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09/11/2007

Aumento da demanda global por petróleo provoca nova crise de energia

The New York Times
Jad Mouawad
Com os preços do petróleo se aproximando do limiar simbólico dos US$ 100 o barril, o mundo caminha para seu terceiro choque de energia em uma geração. Mas o aumento atual é fundamentalmente diferente das crises do petróleo anteriores, com implicações globais mais amplas e duradouras.

Assim como as crises de energia dos anos 70 e 80, os altos preços atuais estão causando ansiedade e dor para os consumidores, além de provocarem maiores temores sobre o impacto sobre a economia.

Diferente dos choques do petróleo anteriores, que foram causados por interrupções repentinas nas exportações do Oriente Médio, desta vez os preços estão subindo constantemente à medida que o consumo de gasolina aumenta nos países desenvolvidos, à medida que centenas de milhões de chineses e indianos saem da pobreza e outras economias em desenvolvimento crescem em ritmo vertiginoso.

"Este é o primeiro choque de energia do mundo provocado pela demanda", disse Lawrence Goldstein, um economista da Fundação de Pesquisa para Política de Energia, em Washington.

As previsões dos futuros preços do petróleo variam muito. Alguns analistas vêem uma queda no próximo ano para US$ 75, ou menos, enquanto alguns poucos projetam o barril a US$ 120. Virtualmente ninguém prevê um retorno ao barril a US$ 20 de uma década atrás, o que significa que os consumidores devem se preparar para uma era de custos significativamente mais altos dos combustíveis.

Na raiz do aumento atordoante do preço do petróleo, de 56% neste ano e 365% em uma década, está um fato positivo: um boom sem precedente na economia mundial.

A demanda apenas da China e Índia deverá dobrar nas duas próximas décadas à medida que suas economias continuarem expandindo, com as pessoas destes países comprando mais carros e se mudando para as cidades em busca de um modo de vida há muito considerado garantido no Ocidente.

Mas com o aumento dos preços, a economia mundial está entrando em território desconhecido. O aumento não parece até o momento estar prejudicando o crescimento econômico, mas muitos economistas se perguntam até quando isto vai durar. "Estes preços estão altos demais e acabarão prejudicando a todos, produtores e consumidores", disse Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia.

Os preços futuros de petróleo fecharam a US$ 95,46 na Bolsa Mercantil de Nova York, uma queda de quase 1% em comparação ao dia anterior. Mas o preço se tornou volátil e muitos analistas esperam que o limiar psicologicamente importante dos US$ 100 o barril será ultrapassado nas próximas semanas.

"Os mercados atualmente parecem a torcida em pé nos últimos minutos de um jogo de futebol, gritando: 'Vai! Vai! Vai!'", disse Daniel Yergin, um historiador de petróleo e presidente da Cambridge Energy Research Associates, uma firma de consultoria. "As pessoas parecem quase mais à vontade em relação aos US$ 100 do que em relação ao petróleo a US$ 60 ou US$ 70."

O petróleo não está distante de sua alta histórica, corrigida pela inflação, atingida em abril de 1980, após a revolução iraniana. Naquela época o petróleo saltou para o equivalente a US$ 101,70 o barril em valores atuais.

Por grande parte do século 20, enquanto transformava o mundo moderno, o petróleo era barato e abundante. Ao longo dos anos 90, por exemplo, os preços do petróleo eram em média de US$ 20 o barril. Mesmo com as altas atuais, o petróleo é mais barato que água engarrafada importada, que custaria US$ 180 o barril, ou leite, a US$ 150 o barril.

"A preocupação de hoje é como o setor de energia atenderá o crescimento previsto para a demanda a longo prazo", disse Linda Z. Cook, membro da diretoria da Royal Dutch Shell, a grande companhia de petróleo. "A demanda por energia está aumentando em uma taxa que nunca vimos antes. No lado da oferta, estamos vendo dificuldade para atender. Este é o desafio de energia."

Mais do que qualquer outro país, a China representa o tamanho de tal desafio. Ao se transformar em um gigante econômico global ao longo da última década, a China também se transformou em uma grande usuária de energia. Sua economia está crescendo no ritmo furioso de cerca de 10% ao ano desde os anos 90, tirando quase 300 milhões de pessoas da pobreza. Mas a rápida industrialização teve um preço: a demanda por petróleo quase triplicou desde 1980, transformando um país que antes era auto-suficiente em um importador de petróleo.

A Índia e a China abrigam cerca de um terço da humanidade. As pessoas destes países estão exigindo acesso à eletricidade, carros e bens de consumo e cada vez mais são capazes de competir com o Ocidente pelo acesso aos recursos. Assim, os dois gigantes asiáticos estão transformando profundamente a balança mundial de energia.

Atualmente a China consome apenas um terço do petróleo consumido pelos Estados Unidos, que queimam diariamente um quarto do petróleo do mundo. Até 2030, a Índia e a China importarão juntas quase tanto petróleo quanto atualmente os Estados Unidos e o Japão.

Apesar da demanda estar crescendo rapidamente no exterior, o apetite americano por carros grandes e casas grandes também tem provocado aumento do consumo de petróleo nos Estados Unidos. A Europa conseguiu refrear o consumo de petróleo por meio de uma combinação de altos impostos sobre a gasolina, carros pequenos e transporte público eficiente, mas os americanos não. O consumo de petróleo nos Estados Unidos, onde a gasolina é bem mais barata do que na Europa, saltou para 21 milhões de barris por dia neste ano, em comparação a cerca de 17 milhões de barris no início dos anos 90.

Se os chineses e indianos consumirem tanto petróleo por pessoa quanto os americanos, o consumo mundial de petróleo seria de mais de 200 milhões de barris por dia, em vez dos atuais 85 milhões de barris. Nenhum especialista considera concebível tal nível de produção.

De forma mais realista, a demanda global deverá aumentar para cerca de 115 milhões de barris por dia até 2030, um nível que provavelmente sobrecarregará a capacidade mundial de extração. O mundo já enfrenta uma margem limitada de capacidade ociosa; qualquer interrupção no fornecimento, seja causada por furacões ou conflitos armados, faz os preços saltarem.

"Nós não temos nenhum pára-choque", disse Goldstein.

Para as companhias de petróleo, os preços elevados provocaram uma busca frenética por novos recursos ao redor do mundo. Após uma longa calmaria nos investimentos ao longo dos anos 90 devido aos preços baixos, as grandes companhias de petróleo investiram bilhões de dólares para aumentar a oferta.

O problema é que estes grandes novos projetos demoram muito tempo e as empresas têm sido atrapalhadas pelos custos mais altos. O custo de equipamento de perfuração, por exemplo, uma ferramenta básica do setor, dobrou nos últimos anos. Os analistas dizem que levará tempo, mas oferta adicional acabará chegando até o mercado.

A oferta também é atrapalhada pela tensão política no Golfo Pérsico, pela guerra no Iraque, pelos furacões devastadores no Golfo do México produtor de petróleo, pelas dificuldades de produção na Venezuela e pela violência na província rica em petróleo da Nigéria. Muitos destes fatores geopolíticos contribuíram para um adicional de risco político estimado entre US$ 25 a US$ 50 o barril. Recentemente, em apenas nove semanas, o petróleo saltou de US$ 75 a US$ 90 o barril sem muito motivo aparente.

"Um barril a US$ 50 parece algo distante a esta altura", disse Thomas Bentz, um analista de energia sênior da BNP Paribas, em Nova York, citando um valor que pareceria impossivelmente alto para o petróleo há poucos anos. "O petróleo deixará de subir assim que ocorrer uma quebra na demanda. Isto não aconteceu."

Quando acontecerá? Veteranos do setor de petróleo, tendo experimentado booms e quedas, dizem que ninguém deve contar com um aumento eterno do petróleo. Desacelerações econômicas na China e nos Estados Unidos -ou especialmente em ambos- provavelmente provocariam uma queda nos preços.

Isto aconteceu há apenas uma década, depois que a crise financeira asiática fez as economias locais mergulharem em parafuso. Os preços globais do petróleo caíram pela metade, de US$ 20 o barril para US$ 10 em questão de meses.

"Seria um grande erro achar que as leis da oferta e demanda foram abolidas", disse Yergin. George El Khouri Andolfato

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