos Magallanes, ao governador, em comentários na televisão. "Vá trabalhar em prol do socialismo".

Acosta Carlez, usando uma camisa polo Lacoste com listras vermelhas e um par de botas de caubói, disse que de fato se dedica a trabalhar em prol do socialismo desde o início do seu mandato, em 2005. Ele afirmou que está terminando o seu terceiro livro, com as suas ruminações a respeito "do amor e da revolução", e que tem o título provisório, "Socialismo Sem Precedentes do Século 21".

Guiando um visitante em um passeio pelas favelas mais pobres de Valencia em um comboio de veículos utilitários esportivos liderados pelo seu Nissan Armada blindado, ele falou sobre projetos habitacionais que está construindo para os pobres. Um outdoor com uma foto de Claret del Corral de Acosta, a loura mulher do governador, paira sobre uma favela chamada La Guacamaya.

"Primeiramente, agradeço a Deus por aquilo que temos, depois a Chávez, e, a seguir, a Acosta Carlez", afirma Maria Alejandra Nieto, 25, uma mão desempregada de dois filhos que mora em La Guacamaya. Um assessor carregando um caderno segue o governador na visita à favela, anotando os pedidos dos moradores: uma rede de esgoto, ruas pavimentadas e mais policiamento.

Medindo 1,93 metros de altura com as botas, Acosta Carlez parece mais um vaqueiro afetado do que um indivíduo engajado em uma cruzada pelos pobres. Os seus guarda-costas o chamam de "catire", um termo usado para designar uma pessoa de pele e cabelo claros.

Mas ele diz que cresceu em meio à pobreza, com 14 irmãos. Para sustentar a família, o pai organizava rinhas de galo.

Assim como Chávez, Acosta Carlez enxergou nas forças armadas uma forma de ascensão social. Como general durante uma greve no início de 2003, ele tornou-se famoso no episódio da invasão de um depósito de refrigerantes, durante a qual ele bebeu uma garrafa de malta quente, uma bebida não alcoólica à base de malte, e a seguir arrotou estrondosamente em frente às câmeras.

Um ano mais tarde, ele estreou na política, sendo um dentre as dezenas de ex-oficiais militares que ascenderam a cargos no gabinete presidencial ou nos governos estaduais com a consolidação do poder de Chávez. Acosta Carlez tem uma foto do seu famoso arroto no seu website pessoal, e atribui ao episódio o início da sua carreira política.

"Acosta Carlez é o mais vulgar dos chavistas", dispara Pablo Aure, professor de direito da Universidade de Carabobo e crítico ferrenho do governador. "Mas ele é também um dos mais ambiciosos".

A "Exceso", uma revista de notícias de Caracas, chegou a publicar um artigo em outubro sobre Acosta Carlez, levantando a hipótese de que ele nutriria ambições presidenciais. A questão está no ar: a sua necessidade extremada de atenção seria um sinal de um desejo de mais poder?

"Não", insistiu Acosta Carlez ao final da entrevista concedida na sua casa, fumando um charuto cubano enquanto uma criada oferecia drinques em uma varanda que dava para um amplo jardim e uma piscina. "Ser presidente é uma idéia que nunca passou pela minha cabeça", afirmou. "Sou dedicado a Chávez e ao nosso socialismo de amor e inclusão". UOL

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