UOL Notícias Internacional
 

10/11/2007

Violência de gangues aterroriza principal região petrolífera da Nigéria

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Port Harcourt, na Nigéria
Rosemary Douglas não tem vínculos com a indústria petrolífera que extrai mais de dois bilhões de barris de petróleo diariamente na região pantanosa do delta do Rio Níger. Mas, mesmo assim, a violência que cerca esta indústria invadiu o seu lar em setembro último, quando uma bala quebrou o seu braço esquerdo quando ela dormia com a filha de dois anos.

"Não sei por que isso aconteceu comigo", diz ela, fazendo uma careta de dor enquanto fala sobre a violência armada que tomou conta do seu bairro, bem como de grande parte desta cidade repleta de petróleo. "Eu não me intrometo naquilo que não é da minha conta".

A violência que abala o delta do Níger nos últimos anos é dirigida em grande parte contra as companhias estrangeiras de petróleo, os seus funcionários e os seus policiais e soldados, cuja missão é proteger o patrimônio e o pessoal dessas empresas. Somente nos últimos dois anos foram registrados centenas de seqüestros e ataques a bomba contra oleodutos, estações bombeadoras e quartéis.

Candace Feit/The New York Times 
Moradores de Port Harcourt, Nigéria, sofrem com a violência das gangues

Mas atualmente as armas se voltaram contra a própria comunidade, e verdadeiras batalhas irromperam com uma freqüência assustadora nas ruas esburacadas desta cidade desmantelada. As origens da violência são tão turvas e tortuosas quando os canais dos manguezais que serpenteiam pelo delta, uma das regiões mais pobres do mundo. Mas elas estão calcadas principalmente na rivalidade entre as gangues, conhecidas localmente como "cultos", que possuem vínculos com líderes políticos que as utilizaram como milícias particulares durante as eleições estadual e federal em abril último, segundo afirmam defensores dos direitos humanos, ex-integrantes das gangues e funcionários de agências de auxílio humanitário que atuam na região.

"O que acontece agora é um fenômeno vinculado à política", garante Anyakwee Nsirimovu, do Instituto de Direitos Humanos e Direito Humanitário em Port Harcourt. "Os cultos são uma parte integrante e inseparável da nossa política. Eles tornaram-se parte do sistema, e estamos pagando por isso com sangue".

Os cultos têm nomes que variam do sinistro ao surrealista - como Black Axe (Machado Negro), Klansmen (Homens da Ku Klux Klan), Icelanders (Islandeses), Outlaws (Foras-Da-Lei) e Niger Delta Vigilantes (Vigilantes do Delta do Níger). Desvinculados, mas não inteiramente distintos dos grupos militantes que atacaram a indústria petrolífera no passado, eles representam uma nova e preocupante fase em uma região que é abalada pelos conflitos desde que o petróleo foi descoberto aqui em 1956.

Desde que a democracia retornou à Nigéria em 1999, políticos de todo o país usam os cultos para intimidar os oponentes e fraudar as eleições. Um relatório da organização de direitos humanos Human Rights Watch divulgado em outubro último conclui que o sistema político está tão corroído pela corrupção e pela violência que, em certas áreas, ele lembra mais uma organização criminosa do que um sistema de governo. As eleições de abril foram tão fraudadas e marcadas pela violência em determinadas regiões que os observadores internacionais afirmaram que os resultados não são verossímeis.

E em nenhum lugar a violência é mais intensa do que aqui, no Delta do Níger, onde controlar o governo significa ter acesso a bilhões de dólares em lucros oriundos do petróleo e o controle sobre um número de simpatizantes suficiente para a criação de um exército.

Segundo ex-membros de gangues e funcionários de grupos de direitos humanos, o governista Partido Democrático do Povo e alguns partidos de oposição utilizaram membros dos cultos na região do delta durante a eleição, assim como fizeram em duas ocasiões anteriores, o que garantiu uma vitória arrasadora ao partido que está no poder.

Esses indivíduos denunciam que um poderoso líder de gangue, Soboma George, recebeu a parcela mais generosa do apoio governamental. George exibiu a sua ousadia nos meses que antecederam a eleição, fazendo com que os membros armados da sua gangue o retirassem da penitenciária da cidade em um ataque ousado. A seguir ele demonstrou a impunidade que permeia o sistema ao dirigir carros caros pelas ruas de Port Harcourt, a capital do Estado de Rivers, parecendo não temer nem um pouco ser preso.

As outras gangues não gostaram da crescente influência de George e do seu controle sobre lucrativos contratos de segurança, e, como conseqüência, uma guerra entre facções tornou-se cada vez mais sangrenta. Os civis viram-se em meio ao fogo cruzado; ninguém está a salvo da violência.

A mãe idosa do recém-eleito governador estadual foi seqüestrada e libertada mediante o pagamento de um resgate no segundo semestre deste ano. Bebês que têm parentesco com autoridades governamentais graduadas e líderes empresariais têm sido seqüestrados e mantidos em cativeiro até o pagamento de resgates ou a obtenção de concessões políticas.

A violência aqui chegou a tal nível que no Hospital Teme os cirurgiões do grupo de auxílio humanitário Médicos Sem Fronteiras se empenharam para atender a 71 pessoas baleadas em apenas duas semanas no mês de agosto último, e mais de um mês depois eles ainda cuidavam de indivíduos que se recuperavam de fraturas e ferimentos resultantes das brigas de gangues.

Ibinabo Bob-Manuel, uma estudante universitária de 25 anos, disse que estava em casa com a tia e a irmã de seis anos, Lolo, em 16 de agosto, quando irrompeu um tiroteio entre soldados e uma gangue que ocupava a área.

Quatro balas penetraram os músculos da sua coxa, e uma permaneceu alojada no local. Ela perdeu tanto sangue que desmaiou. A extremidade de um dedo do pé foi desintegrada por um tiro. A sua irmã foi baleada nas mãos enquanto rezava em meio à chuva de balas, conta Bob-Manuel.

"Nós estávamos chorando e sangrando", relata a estudante. "A minha tia gritava que eles tinham matado a sua família. Achei que iria morrer".

O governo diz que está reprimindo as gangues, e enviou uma unidade de elite do exército a Port Harcourt e áreas vizinhas para impor a lei e conter a violência. Desde então os tiroteios nas ruas da cidade acabaram, mas o que se vê é uma calma tensa e precária.

Diversos moradores temem que as rivalidades recrudesçam. Em 25 de outubro, uma comissão jurídica destituiu o novo governador do Estado de Rivers, Celestine Omehia, determinando que ele não era um candidato elegível por não ter vencido as eleições primárias do seu partido. O vencedor das primárias, Rotimi Amaechi, foi empossado no cargo, e muitos temem que haja combates violentos entre os aliados dos dois políticos.

O derramamento de sangue se disseminou para além das cidades, atingindo diversas comunidades no delta. Em Ogbogoro, as lutas entre gangues rivais foram tão intensas em agosto último que o conselho formado pelos chamados legisladores tradicionais viu-se compelido a agir. Dois cultos, Deban e Dewell, brigavam devido a desentendimentos políticos, petróleo e contratos para a prestação de serviços de segurança às companhias petrolíferas, segundo as autoridades locais.

"Ninguém conseguia dormir na localidade", diz o chefe Clement Chuku, um dos legisladores tradicionais de Ogbogoro. "As balas zumbiam a noite inteira".

Os chefes reuniram-se para anunciar um ultimato: todos os membros dos cultos teriam que partir, caso contrário poderiam ser presos por grupos de jovens vigilantes da comunidade. Os vigilantes prenderam alguns integrantes das gangues como exemplo, diz Chuku, e pretendem entregá-los às forças armadas.

Mas quando era realizada uma reunião da comunidade no prédio da prefeitura local no início de setembro, dezenas de jovens em motocicletas, portando metralhadoras e lançadores de granadas, invadiram o recinto. Dois legisladores tradicionais foram mortos a tiros e tiveram os seus corpos jogados no mato à margem de um rio.

George Ogan, médico aposentado e líder de uma igreja, que tentou conter a violência das gangues acima da região do delta, na sua vila, Okrika, onde alguns dos mais temidos cultos têm as suas bases, diz que essa violência está totalmente vinculada à política.

"Os nossos políticos são incapazes de se afirmar por conta própria, de forma que buscam aqueles que pegam em armas por eles", explica Ogan. UOL

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