UOL Notícias Internacional
 

13/11/2007

Em bairro milenar de Bagdá, laços antigos entre etnias evitam a guerra

The New York Times
Sabrina Tavernise e Karim Hilmi*
Em Bagdá
No seu local mais antigo, um pequeno trecho poeirento de uma rua sem pavimentação perto de uma mesquita, o bairro de Bab al Sheik - um labirinto de ruas serpenteantes, muito estreitas para permitir a passagem de carros -, data de uma era, mais de mil anos atrás, na qual Bagdá dominava o mundo islâmico.

Naquela época, pomares e palácios dos príncipes da dinastia Abbasid eram vistos em todo o seu esplendor não muito longe daqui.

Dez séculos depois, Bab al Sheik é menos grandioso, mais ainda extraordinário: nele não houve a carnificina sectarista que vitimou outros bairros, e sunitas, xiitas, curdos e cristãos vivem juntos aqui com uma tranqüilidade incomum. As fronteiras do bairro foram estremecidas por bombas, mas a guerra foi mantida distante do seu centro, em grande parte devido ao seu passado antigo e compartilhado, construído pela confiança e gerações de casamentos entre membros de diferentes religiões e etnias.

Johan Spanner/The New York Times 
A barbearia de Abu Zeinab, em Bab al Sheikh, região que não foi atingida pela violência

"Todas essas pessoas cresceram juntas aqui", afirma Monther, um vendedor de malas do bairro. "Desde a época dos nossos avós, temos o mesmo lugar, a mesma comida; tudo é o mesmo".

Grande parte da Bagdá atual passou a existir na década de 1970, quando a nacionalização do petróleo atraiu iraquianos de todas as partes do país para trabalhar. A população da cidade mais do que triplicou no decorrer de 20 anos, e novos bairros surgiram nas zonas leste e oeste da cidade. A guerra e o conflito civil parecem ter causado um estrago maior nessas novas áreas do que nos bairros antigos.

Ninguém sabe disso melhor do que Waleed, um magro nativo de Bab al Sheik que há dez anos mudou-se com a família para Dora, um novo bairro de classe média no sul de Bagdá.

Em Dora, os moradores vieram de todas as partes. Isso nunca pareceu ter qualquer importância até que as regras básicas da sociedade desmoronaram assim que teve início a ocupação norte-americana. A única barreira de resistência contra o caos completo era a confiança entre as famílias, e em Dora não havia confiança suficiente.

"Nós não conhecíamos o passado dos vizinhos", diz Waleed, sentado com Monther em uma barbearia em Bab al Sheik, enquanto a chuva cai na rua lá fora. Nenhum dos dois homens quis ser identificado pelo sobrenome, por questões de segurança.

"Aqui, não dá para ele mentir para mim", diz ele, apontando o dedo na direção de Monther. "Ele não pode dizer, 'Eu sou isso, eu sou aquilo', porque eu sei que não é verdade".

Segundo ele, em Dora não é possível desfrutar desses poderes de discernimento. E ele pagou um preço por isso: o seu filho foi morto a tiros em 9 de outubro de 2006, quando tentava obter uma cópia do seu diploma de segundo grau. Waleed mudou-se imediatamente da área com a família.

"A primeira coisa que me veio à cabeça foi este bairro", conta ele. "O meu avô é daqui. Aqui eu sempre me senti seguro".

E os dois jornalistas também sentiram-se seguros, tendo feito seis visitas à área em dois meses. Na verdade, o bairro é suficientemente seguro para que se possa andar pelo labirinto de ruas estreitas, acenar para uma mulher idosa sentada em frente à uma janela no nível da rua, parar em uma barbearia e fazer longas visitas a residências sunitas, xiitas e curdas.

Em uma sexta-feira recente, uma grande família curda relaxava em casa. A sala de estar era escura e fria, construída em um beco protegido do sol da tarde. Abu Nawal, o pai, contou como um grupo de homens do escritório do clérigo xiita Muqtada al-Sadr veio até um café no bairro, propondo abrir um negócio no local. O dono do café apontou para um cartaz, que afirmava em letras escuras que todas as discussões de caráter político ou religioso eram proibidas ali. Os homens foram convidados a se retirar.

"Os caras daqui do bairro disseram, 'Se vocês tentarem abrir um escritório aqui, nós o explodiremos'", conta Abu Nawal, um sapateiro, cuja família vive no bairro há quatro gerações.

Algum tempo depois, membros de um partido político árabe sunita também vieram até o bairro, e foram enxotados de forma semelhante.

"Eles quiseram colocar os pés neste bairro, mas não puderam", disse Abu Nawal, que pediu para ser identificado pelo seu apelido, por temer pela segurança da família.

Ele diz que despreza a mistura peçonhenta de religião e política que está estrangulando a sociedade iraquiana, e que gosta das piadas feitas com o objetivo de ridicularizar os políticos. Em um jogo de palavras com os nomes das milícias extremistas, que no Iraque se autodenominam com títulos como Exército Islâmico, ele se refere ao seu grupo de amigos como o Exército Arak, defensores ferrenhos de uma bebida alcoólica deste nome que tem sabor de anis.

O bairro conta com uma outra vantagem: a presença de religiosos moderados. O xeque Muhammad Wehiab, um imame xiita de 30 anos cuja família mora em Bab al Sheik há sete gerações, ficou preso 14 meses durante o regime de Saddam Hussein, um fato biográfico que deveria ter aberto para ele as portas na nova hierarquia de poder dominada pelos xiitas. Mas as suas visões moderadas são impopulares nos círculos das elites, e ele permaneceu no bairro.

Ele sente que está conectado ao local. Uma prova disso é que enquanto falava ao telefone durante uma noite de outono, caminhou até o pequeno beco em frente à sua porta, deitou-se de costas e ficou observando as estrelas no céu noturno.

"Creio que neste exato momento Maliki está sentindo inveja de mim", disse ele para si mesmo. "Nada de guarda-costas. Apenas liberdade. Esta é a bênção".

Ele tem idéias radicais. Uma delas é que os muçulmanos comportaram-se terrivelmente uns com os outros nesta guerra, e macularam o nome do islamismo ao usá-lo para a obtenção de poder.

"Não culpo aqueles caras que desenharam as charges", disse ele, referindo-se às charges dinamarquesas mostrando o profeta Maomé, que desencadearam rebeliões e protestos em todo o mundo árabe no ano passado.

"A culpa é dos muçulmanos", disse ele, sentado em um sofá na sua tranqüila sala de estar. "Foram os muçulmanos que forneceram essa imagem aos cartunistas". Um vendedor de sorvete passa pela janela, gritando em voz alta.

O amigo de Wehiab, um clérigo sunita, compartilha a mesma idéia.

"A maior jihad é a jihad dentro do próprio indivíduo", diz o clérigo, cuja voz tranqüila ecoa pelo bairro quando ele convoca os fiéis para as orações diárias na mesquita Qailani, o ponto de encontro do bairro.

O clérigo, que pediu que o seu nome não fosse publicado, por temer pela sua segurança, devido à importância da mesquita, enaltece as qualidades do xeque sufi do século 12, Abdel Qadr Qailani, que deu o nome à mesquita. Intelectual. Culto. Professor de Moral.

Mas a religião moderada não está atraindo público em escala nacional, e a mesquita, uma das mais importantes instituições sunitas de Bagdá, sente o impacto dos tempos difíceis. As doações diminuíram. A sua cozinha serve apenas uma refeição aos pobres, ao invés das três que costumava servir. Os clérigos sufis não podem realizar os seus rituais. Em fevereiro uma bomba destruiu parte de um minarete.

"Por favor, por favor, escreva o quanto quiser que não queremos guerra", disse o clérigo. Na oração da tarde, alguns fiéis caminham sobre o assoalho de mármore usando meias.

A guerra atingiu duramente as regiões circunjacentes a Bab al Sheik. Atentados à bomba em mercados abertos mataram dezenas de pessoas. Mas no centro do bairro os moradores sentem-se livres para contar piadas.

Na barbearia, Waleed e Monther ouvem as histórias do barbeiro. Uma das favoritas, sobre a morte de um homem chamado Abdul al-Majeed, começa em uma noite em 1977, quando ele exigiu que o barbeiro, Abu Zeinab, um homem travesso, colocasse música para animar um jogo de cartas que transcorria lá fora.

Zeinab atendeu de má vontade ao pedido. A música era famosa, mas al-Majeed achou o estribilho - "você, que está enterrado debaixo da areia" - impertinente.

Furioso, ele pediu ao dono de um outro estabelecimento próximo que colocasse música na vitrola para abafar a primeira. Por coincidência, o homem colocou a mesma música. A seguir, veio a parte engraçada. Naquele exato momento, al-Majeed caiu morto de pernas para o ar.

"A música era uma mensagem para ele", diz Zeinab, agitando os braços para dar ênfase, enquanto os freqüentadores da sua pequena barbearia riem estrondosamente.

Até mesmo na morte, al-Majeed foi azarado. Ele morreu na véspera do censo, quando o tráfego em toda a cidade era interrompido. Grandes quantidades de arak foram consumidas. Quando os carregadores do caixão chegaram ao cemitério, eles cambaleavam de uma maneira nada digna.

"Até o coveiro estava bêbado", conta Zeinab. O homem cavou a cova no mesmo lugar em que o filho de al-Majeed estava enterrado, e disse. "Os dois vão se abraçar lá embaixo".

Lá fora é quase noite. Os homens estão com as bochechas rígidas de tanto rir.

Um garotinho entra na barbearia, carregando uma velha bandeja de alumínio. Na bandeja há lentilhas, arroz, tomates e repolho em tigelas de vidro verde cujas bordas estão trincadas.

Zeinab vai até o caixa, colocando de lado uma tesoura e um pequeno vaso de plantas que parece um brinquedo infantil.

Ele coloca uma fita cassete no seu velho equipamento de som, e o aposento é tomado por melodias religiosas.

A seguir, ele se senta, e convida os convidados para o jantar.

*Johan Spanner contribuiu para esta matéria.
UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h59

    0,15
    3,145
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h01

    0,40
    64.944,57
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host