UOL Notícias Internacional
 

10/11/2007

Forças paquistanesas impedem protestos; impasse continua

The New York Times
David Rohde e Jane Perlez*

Em Islamabad, Paquistão
A ampla repressão de segurança promovida pelo general Pervez Musharraf, que impediu um comício de protesto da líder da oposição, Benazir Bhutto, contra seu decreto de emergência, deixou os dois adversários presos em um impasse na sexta-feira.

À primeira vista, a demonstração de força do governo, que empregou milhares de policiais e outros agentes de segurança e confinou Bhutto em sua casa durante grande parte do dia, parecia deixar os rivais mais distantes de um acordo de divisão de poder.

Mas os eventos não excluíram a possibilidade de conversas estarem transcorrendo e funcionários do governo Bush disseram manter esperança de que os dois líderes ainda consigam desarmar a crise que teve início quando Musharraf declarou o que na prática representa uma lei marcial há seis dias.

Akhtar Soomro/The New York Times 
Policiais observam grupo de manifestantes que apóiam a líder da oposição Benazir Bhutto

Cerca de 8.500 policiais bloquearam Rawalpindi, o local planejado para o protesto, de tal forma que apenas pequenos grupos de manifestantes conseguiram entrar na cidade. Caminhões, tratores e carretas bloqueavam todas as ruas que levavam à praça central. Tropas de choque da polícia em motocicletas ameaçavam bater nos grupos de pedestres que se recusavam a se dispersar quando ordenados.

E Bhutto foi virtualmente mantida refém em sua casa, atrás de cercas de arame farpado.

No final do dia, por mais caótico que tenha sido, o impasse permitiu que tanto Bhutto quanto Musharraf salvassem as aparências, seja de forma improvisada ou pré-coreografada, para evitar potencial derramamento de sangue nas ruas.

A certa altura, Bhutto tentou exibir sua determinação de ir a Rawalpindi, a cidade militar vizinha da capital. Ela entrou em seu carro para partir, mas um ônibus de policiais e um veículo de transporte de tropas bloquearam seu caminho.

Durante a tarde, no que pareceu ser um ação cuidadosamente planejada acertada com o governo, Bhutto apareceu nas barricadas e fez um discurso de 20 minutos que foi transmitido pela televisão oficial paquistanesa.

E ela rejeitou o anúncio feito por Musharraf, na quinta-feira, de que as eleições parlamentares ocorreriam antes de 15 de fevereiro, dizendo que isto está aquém de suas exigências para que ele abra mão de seu posto de chefe do exército e coloque um fim ao estado de emergência.

No início da noite de sexta-feira, um porta-voz do governo, Tariq Azim Khan, disse que Bhutto estava livre para deixar sua casa. Uma ordem de restrição foi imposta a ela durante o dia, ele disse, para impedi-la de participar do comício, que estava proibido segundo o decreto de emergência.

O porta-voz disse que Bhutto foi confinada porque o governo tinha alertas de possíveis ataques contra ela em Rawalpindi, e não queria uma repetição do ataque suicida contra ela do mês passado, quando Bhutto retornou ao Paquistão após viver oito anos no exterior para evitar ser processada por acusações de corrupção.

Depois do ataque, em Karachi, Bhutto culpou o governo por não ter dado a devida atenção à sua segurança. Depois ele passou a acusar o governo de usar as ameaças contra ela para justificar sua repressão a quaisquer manifestações da oposição.

Tal repressão deteve cerca de 2.500 pessoas de vários grupos de oposição ao longo dos últimos dias, segundo diplomatas ocidentais. Membros do partido de Bhutto apresentaram um número bem maior, de até 5 mil filiados do partido em todo o país.

Na sexta-feira, a polícia ocupou vários quilômetros quadrados de Rawalpindi e interditou o centro da cidade para impedir que membros e simpatizantes do Partido Popular do Paquistão (PPP) de Bhutto chegassem ao Parque Liaquat, o local do comício.

Os manifestantes, temendo prisão, se moviam e se escondiam pelos becos da cidade velha. Moradores agitados disseram nunca ter visto tantos policiais na cidade.

"Eu estou assustado", disse Imran Ali, 25 anos, um funcionário de empresa médica usando óculos. "Me entristece ver meu país em tal situação."

Os funcionários do partido de Rawalpindi e outras grandes cidades disseram que aguardaram por ordens do comando central do partido sobre quando enfrentar a polícia. Mas eles disseram que a ordem nunca foi dada.

No final, pequenos grupos de algumas dezenas de manifestantes começaram a desafiar a polícia por conta própria.

"Não há uma ordem", disse Amjad Butt, um funcionário local do partido que começou a atirar pedras contra a polícia às 15 horas. "Estamos fazendo isto por conta própria para nos aquecermos."

No final da tarde, chegaram as ordens para que os manifestantes realizassem pequenos ataques contra a polícia, disseram manifestantes e funcionários do partido. Ao entardecer, a polícia começou a deixar a cidade e chegaram ordens para que os funcionários do partido se dispersassem. Os funcionários disseram não saber por que Bhutto não ordenou que realizassem ataques maiores.

A polícia disse que 108 manifestantes foram presos por toda a cidade.

Em Islamabad, a capital, Bhutto estava cercada por três fileiras de linhas policiais, arame farpado e barreiras de concreto, assim como veículos blindados de transporte de tropas bloqueavam a entrada de sua casa, que fica no final de uma rua sem saída margeada por árvores.

Importantes membros do partido, muitos deles bem vestidos e usando óculos escuros de grife, passaram pelas barricadas e se dirigiram para a casa dela, conhecida como casa Zardari devido ao sobrenome de seu marido, Asif Ali Zardari.

Cerca de 20 funcionários do partido, a maioria do baixo escalão, foram presos do lado de fora da casa dela durante o dia. Alguns dos que foram presos gritavam "primeira-ministra Benazir", uma referência ao desejo de Bhutto de ocupar o cargo pela terceira vez, enquanto eram levados em vans policiais azuis, com seus dedos fazendo o sinal do V de vitória por entre as grades.

Quanto dos eventos do dia foram resultado de estratégias estabelecidas antecipadamente para evitar mergulhar o país em uma crise mais profunda era difícil de saber.

Mas com as prisões em massa e o isolamento quase completo de Rawalpindi, o governo conseguiu demonstrar sua determinação, e ao entrar em seu carro e começar a sair por uma entrada lateral de sua casa onde foi bloqueada, Bhutto também conseguiu.

Em sua rejeição às concessões de Musharraf, Bhutto sem dúvida estava caminhando sobre uma linha tênue entre eleitorados concorrentes que precisava aplacar. Ela tinha que equilibrar as exigências daqueles que a apóiam em Washington, que gostariam de vê-la dividindo o poder com o general, e o sentimento nas ruas do Paquistão, onde a aparência de acordo de bastidores entre ela e o general enfraqueceu a posição de ambos os líderes.

Mesmo em meio às tensões, diplomatas ocidentais disseram que Bhutto e Musharraf continuam negociando o acordo de divisão de poder intermediado pelos Estados Unidos e o Reino Unido, como uma forma de devolver ao Paquistão alguma forma de governo democrático.

Tais negociações poderiam ser ameaçadas caso as tensões se agravassem com o impasse de sexta-feira, disse Hasan Askari Rizvi, um analista político e militar de Lahore que também faz conferências na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, em Washington.

Mas não há sinal, por exemplo, de que Musharraf renunciará ao seu posto militar, disse Rizvi. "Se Musharraf puder conter estes protestos por três dias, tudo bem", ele disse. "Mas se os protestos se espalharem para as cidades e persistirem por uma semana, então Musharraf terá problemas."

Em um indício de como Bhutto parece ter preservado sua liberdade de movimento depois dos eventos de sexta-feira, um alto assessor disse que ela planeja dar continuidade à recepção diplomática no prédio do Senado, marcada para a noite de domingo.

Enquanto isso, o estado de emergência do general, apesar de ter contribuído para aumentar a turbulência no país, parece ter fracassado em conter a ameaça dos extremistas. Um atentado a bomba suicida em Peshawar atingiu a casa de um ministro federal e matou quatro pessoas na tarde de sexta-feira, o primeiro ataque do gênero desde o decreto federal.

O ministro federal de assuntos políticos, Amir Muqam, estava reunido com colegas em sua casa, no bairro de classe alta de Hayatabad, quando o homem-bomba tentou invadi-la.

* Salman Masood, em Islamabad; Ismail Khan, em Peshawar; e Steven Lee Myers, em Crawford, Texas, contribuíram com reportagem George El Khouri Andolfato

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