UOL Notícias Internacional
 

08/11/2007

Presidente da Geórgia declara estado de emergência diante de protesto

The New York Times
C.J. Chivers

Em Moscou
O presidente da Geórgia declarou estado de emergência na noite de quarta-feira, depois que tropas de choque da polícia usaram gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos de água para dispersar milhares de manifestantes das ruas de Tbilisi, a capital. A ordem fechou imediatamente duas emissoras de televisão e proibiu reuniões públicas na capital, disse um alto funcionário do governo por telefone.

O principal veículo de notícias de oposição do país, e rede de televisão Imedi, saiu do ar assim que uma unidade das forças especiais, membros armados e usando máscaras pretas, entrou nas salas da emissora. Àquela altura, pelo menos 365 pessoas já tinham ido parar em hospitais com ferimentos, disse o Ministério da Saúde do país.

O estado de emergência, decretado pelo presidente Mikheil Saakashvili, lançou o país na incerteza diante de uma oposição enfurecida após um dia de ações policiais violentas e confrontos na capital. O governo posteriormente fez uma declaração pela televisão dizendo que o estado de emergência duraria 15 dias.

Justyna Mielnikiewicz/The New York Times 
Protestantes fogem de gás lacrimogêneo lançado pela polícia em Tbilisi

Giga Bokeria, um proeminente membro do Parlamento e um dos principais aliados de Saakashvili, disse que a ordem foi dada depois que Badri Patarkatsishvili, o dono da Imedi que é amplamente considerado o homem mais rico da Geórgia, apareceu na emissora e disse que trabalharia para derrubar o governo.

"Patarkatsishvili fez uma declaração em sua emissora de televisão de que usaria todos seus recursos pra derrubar o Estado ilegal da Geórgia", disse Bokeria por telefone, afirmando que uma conspiração para derrubar o governo estava em andamento. "Nós acreditamos fortemente que tudo isto foi planejado há muito tempo."

Patarkatsishvili disse posteriormente que julgou mal Saakashvili e que o governo da Geórgia cometeu um erro irreparável. "Eu fui muito ingênuo quando achei que as autoridades não ousariam tocar nas pessoas", ele disse por telefone, dizendo que estava telefonando de Israel. "Hoje, diante dos olhos de todos no mundo, o governo Saakashvili perdeu sua legitimidade."

A declaração do estado de emergência ocorreu após um dia de violência e ultraje público que teve início pela manhã, quando policiais tentaram restaurar o fluxo do trânsito no principal bulevar da cidade, a Avenida Rustaveli, que estava bloqueada por manifestantes de oposição desde sexta-feira. Um esforço policial inicial foi repelido pelos manifestantes, mas a polícia retornou com a tropa de choque.

Testemunhas e participantes que fugiram das nuvens de gás lacrimogêneo relataram que polícia avançou pelas ruas e bateu nos manifestantes que não foram rápidos o bastante para escapar. Muitos manifestantes foram vistos sangrando. A polícia também entrou em choque com vários jornalistas e confiscou ou destruiu parte do equipamento deles, disseram testemunhas e o ombudsman de direitos humanos do país.

Apesar da ação da polícia ter liberado as ruas ao menos temporariamente, ela ressaltou a intensidade da contestação ao governo e à reputação de Saakashvili. Após ter chegado ao poder por meio de protestos pacíficos em 2003, ele se lançou como um queridinho de Washington -fornecendo soldados para a guerra liderada pelos americanos no Iraque e prometendo enviar unidades ao Afeganistão no próximo ano- e como o governante mais democrático no Cáucaso.

A oposição o acusa de comandar um governo centralizado intolerante com a dissidência e minado pela corrupção no alto escalão e pelos abusos da polícia e de promotores.
PROTESTOS EM GEÓRGIA
Justyna Mielnikiewicz/The New York Times
Polícia lança jato d'água contra manifestantes em Tbilisi
FOTOS DAS MANIFESTAÇÕES


Os líderes da oposição rotularam a ação policial como uma repressão política e uma punição coletiva, e pediram para os georgianos se reunirem em novos protestos.

"As autoridades usaram armas contra manifestantes pacíficos e portanto as autoridades receberão o que merecem do povo", disse Kakha Kukava, um parlamentar da oposição, segundo a agência de notícias "Interfax", horas antes da declaração do estado de emergência.

O governo defendeu suas ações, dizendo que as manifestações não foram totalmente pacíficas e que a tropa de choque da polícia foi necessária depois que os manifestantes atravessaram à força as linhas policiais.

"O que aconteceu nesta manhã foi muito lamentável", disse Bokeria, que acusou os líderes de oposição de incitarem os manifestantes a enfrentarem a polícia. "Eles se comportaram muito mal. Ele pediam abertamente pela violência."

Saakashvili, aparecendo em rede nacional de televisão no início da noite, disse que a violência doeu em seu coração. Mas ele defendeu a polícia e a decisão de usá-la e pediu às pessoas que cessassem os protestos.

Ele acusou os serviços de inteligência russos de coordenarem elementos do protesto, e disse que três diplomatas russos foram expulsos do país. "Nós não podemos permitir que nosso país se torne palco de ações geopolíticas sujas de outros países", ele disse. "Nossa democracia necessita de mão firme por parte das autoridades."

Ele não fez concessões, mas se dispôs a conversar com a oposição.

Pouco depois ele ordenou o estado de emergência e a Imedi e uma segunda emissora de televisão saíram do ar logo em seguida. A emissora Rustavi pró-governo prosseguiu com suas transmissões.

O governo de Saakashvili enfrenta uma oposição enfurecida e amplo desconforto com suas ações. Contatado por telefone logo depois das primeiras ações policiais, Sozar Subari, o ombudsman de direitos humanos do país, condenou o uso da força pelo governo e sugeriu que a Geórgia, que realizou muitas reformas desde 2003, deu grandes passos para trás.

"A Geórgia agora é igual à Belarus de Lukashenko", ele disse, se referindo ao presidente Aleksandr G. Lukashenko, o líder de um Estado pós-soviético que grande parte do Ocidente rotula como sendo uma ditadura. Enquanto Subari falava, uma mulher podia ser ouvida gritando ao fundo.

Subari posteriormente chamou a ação policial de ilegal e disse que ele também apanhou da polícia.

"Mesmo depois de ter declarado que era o ombudsman, ele me bateram ainda mais", ele disse.

Os Estados Unidos, os principais patrocinadores estrangeiros e mentores do governo Saakashvili, pediram aos dois lados que dêem passos para evitar maior derramamento de sangue. "Nenhum lado, seja o governo ou a oposição, devem dar passos que sejam deliberadamente provocativos para o outro e possam levar à violência", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack.

Sergey V. Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, que governou a Geórgia durante os tempos soviéticos, chamou a agitação de "um assunto doméstico da Geórgia e seu povo". O Kremlin fez comentários semelhantes durante repressões policiais, algumas delas intensamente violentas ou mesmo letais, no Uzbequistão, Belarus e Azerbaijão.

Os manifestantes, que primeiro se reuniram diante do Parlamento na sexta-feira, inicialmente exigiam antecipação das eleições parlamentares e outras medidas que poderiam relaxar o que consideram como um controle rígido do poder pelo governo e permitir um grau de pluralismo político.

Mas depois que Saakashvili ignorou os manifestantes por quase três dias, além de ter menosprezado publicamente seus líderes em televisão nacional, dizendo que estavam cumprindo ordens do Kremlin, os manifestantes passaram a exigir sua renúncia.

O Kremlin é altamente impopular na Geórgia devido às décadas de ocupação soviética e seu apoio franco aos separatistas da Abkhazia e Ossétia do Sul, duas regiões da Geórgia que estão fora do controle do governo georgiano. Muitos manifestantes se irritaram com os repetidos esforços do governo de desacreditar a oposição como sendo servil aos russos, e sua recusa em negociar ou reconhecer abertamente as fontes do descontentamento popular.

O governo de Saakashvili disse que respeitaria os direitos de liberdade de expressão e reunião dos manifestantes, assim como permitiria que os manifestantes permanecessem nas escadarias do Parlamento por quanto tempo desejassem. Mas alertou que não permitiria que o tráfego em frente ao Parlamento fosse bloqueado por tempo indeterminado, e que não permitiria que tendas fossem armadas.

Saakashvili e o Parlamento, que é controlado por seu partido Movimento Nacional, fez uma emenda à Constituição no ano passado prolongando os mandatos dos legisladores até o segundo semestre de 2008 e encurtando o mandato presidencial, para que Saakashvili e o Parlamento pudessem disputar a eleição ao mesmo tempo. O governo insistiu que eleições simultâneas eram necessárias por motivos de segurança nacional.

O governo disse que a Rússia, que terá eleições presidenciais no próximo ano, poderia tentar semear agitação na Geórgia ou reconhecer a região da Abkhazia, o que poderia levar a um confronto militar.

A oposição disse que as mudanças foram manipulações políticas visando permitir que o partido do governo e o presidente somassem recursos para uma campanha conjunta, e que tornariam o Parlamento ilegítimo quando seu mandato original se encerrasse no primeiro semestre.

*Michael Schwirtz contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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