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11/11/2007

Amor Moderno: quando de repente me transformei em três

The New York Times
Lynn Lauber*
Por um golpe do destino, eu me tornei avó quase ao mesmo tempo em que me tornei mãe, não muito depois de me reencontrar com a filha que dei para adoção décadas antes. Quando a encontrei -eu tinha 42 e ela 25- minha filha, que logo seria mãe, tinha passado por várias mães, mas nenhuma que permaneceu. E eu nunca tive outro filho. Desta forma, nós precisávamos uma da outra, nossas feridas eram limpas e profundas.

Era a política da casa-maternidade onde passei seis soturnos e letárgicos meses que eu a desse para adoção às escuras -que ela fosse levada enquanto eu ainda estivesse inconsciente. Eu não devia me lembrar, muito menos encontrá-la.

Mas o sangue é forte; ele encharca e mancha.

The New York Times 

Apesar de ter dado à luz, eu não tinha experiência como mãe, apenas como filha e neta que teve uma infância esplêndida, repleta com quatro avós (materna, paterna e duas bisavós), uma série de mulheres para as quais minha simples existência era motivo de celebração.

E a âncora, minha avó materna, Detoh, ainda estava viva quando encontrei minha filha. Pelo milagre tecnológico de um marcapasso, ela chegou aos 99 anos em um asilo de atendimento irregular, fora de uma estrada próxima da pequena cidade de Ohio onde viveu sua vida.

Ser uma avó e ainda ter uma! Eu não conhecia ninguém que tivesse tido esta grande felicidade.

Sempre que a visitava, Detoh chorava ao me ver, um gemido de amor e reconhecimento. No fundo de seus olhos castanhos eu via nossas histórias refratadas, uma visão familiar do meu início.

Ela era a única que falava sobre minha filha perdida. Anos depois da adoção, ela me disse que achou tê-la vislumbrado uma vez, em um casamento: "Havia um garoto e uma garota, estavam sentados no banco à minha frente, e quando ela se virou -o rosto dela- ela parecia com você".

Eu não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Minha família nunca falou daquilo, muito menos "dela". Minha gravidez chocante, aos 16 anos, do ministro da informação de rosto doce do medíocre Partido Pantera Negra de nossa cidade pequena, foi enterrada na lata de lixo cheia dos anos 60, acompanhada dos sentimentos enferrujados e escaldos nunca revisitados. Eu nem mesmo tinha certeza de que tinha tido uma menina, apenas um palpite de que o que eu tinha produzido às escondidas era de uma forte estirpe feminina.

"Ambos tinham pele morena clara", acrescentou minha avó. "Eu descobri posteriormente que foram adotados por famílias diferentes por um casal branco com o qual estavam sentados."

"Quem lhe disse isso?"

"Minha amiga no casamento, Velma."

"Por que nunca mencionou isto antes?"

"Eu não queria chatear você."

O que significava que ela não queria chatear minha mãe.

Minha mãe trabalhou arduamente em uma empresa de fertilizantes para me mandar para a faculdade, para me ajudar a escapar do passado. Por que desenterrar aquilo? Fazia sentido, mas havia uma criança escondida sob os escombros, a única que eu teria.

"Seria possível telefonar para essa Velma e perguntar se ela lembra do nome da família?" eu perguntei. "Não, ela morreu."

É claro que sim. Se não tivesse, minha avó provavelmente não a mencionaria.

"Bom, se era para alguém vê-la, fico feliz que tenha sido a senhora", eu disse.

E por algum tempo foi verdade. Eu não queria perturbar uma vida que não fui capaz de criar. Além disso, anos atrás, me garantiram que ela tinha sido adotada por um médico e sua família. Eu a imaginei sendo criada por um casal intelectual que generosamente lhe proporcionaria os livros clássicos em capas de couro e férias na Europa. Certamente isto seria superior a qualquer coisa que eu poderia proporcionar.

Mas quando ela chegou na casa dos 20 e eu me aproximava dos 40, algo mudou em mim, como em um filme ou romance. Não um conto, onde a ação é condensada, mas algo que se estende por décadas, até mesmo eras. O tempo transforma você, mesmo se você fizer pouco. O simples sentar no meio do tempo, como uma pedra em um rio, pode mudar uma pessoa.

Eu obtive alguns documentos e revirei as páginas amareladas em busca de pistas: "BFA" ("baby for adoption", bebê para adoção) inscrito com esferográfica, os 300 cc de perda de sangue, o parto fórceps. Então no final, ao lado da palavra "viável", alguém desenhou o sinal feminino. Lá estava, eu realmente tive uma filha. Aquele hieróglifo, aquela evidência, libertou-me para encontrá-la.

Se imagine aos 16 anos: imatura, fértil, uma criatura de Clearasil e desinformação, a torneira aberta de estrógeno fluindo, fluindo, os vestígios da infância ficando para trás. As bonecas ainda no armário apenas recentemente empurradas de lado para dar espaço ao secador de cabelo e à escova de cabelo elétrica.

Imagine não o brilho no olho do namorado, mas um plano desastrado, as maquinações do colegial, minha tentativa desajeitada de deixar um garoto com ciúmes usando um colega revolucionário.

Logo eu estava fora da minha liga com todo um novo elenco de personagens em um carro lotado com boletins antiimperialistas, tinta azul manchando meus braços. E posteriormente na casa dele: carne de porco salgada no forno, Otis Redding cantando, uma gentileza íntima surpreendente.

Imagine a percepção inicial em uma cabine do banheiro feminino do colégio, onde você checa desesperadamente pela menstruação, enquanto pelas frestas da porta a vida adolescente regular -encontros e provas- prossegue.

Imagine o momento em que você percebe que pode se reproduzir, você que ainda nem está completa, que ainda nem dirigiu ou preencheu um cheque; de que há algo desenvolvido o suficiente, certo o bastante para forçar um rápido exame dentro de você.

Imagine o Lar Quacre para Mães Solteiras, que já não existe mais porém naquela época era uma colméia movimentada de mães arruinadas e possível redenção, garotas lerdas com barrigas penduradas caminhando pelo passeio circular.

Agora imagine toda esta história engarrafada, embalada e escondida no fundo da despensa, fora de vista, sem ver a luz por 20 anos, enquanto você anda às cegas com coração murcho e lenço rasgado.

Então imagine esta criação aparecendo repentinamente em carne e osso. Um sonho, uma aparição -e para você, que não acreditava em nada ao longo de todos estes ano, nem mesmo em você mesma. E que ela, também precocemente, também se reproduz.

Três de você agora, em vários tons e formas, criadas em climas diferentes, esticadas em direções diferentes, mas todas construídas em torno de um núcleo central.

Na minha infância, reuniões de família significavam maionese de ovos condimentados e saladas de batata, quando tudo o que eu fazia era comer o que me era entregue e ficar olhando meu simpático primo, Johnny, especulando quão endógamos nossos filhos seriam. Com suas panças e cigarros, minhas tias e tios eram há muito conhecidos e de pouco interesse para mim.

Mas meu reencontro com minha filha não foi assim: envolvia apenas alívio e revelação. No Terminal A do Aeroporto de Newark, lá estava ela, real e encontrada, com número do Seguro Social e pernas que já estiveram dobradas dentro de mim.

Como administradora não apenas de nossa família, mas do sistema local de lanchonetes de escola, minha avó era aquela para quem todos os bebês eram apresentados, para a qual gorros eram colocados e o cabelo arrumado em madeixas de cabelo no tom loiro lavado de minha linhagem. Quando chegou a hora de trazer minha filha de volta, alta e já com 20 e poucos anos, eu sabia que minha avó seria aquela que mais apreciaria. Ela sabia como firmar seus pés e abrir seus braços.

E então, não muito depois, lá estava o bebê do meu bebê, e outra viagem para casa, onde cinco gerações de minha família fraturada de mulheres se reuniram para uma única foto.

Esta foto de unificação está repleta de subcorrentes, de nosso passado de segredos e silêncio. Minha filha parece solene, minha mãe em frangalhos, minha neta distraída. Eu exibo um sorriso estranho, estrangeiro, atônita em finalmente reunir as partes díspares do meu mundo à deriva no mesmo espaço cúbico. Apenas minha avó parece esperançosa e munificente em sua cadeira reclinada.

Foi neste mesmo quarto pouco iluminado de asilo, com vista para a estrada, que minha avó morreria pouco tempo depois.

Desde que me reencontrei como minha filha, um dos meus passatempos favoritos passou a ser me ver nela, ela em mim: a forma como range os dentes e atende ao telefone, segura a bolsa em frente ao seu plexo solar. Encontrá-la tão tarde tornou tais descobertas, pouco chamativas em uma filha há muito conhecida, surpresas agudas e singulares.

O fato de ter passado por tudo ainda é chocante, apesar do desalento de que minhas características mais problemáticas predominaram sobre as poucas positivas: que meu descontentamento, enjôo em carro e ansiedade foram passados pelo sangue para mais uma geração.

Mas foi apenas por meio do nascimento da minha neta que pude vislumbrar tudo o que perdi enquanto perambulava pelos locais atrasados de Ohio na juventude. Nela eu pude finalmente ver tudo o que foi unido por este ato circundante do destino: os cachos dourados em sua nuca, a cor de sua pele que remonta a família do avô dela (meu breve namorado!), de um passado quando não estava me unindo a ele, mas a todo um mundo alternativo.

Eu me tornei avó sem ter feito nada para merecer, diferente de outras mulheres para as quais isto é uma espécie de doce aposentadoria após anos de papel maternal exasperante. Ele escancarou meu coração para a beleza dos bebês e expôs bolsões de novos prazeres: incursões no mundo de roupas para bebês, por exemplo, com seus minúsculos calçados e meias.

Estas eram coisas para as quais dei as costas no passado juntamente com a visão de qualquer criança de carne e osso, enquanto cultivava furtivamente a concha dura que carregava nas minhas costas. Ser transformada em avó sem passar pela grande área cinzenta da maternidade é surpreendente, como ser catapultada para um outro reino.

Agora no Aeroporto de Newark, o início de uma nova visita: minha neta corre na minha direção, minha filha atrás dela, dois metais semipreciosos da minha idade do bronze.

Eu observo os homens admirarem minha filha glamourosa, as mulheres sorrirem para nossa garotinha. Tudo parece mágica.

Enquanto dirijo para casa, minha neta canta no banco de trás: "Alegremente, alegremente, a vida é como um sonho".

*Lynn Lauber vive em Nyack, Nova York. Seu mais recente livro é "Listen to Me: Writing Life Into Meaning", (Norton, 2004) George El Khouri Andolfato

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