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12/11/2007

A revolução do rock and roll

The New York Times
Jon Pareles
Incontáveis bandas de rock cantaram a respeito da rebelião. Uma das poucas que podem alegar que incitaram uma revolução é a Plastic People of the Universe, que -tendo começado sem nenhuma agenda política- atuou como um catalisador da democracia na Tchecoeslováquia.

A história dos Plastics (como os fãs chamam a banda) é parte central da peça de Tom Stoppard, "Rock 'n' Roll", embora seja contada de forma periférica por personagens fictícios. É uma história não de ativismo, mas esquisitice tratada como sedição, teimosia em choque com a brutalidade e um regime que sem saber consolidava a oposição contra si. A repressão amplificou o impacto da banda, embora os músicos tenham arcado com um alto custo pessoal.

No decorrer de "Rock 'n' Roll" a música jamais é um mero entretenimento. E tampouco é propaganda; não há músicas políticas nem de protesto (os Plastics só gravaram uma música diretamente política durante a sua carreira). Em vez disso a música da peça é, de diversas maneiras, um refúgio, um grito vindo do coração, um estandarte de desafio e um símbolo de esperança.

"Talvez a peça pudesse se chamar "Isto Não é Apenas Rock and Roll"", diz Stoppard. "Porque de fato não é".

O Plastic People of the Universe foi criado na Tchecoeslováquia em 1968, o ano em que os tanques soviéticos entraram em Praga e esmagaram um movimento de liberalização conhecido como Primavera de Praga. A banda era um agregado de hippies artísticos que se consideravam apolíticos. Mas, em meados da década de 1970, os desentendimentos entre os Plastics e o cada vez mais repressor governo comunista estimularam o movimento tcheco de direitos humanos cujo nome foi uma alusão à sua petição e manifesto, a Carta 77, que foi uma resposta direta aos julgamentos e prisões de músicos. A partir de uma década de resistência fundamentada na Carta 77 surgiu a Revolução de Veludo - sem derramamento de sangue - que acabou com o regime comunista na Tchecoeslováquia.

A música sombria e de baixa fidelidade é bem mais conhecida pelos grupos de direitos humanos do que pelos fãs do rock. Ela atraiu músicos do centro de Nova York com a sua angularidade e intransigência, e o crítico Ritchi Unterberger dedicou à banda um capítulo do se livro de 1998, "Unknown Legends of Rock and Roll: Psychedelic Unknowns, Mad Geniuses, Punk Pioneers, Lo-Fi Mavericks & More" (algo como "Lendas Desconhecidas do Rock and Roll: Desconhecidos Psicodélicos, Gênios Loucos, Pioneiros Punks, Não Conformistas de Baixa Fidelidade e Mais"). Uma gravadora tcheca, a Globus, relançou o catálogo completo da Plastic People em CD, e a maioria dos álbuns da banda está disponível no www.tamizdat.org.

"Eles são aquele tipo de banda conhecida pelas pessoas que acompanham a história da música underground, mas que não foi de fato ouvida por quase ninguém", afirma Jimmy Johnson, diretor executivo da companhia de vendas de encomendas musicais pelo correio Forced Exposure, que conta com diversas produções de bandas pouco conhecidas e que costuma ter discos do Plastics. "Poderíamos vender centenas de cópias do primeiro álbum deles, se as conseguíssemos obter".

Stoppard, 70, é tcheco, mas a sua família emigrou em 1939 e não retornou mais. Em uma entrevista no Teatro Bernard J. Jacobs, em Nova York, onde a peça estreou em 4 de novembro, ele disse conhecer o Plastics como um fenômeno dos direitos humanos desde a década de 70, mas que só descobriu a música deles quando começou a escrever "Rock and Roll". Ele também descobriu textos articulados e controversos do gerente e estrategista do Plastics, Ivan Jirous, e do dramaturgo Vaclav Havel, um dos fundadores da Carta 77, que tornou-se presidente da Tchecoeslováquia em 1989 (o álbum "Leading Horses" do Plastics foi gravado em 1981 na fazenda de Havel, depois que a casa rural na qual a música foi executada pela primeira vez foi incendiada pela polícia secreta tcheca.)

Os personagens de "Rock and Roll" narram acontecimentos reais e expõem antigos argumentos -às vezes nas palavras de pessoas que os expuseram na época-, enquanto lutam com questões relativas a ideologia e pragmatismo, política e contracultura, materialismo e espírito, linguagem e mentiras, arte e economia. À medida que a peça se desenrola em direção ao presente, um personagem proclama: "'Faça amor, não faça guerra' foi mais importante do que 'Trabalhadores do mundo, uni-vos!'".

E embora a peça mostre o triunfo contracultural da música, Stoppard diz que a mudança política não é tão simples. "Faça amor, não faça guerra: essa é mais uma idéia utópica", diz ele. "E dá para imaginar isso funcionando muito bem em uma utopia, seja em uma ilha deserta ou em um pedaço de terra nas regiões remotas dos Apalaches, na qual 300 pessoas estão fazendo amor, e não guerra. É algo que poderia funcionar dessa forma. Mas não parece ser um fator de operação sério na forma como o mundo funciona".

Assim como as outras peças de Stoppard, "Rock and Roll" é repleta de parelhas e equilíbrios: personagens paralelos, eventos contrastantes e dialética. A história se passa na Inglaterra capitalista e na Tchecoeslováquia comunista, e gira em torno de Max, um professor ferrenhamente marxista que goza da liberdade acadêmica na Universidade de Cambridge, e de Jan, um estudante tcheco do qual ele é mentor por um breve período. A mais forte paixão de Jan é pelos LPs psicodélicos que traz de Praga, o seu fervor pelos Plastics desorganiza a sua vida.

Uma outra linha narrativa de "Rock and Roll" envolve Syd Barret, que liderou o Pink Floyd até que os danos causados pelas drogas e pela doença mental fizeram com ele ficasse recluso em Cambridge; na peça ele é um dos vizinhos de Max. Música de rock soam entre as cenas, enquanto a informação discográfica do grupo é projetada em uma tela de vídeo, e o final da peça ocorre no primeiro concerto dos Rolling Stones em Praga.

Os próprios Plastics começam e terminam a atual produção tcheca do "Rock and Roll" no Teatro Nacional de Praga, apresentando-se ao vivo. Ivan Bierhanzl, que trabalhou com os Plastics intermitentemente desde 1979, e que agora é diretor e baixista da banda, diz que os Plastics foram a primeira banda de rock a tocar no Teatro Nacional, um lugar onde é muito mais provável que seja apresentada uma ópera ou uma peça de Shakespeare.

No passado, o governo não permitia que o Plastics se apresentasse de forma alguma em público, e muito menos no mais importante local de apresentações culturais da capital.

Os Plastics começaram como fãs, ou imitadores, de bandas iconoclastas norte-americanas, incluindo a Velvet Underground, o Mothers of Investion de Frank Zappa e o Fugs. Assim como outros roqueiros do final dos anos sessenta em todo o mundo, eles transformavam os seus shows em eventos especiais, colaborando com artistas visuais; os Plastics apresentavam-se usando maquiagem pesada e túnicas feitas de lençóis.

"Éramos apenas uma banda de excêntricos, tocando rock and roll", disse Bierhanzl de Praga por telefone antes de uma das apresentações do Plastics no Teatro Nacional. "A banda era um problema para o governo comunista e par ao partido que não gostavam de nós. Eles não apreciavam a nossa estética porque ela tinha traços ocidentais -cabelos compridos, capitalismo".

Por volta da mesma época em que os Plastics estavam deixando confuso o governo autoritário, um outro movimento psicodélico -o tropicalismo no Brasil- fazia algo similar, com músicas pós-modernas alegres, ensolaradas e de letras confusas, que provocaram suspeitas por parte da ditadura militar brasileira. Dois dos líderes do tropicalismo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram primeiro presos, e depois expulsos do país - tendo ido para a Inglaterra, onde acabaram aprendendo formas adicionais de internacionalizar a sua música (Gil é atualmente o ministro brasileiro da Cultura). Mas durante anos o governo da Tchecoeslováquia manteve a maior parte do rock underground dentro do país

O governo anulou as licenças de músicos profissionais dos integrantes do Plastics em 1970, impedindo que eles tivessem acesso a equipamentos e a empregos públicos. Conforme fariam durante quase duas décadas, os Plastics persistiram, em um clima que faz com que, comparativamente, o punk-rock pareça ser um cruzeiro de luxo. "Éramos trabalhadores", diz Bierhanzl. "Para nós era importante tocar e ouvir a nossa música, e de forma alguma queríamos ser heróis".

Liderados pelo compositor Milan Hlavsa, que morreu em 2001, os Plastics deixaram de imitar as músicas norte-americanas e passaram a criar as suas próprias obras. Eles construíram amplificadores caseiros a partir de peças avulsas de rádios transistorizados, e ensaiaram, sem alarde, em salas de estar, aperfeiçoando o material que poderiam ter oportunidade de apresentar em concertos semi-privados uma ou duas vezes por ano.

Parafraseando algumas idéias de Jirous, Stoppard disse que o Plastic People "contava, de certa forma, com uma vantagem em relação aos conjuntos do Ocidente, porque nunca teve que enfrentar a tentação".

"Nunca houve a possibilidade de que um desejo de reconhecimento fosse recompensado", explica ele. "Assim, isso nunca esteve presente como algo que poderia modificar a forma que tocavam ou as músicas que escolhiam".

As músicas do Plastics nunca soaram como músicas de festas. Juntamente com o ritmo do Velvet Underground, eles escolheram as dissonâncias da música européia oriental, acrescida de contrapontos com instrumentos como contrabaixo, clarinete e viola, bem como de solos de saxofone. Os vocais eram em tcheco, compostos de poesia moderna baseada em humor negro. As autoridades decretaram que a música do conjunto era mórbida, e elas não estavam necessariamente erradas quanto a isso. O Plastics desafiava os pronunciamentos oficiais sempre otimistas simplesmente por meio do seu tom amargo e descontente.

O álbum mais famoso do Plastics, "Egon Bondy's Happy Hearts Club Banned", trazia letras do poeta e provocador Egon Bondy, como aquelas da música "No One": "Ninguém/Em lugar algum/Nunca/Jamais/Chegou a lugar algum/Quem, eu?/Que tolo/Eu não". As músicas foram gravadas em 1974; fitas foram contrabandeadas da Tchecoeslováquia e lançada quatro anos depois em um LP na França, e as cópias entraram clandestinamente na Tchecoeslováquia.

Atualmente, enquanto a música percorre o mundo rapidamente via Internet, "Rock and Roll" -com cenas de Jan e da sua frágil e insubstituível coleção de LPs ocidentais- faz lembrar como eram preciosos os discos de vinil.

Os concertos do Plastics eram raros, eventos clandestinos organizados com um humor astuto. Depois que as licenças da banda foram canceladas, ela conseguiu tocar primeiro com a ajuda do seu diretor, Jirous, um historiador da arte. Ele alugava salas para uma demonstração e palestra sobre Andy Warhol e a arte pop; e, a seguir, após uma breve apresentação, os Plastics "demonstravam" um concerto integral com uma série de músicas do Velvet Underground. Segundo a lei tcheca, os casais podiam escolher o seu próprio entretenimento para a cerimônia de casamento, de forma que alguns amigos e fãs do Plastics casaram-se e organizaram concertos da "segunda cultura": uma cultura separada da arte oficialmente sancionada e da oposição explícita.

Os Plastics optaram por não desafiar o regime, mas por ignorá-lo. "Todos os outros simplesmente colaboravam um pouco com o regime por causa do trabalho, do dinheiro, dos estudos, dos empregos e assim por diante", conta Bierhanzl. Assim, todos estavam um pouco em contato com o governo, com exceção da nossa banda maluca. Éramos diferentes".

Mas, eles não foram reciprocamente ignorados pelo governo. As operações repressivas tornaram-se cada vez mais truculentas. "A atitude do governo era do tipo, 'Se você não está conosco, está contra nós'", diz Stoppard.

Em 1974 os Plastics organizaram um dos seus concertos underground na vila de Ceske Budejovice, mas o governo descobriu. Antes do início, os fãs foram desviados para um túnel e emboscados por policiais que portavam cassetetes. Todos foram fotografados para os arquivos policiais, e alguns estudantes foram expulsos da universidade, o que acabou com as suas carreiras acadêmicas.

No início o governo levou os Plastics mais a sério do que a oposição. Conforme é narrado em "Rock and Roll", havia pouco respeito, de ambos os lados, entre políticos e malucos. "A banda de rock and roll não pensava muito nos dissidentes intelectuais, e os intelectuais não davam muita atenção a esses músicos excêntricos", diz Stoppard. "A idéia era que desistir do campo político não era uma resposta adequada: optar por não fazer parte das estruturas, 'Deixem-nos sós'. Todos tinham o direito de fazer tal coisa, mas isso não era oposição".

O governo tomou providências quanto a isso. Em 1976, depois que os Plastics e amigos se apresentaram em um outro festival da segunda cultura, 27 pessoas foram presas.

Vratislav Brabenec, o saxofonista e às vezes compositor do Plastics, e Jirous foram condenados por "organizar distúrbios contra a paz" e presos. "Eles cometeram um grande erro com aquele julgamento", afirma Bierhanzl. "Sem ele, talvez ninguém se interessasse na banda, mas o julgamento foi um grande lance de relações públicas para nós". No julgamento, dissidentes e hippies encontraram pontos em comum e criaram uma aliança.

Mas demoraria mais de uma década até que eles prevalecessem. Enquanto isso, o clima piorou ainda mais. Membros da banda eram repetidamente interrogados pela polícia e às vezes espancados. Os Plastics deixaram de fazer apresentações em 1981, passando a fazer música apenas em ambientes privados.

Brabenec emigrou para Toronto em 1982. Jirous passou anos na cadeia. Hlavasa manteve a banda unida até 1988, e a seguir criou a sua própria banda com alguns ex-integrantes do Plastic People com um outro nome: Pulnoc (Meia-Noite), que obteve permissão para se apresentar na Tchecoeslováquia e no Ocidente. Na véspera da Revolução de Veludo o Plastic People tinha acabado. Era difícil dizer se o governo havia finalmente destruído o conjunto ou se -apesar da suas intenções conscientes- eles de alguma forma cumpriram o seu objetivo histórico.

As músicas de protesto podem rapidamente transformarem-se em artefatos; as pessoas envolvidas haviam saído do cenário, as causas foram perdidas ou ganhas, o slogan tornou-se cada vez mais irrelevante.

Na década de 1990 o reggae e o hip-hop superaram o rock como músicas de protesto global, embora roqueiros como Bruce Springsteen ainda liderem protestos musicais de grande dimensão. Assim como ocorre com muitas outras músicas compostas sob regimes autoritários, as músicas do Plastic People continham sentidos duplos e referências metafóricas que faziam sentido para o ouvinte atento da época. Mas a música do conjunto é mais um estado de espírito do que um manifesto; a sua inquietude amarga e sardônica permanece.

Bierhanzl diz que atualmente o Plastics está "vivendo em uma era contemporânea". A banda voltou a se unir em 1997 para a comemoração do 20° aniversário da Carta 77, e permaneceu junta, com alguns novos membros, desde a morte de Hlavsa. Ela está fazendo um álbum composto de novos materiais para o seu próprio 40° aniversário e lançando um DVD histórico.

Mas a banda está também exorcizando memórias ao se apresentar no Teatro Nacional. Em 1977, enquanto o movimento Carta 1977 ganhava atenção internacional, o governo comunista convocava os artistas a comparecer ao teatro e obrigava-os a assinar uma denúncia do movimento dos direitos humanos. Muitos deles simpatizavam com os objetivos da Carta 77 e eram amigos dos seus membros, mas tinham famílias para sustentar e empregos a proteger; eles assinaram.

"Para nós, é com uma certa satisfação que agora podemos tocar no mesmo salão. Mas isso é a História...", diz Bierhanzl. Peça de Tom Stoppard recria a polêmica banda de rock Plastic People of the Universe que, mesmo sem querer, atuou como um catalisador da democracia na Tchecoeslováquia UOL

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