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11/11/2007

Norman Mailer fez da América o seu assunto

The New York Times
Michiko Kakutani
Norman Mailer era acima de tudo ambicioso. Ele declarou certa vez que queria escrever "um romance que Dostoiévski e Marx; Joyce e Freud; Stendhal, Tolstói, Proust e Spengler; Faulkner e até mesmo o velho Hemingway iriam querer ler".

Ele queria "alterar os nervos e medula" da nação com sua obra, para "mudar a consciência" de seu tempo. Ele queria escrever o Grande Livro, o Grande Romance Americano. Ele queria rebater a bola mais longe que todas.

Apesar de seu primeiro livro, "Os Nus e os Mortos", ter sido um apreciável romance de guerra que lhe valeu enorme celebridade aos 25 anos, e de ter escrito muitos outros romances ao longo de décadas, foi a não-ficção que provaria ser sua contribuição mais duradoura. "Os Exércitos da Noite", seu relato ruidoso e dramatizado de sua própria experiência na marcha antiguerra ao Pentágono de 1967, tornou-se um documento fundador do que Tom Wolfe chamaria de "novo jornalismo": não-ficção contendo todo o ardor, atitude e linguagem corporal de um romance, mas ainda assim baseado na pesquisa e observação à moda antiga.

MORRE NORMAN MAILER
Tyler Hicks/The New York Times
Mailer tentou capturar o espírito americano enquanto o país se arrastava dos protestos de direitos civis e antiguerra dos anos 60 para a era Watergate dos anos 70
Jack Manning/The New York Times
O escritor durante sua campanha pela prefeitura de Nova York em junho de 1969
Fred R. Conrad/The New York Times
Norman Mailer (de pé) ao lado dos escritores Gore Vidal, Gay Talese e Susan Sontag durante conferência em 1993
Era um gênero particularmente adequado para cobrir o tumulto e a mudança cacófona em curso nos anos 60, uma década tão surreal, tão estupeficadora e tão confusa na visão de alguns, que ultrapassava qualquer coisa que um romancista poderia plausivelmente conceber. E Mailer usou seu abundante talento -um olhar rápido, penetrante; um dom para o retrato conciso; um radar como de morcego para clima e ambiente; e uma prosa ruidosa e belicosa- para capturar o espírito americano enquanto o país se arrastava das manifestações de direitos civis e antiguerra dos anos 60 para a era Watergate dos anos 70.

Em seus melhores trabalhos Mailer fez dos Estados Unidos o seu assunto, e ao abordar de tudo, da política e boxe a Hollywood, de astronautas e atrizes até a arte, ele retratou -ou tentou retratar- as contradições do país: seu recato moralista e fascinação pela celebridade, sexo e poder; o passado fora-da-lei de sua fronteira e seu atual mergulho na "terra corporativa", repleta de agrados baratos ao consumidor e o canto de sereia da fama.

Se hipérbole e provocação pugilística se tornaram suas ferramentas de trabalho, então elas também se tornaram instrumentos úteis para registrar as dores do crescimento de uma nação protéica, confusa e conflituosa na metade do século.

A reportagem parecia ancorar os vôos de imaginação obsessivos de Mailer em algo real, e suas limitações freqüentemente o forçavam a realizar seu melhor trabalho: o caso em questão, sua obra-prima de 1979, "A Canção do Carrasco", um épico americano que transformou a história real de Gary Gilmore em uma potente balada sobre amor, violência e morte.

Escrito em prosa simples e despojada que captura as vozes das pessoas na vida de Gilmore, "A Canção do Carrasco" representou uma mudança de estilo para Mailer, que tinha criado em "Os Exércitos da Noite" e outras obras uma série de alter egos prepotentes: Aquarius, o "fora-da-lei mediúnico", o escritor "criminosamente egomaníaco", o "guerreiro, pressuposto general, campeão da obscenidade, o ameado enfant terrible que está envelhecendo do mundo literário".

Estes narradores intencionalmente provocadores lembrariam aos leitores as travessuras públicas do autor -sua candidatura a prefeito de Nova York, o apunhalamento de sua esposa em uma festa com uma caneta e as brigas e ataques contra rivais literários e críticos (incluindo esta aqui). Eles também forneceram a Mailer os meios para filtrar os eventos caóticos dos anos 60 pelo prisma de seu próprio ego combativo, whitmanesco. Eles lhe permitiram mitificar a si mesmo enquanto usava sua própria personalidade como um índice para mapear como o mundo tinha mudado. E anteciparam a narcisística "advertisements for myself" (publicidade para mim mesmo) que se tornaria de rigueur, anos depois, na "Geração Eu" com seus talk shows confessionais e memórias que contam tudo.

Este foco deliberado em si mesmo, observou Mailer certa vez, foi em parte uma resposta à fama que obteve com "Os Nus e os Mortos": ao ter passado de observador a observado, ele disse, ele aprendeu a "viver no sarcófago de sua imagem".

"Para qualquer um que se tornou um autor cedo", ele disse, "e teve uma boa dose de sucesso, como ocorreu com Capote, Vidal, Styron e eu, depois não é fácil e nem automático olhar para outras pessoas com um interesse simples, porque falando de forma geral elas estão mais interessadas em nós do que nós nelas. Isto não tem nada a ver com caráter, mas com a situação social -eu estou mais interessado no Marlon Brando do que ele está interessado em mim- e tem um impacto imenso quando você é jovem. Você se torna um espelho e a única forma que consegue perceber os eventos é pelo espelho de si mesmo".

Sem dúvida este foco em si mesmo teve um papel na natureza cada vez mais solipsística da ficção de Mailer. Em vez de escrever um grande romance tolstoiano sobre os Estados Unidos que "falaria ao tempo de alguém" e registraria o pulso social e político do país, ele cada vez mais produziu romances tendenciosos que eram palanques para suas idéias excêntricas, às vezes perversas, sobre violência, sexo e poder, o que ele certa vez chamou de "os mistérios do homicídio, suicídio, incesto, orgia, orgasmo e Time".

A trama nestes livros freqüentemente pareciam ser secundárias, e os personagens freqüentemente despontavam como personificações das próprias teorias de Mailer. De fato, o herói de Mailer -Stephen Rojack, em "Um Sonho Americano", digamos- tendia a ser uma variação carnívora do "hipster" identificado por Mailer em seu controverso ensaio de 1957, "O Negro Branco": um pistoleiro existencial que define a si mesmo em oposição à conformidade que vê ao seu redor; um indivíduo niilista, disposto, até mesmo ávido, a abraçar a violência como uma força libertadora; um "psicopata filosófico" que vive apenas para si mesmo.

Em obras posteriores, personagens históricos também foram reinventados, às vezes de forma imprópria, como estranhos heróis mailerescos. Picasso, apesar de suas repetidas traições à família e amigos, é celebrado como um artista heróico, que cometeu ousadias perigosas em sua obra ("Portrait of Picasso as a Young Man"). Lee Harvey Oswald é retratado como um visionário descontente ("Oswald's Tale: An American Mystery"). Jesus ganha as próprias obsessões do autor com odores e a dissipação da energia espiritual ("O Evangelho Segundo o Filho"). E Hitler é retratado pelo narrador de "The Castle in the Forest" (um narrador que é um emissário satânico) como uma criança que sofreu abusos e que desenvolveu "uma vontade de ferro", que abraçou o conhecimento nietzscheano do poder que o assassinato confere ao assassino.

Já no início dos anos 80, Mailer observou que a maioria de suas idéias -sobre Deus, arte e violência, assim como sua visão dos Estados Unidos como um tipo de câncer de garganta espiritualmente empobrecido- se desenvolveram durante os anos 50, quando se viu em oposição aos costumes repressivos do país. Cada vez mais, ele disse, ele estava engajado "menos na exploração e mais na ocupação de territórios que visitei anos atrás".

"O que acontece é que você se torna o chapéu em sua própria cabeça", ele disse.

"Você não tem o prazer de desfrutar de sua própria mente da forma como
costumava quando era jovem, mas tem o produto de sua mente para trabalhar. Sabe, eu encontrei Henry Kissinger anos atrás e lhe perguntei se desfrutava do estímulo intelectual do trabalho, e ele disse: 'Eu trabalho com idéias que formei em Harvard anos atrás. Eu não tenho uma idéia real desde que entrei nisto; eu apenas trabalho com idéias velhas'.

Agora eu certamente sei o que ele quis dizer -eu acho que há um número limitado de idéias que você pode ter em sua vida, e assim que você as têm, você precisa desenvolvê-las." O escritor norte-americano morto no sábado, aos 84 anos, queria "mudar a consciência" de seu tempo George El Khouri Andolfato

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